Amanhã, é lançado um trabalho literário com a biografia de Ruy Galvão de Carvalho. Com isto, considero que se cumpre, finalmente, um objetivo coletivo de tornar perene a memória de uma figura grada da cultura açoriana, que merece figurar na galeria dos nossos maiores.
Para além de ter o seu nome na toponímica de Rabo de Peixe e ali a escola se chamar Ruy Galvão de Carvalho, ele é uma figura eminentemente açoriana. Por isso, a personagem multifacetada do professor, conferencista, crítico de arte, escritor, poeta e académico que deve ser lembrada como um ilustre açoriano.
A “Antologia Poética dos Açores“, que ele editou em 1979, contribuiu para que o seu nome ocupasse no panorama literário português um lugar de destaque, merecendo toda consideração a sua inteira dedicação à investigação literária. Deixou ainda uma vastíssima bibliografia diversificada e reconhecida, tendo sido galardoado pelo Presidente da República, General Ramalho Eanes, que lhe atribui a Comenda da Ordem de Santiago da Espada.
Em 1986, ofereceu à Universidade dos Açores um importante espólio que incluía várias traduções dos poemas de Antero, ensaios críticos, correspondência literária diversa, obras de autores açorianos, revistas e jornais com artigos de temática anteriana. Todo este valioso espólio foi destruído pelo incêndio que deflagrou no edifício da reitoria da Universidade e que destruiu totalmente o imóvel. uma grande dor o assolou e constituiu um duro e doloroso golpe, tal ocorrência.
Retenho o seu humanismo como uma das caraterísticas mais marcantes da sua maneira de ser e de proceder. Os seus conselhos, a sua sabedoria, a sua maneira de encarar a vida, mostram bem como se preocupava com o mundo que o rodeava.
A casa onde viveu era um testemunho de um homem que estava no pelotão da frente, em termos culturais e, vivendo mesmo longe dos grandes centros, estava a par das correntes filosóficas e culturais marcantes na Europa e no mundo. Os corredores e os quartos da sua moradia encontravam-se apinhados de livros que doou à Academia açoriana.
Quantas e quantas vezes no autocarro que nos levava de Rabo de Peixe para o Liceu, eu me sentei ao seu lado e a conversa, invariavelmente, prendia-se com as suas preocupações e inquietações sobre os acontecimentos do dia-a-dia e que ele gostava de trocar impressões. Raramente falávamos das aulas que eu frequentava, de bata branca, como ele a todos os alunos exigia, mesmo em tempo em que os outros professores deixaram de obrigar o seu uso.
A cultura açoriana a ele lhe deve muito e foi o Mestre Ruy Galvão um dos primeiros a sugerir a existência de uma literatura eminentemente açoriana – tese agora apoiada por muitos intelectuais dos Açores.
Quando faleceu, a Assembleia Municipal da Ribeira Grande, ao tomar conhecimento do desaparecimento deste vulto das letras açorianas deliberou, por unanimidade, tombar em ata o seu voto de profundo pesar, reconhecendo o contributo e a dedicação inexcedível do Mestre Ruy Gaalvão de Carvalho à causa da literatura e cultura açorianas. Mais deliberou sugerir à direção Regional dos Assuntos Culturais a criação da Casa-Museu Ruy Galvão de Carvalho, aproveitando a casa onde nasceu, o que viria a dignificar o canto que lhe foi berço.
Causava-me admiração a distinta personalidade do Mestre Ruy Galvão enquanto homem das letras açorianas e enquanto homem, pelo facto de ele ter o hábito de ir à missa diariamente no final da tarde, fora do período letivo, dado que temos a perceção de existir uma dicotomia acentuada entre os filósofos e a religião, pelo que admirava o intelectual e o homem.
A memória do mestre Ruy Galvão de Carvalho está assinalada numa das artérias de Rabo de Peixe. Contudo, a casa onde ele nasceu encontra-se em dolorosas ruínas, sem que ninguém lhe deite a mão.
Até quando?
António Pedro Costa