Neste ano celebro os 70 anos que, como repórter, iniciei um percurso de vida preenchido com a escrita, na Madeira, na Itália, na Inglaterra. Mesmo ocupando profissões diversas, nunca deixei de ser Jornalista e, assim colaborei com Jornais, com revistas, mantendo, com alguns órgãos de comunicação social, uma colaboração permanente. Aliás atribuo à escrita o meu espírito de resistência que, em momentos graves, tem-me permitido enfrentá-los com uma certa serenidade. Mesmo hoje aos 89 anos conservo uma lucidez mental que alimenta os meus sonhos, são muitos, e espero ainda concretizá-los. Às vezes o confronto do físico com a mente é demasiado forte, mas procuro logo me refugiar na escrita para que a mente não seja derrotada, mesmo quando as dores se instalam no físico, com insistência.
Nestes 70 anos o mundo mudou muito, sobretudo na falta de segurança que hoje nos persegue nos vários países, por onde viajamos e que constitui, em minha opinião, falta de liberdade. Há uma medonha e mortífera fome em tantas zonas do globo. Neste longuíssimo percurso, graças às profissões que desempenhei, encontrei importantes figuras do mundo religiosos, militares, políticos, intelectuais, filósofos, teólogos, poetas, cientistas, um astronauta, artistas, cantores grandes compositores, chefes de Estado, Reis e Príncipes reinantes. Retrocedendo, no tempo, ao passado, jamais pensei que iria ter o privilégio de encontrar, de falar ou entrevistar, tão importantes pessoas que se evidenciaram no mundo dando a esse um grande contributo. Personalidades, por serem verdadeiramente grandes e importantes, são de uma simplicidade extraordinária, no trato.
70 anos em que a tecnologia avançou vertiginosamente, deixando para trás as questões espirituais e a economia dominou a natureza, acontecendo as catástrofes que todos os dias assistimos.
Na política o desaparecimento dos grandes políticos que resolviam as graves situações do mundo que governavam, deu lugar ao aparecimento de leaders fracos e impreparados colocando os países numa instabilidade constante, ocasionando tantas tragédias humanas. Por outro lado, verificou-se um alastramento dos ditadores, carrascos, criminosos, dominando populações as quais é negada a liberdade de pensar e de criticar; populações que vivem permanentemente sob ameaça do terror, não sabendo nunca o que lhes sucederá no dia seguinte. A medicina avançou incrivelmente, mas o número de doenças aumentou. As guerras na África, na Ásia, no Ocidente são imparáveis. Em 70 anos de carreira, quando fui operado ao coração e anunciaram-me um cancro, não chorei nunca, refugiei-me no silêncio e libertei o meu imaginário, divagando no irrealizável, afastando a ideia da morte anunciada, mas hoje:
Choro pela morte de milhares de inocentes, de jovens que em combate tombam para defenderem e salvarem, familiares e amigos; para garantir a liberdade do país; Choro pelos que vivem apavorados, ameaçados de morte por terroristas, a quem erradamente chamam de “guerrilheiros”; Choro, pelos que morrem de fome e sofrem de doenças que não se salvem por falta de medicamentos. Aos poucos vão-se definhando; Choro por todas as mulheres que são torturadas, e, nas praças públicas, apedrejadas até à morte; Choro pelo os que são raptados, cortando-lhes as cabeças com catanas, tão impiedosamente mostradas em público, como se fosse um matadouro; Choro pelos jornalistas condenados à morte, mas antes, mutilados, martirizados num doloroso espetáculo publico; Choro pela Ucrânia destruída, lavada em sangue, plantada de cadáveres; Choro porque o Ocidente acobardado, tem medo do Putin e a “besta” já entendeu isso, então já dispara misseis sobre a Roménia. Aos poucos vai estendendo-se …
Choro porque um bando de terroristas do Hamas faz de um povo escudo humano. Um povo que morre aos milhares. Terroristas que têm ainda como reféns tantos israelitas, provocando a dor a tantas famílias;
Choro pelos povos sob a tirania de uns tantos monstros, ditadores da Rússia, da China, do Irão da Coreia do Norte, da Venezuela e tantos países africanos, que não respeitam as leis internacionais dos países e dos povos- para eles o Tribunal Internacional de Haia é papel de música.
Choro pelas milhares de crianças, de adultos, idosos, palestinianos que morrem inocentemente e cujo as lágrimas dos familiares são rios que desaguam nos destroços, bombardeados repetidamente.
São estas situações que me põem perante os dramas de tantas realidades revoltantes, injustas, de degradação de milhões de seres humanos, arrancando-lhes a vida, mergulhando-os na miséria e no terror, permanente. Tal como nunca tinha imaginado ter o privilégio de viver, no passado, os referidos encontros, jamais pensei que, nestes 70 anos, iria assistir a estas cenas que tanto chocam, o mundo, pela crueldade e pelo que elas constituem de degradação, desumanização, de milhões de seres humanos.
Não sei quantos anos mais vou escrever, refletir, nestas questões. Pouco importa, mas de certeza, vou continuar a dar o meu contributo, denunciando, com a escrita e com a voz, porque sendo do mundo estas repudiantes e gravíssimas situações, tocam-me, pertencem-me, como ser humano, porque é de seres humanos que me ocupo. Seres humanos sujeitos à loucura, aos maus instintos e aos caprichos de muitos governantes de um Universo que não sabemos para onde, num amanhã, caminha. Porém, perante as realidades de hoje não descortinamos esperanças pela construção do tão desejado «Mundo Melhor».
João Carlos Abreu