Opção conveniente e económica para enviar mensagens escritas, designadas correctamente de aerogramas.
Carregavam pesos intangíveis, como emoções e pensamentos, contrastando com as agruras diárias, do sofrimento físico e psicológico da guerrilha.
Nos idos anos sessenta e setenta, era o meio de correspondência das forças armadas portuguesas destacadas em África.
Consistia numa única folha de papel que era dobrada e colada, formando uma carta.
Longe estava o avanço da tecnologia digital e da comunicação instantânea.
Anos sessenta do século passado. A invasão da India Portuguesa ocorria e o território era ocupado e anexado pela União Indiana.
O Portugal Imperial, do Minho a Timor, iniciava o seu estertor.
Para Angola e em força. Eram as ordens do Presidente Salazar.
Cantava-se “Angola é nossa … É nossa”.
E rufavam os tambores, não às ordens dum qualquer “Cabo de Guerra”, mas dum antigo Lente de Universidade.
Governava o país com “mão de ferro” em regime ditatorial.
No quartel dos Arrifes jovens “prontos” preparavam-se para passarem à “peluda”, como se dizia na gíria, isto é, iam para a disponibilidade e voltar à “vida civil”, onde os esperavam o amanho das terras ou o caminho da emigração, como acontecia com centenas de açoreanos.
Mas estavam prontos, sim prontos para Angola e em força, que o Professor de Santa Comba Dão, “ não era de por água a pintos”.
Que o digam as outras centenas de cidadãos da Pátria amada, que enchiam os calabouços da polícia que o defendia.
Sim porque o Estado era ele, o Professor pobre e modesto. Mas era ele que mandava.
Ponto final. Sem parágrafo.
Heróis anónimos, irmãos, tios, primos e até, alguns, já pais, eram os maiores, com medalhas ou sem medalhas, todos nados e criados nestas ilhas de bruma.
Eles de fardas cinzentas, que avós, mães ou tias, ajudavam também a ficarem “prontas”.
Regressaram de amarelo vestidos. Depois de “tudo” ainda tiveram tempo para trazerem umas cânforas, que os poucos angolares, para mais não davam.
Ainda, não há muitos anos, numa vinda do Canadá, para onde haviam emigrado à procura de melhor vida, com uma lágrima traiçoeira, falavam dos camaradas mortos ao lado, na picada, que o capim encobria.
Por isso uma gratidão enorme aos Escritores, que o Mundo já consagrou, como o açoreano João de Melo ou o António Lobo Antunes.
Curiosidade, ou talvez não, um Enfermeiro e outro Médico. Ambos com missões em Angola.
De quando em vez conversas se vão mantendo, com muitos veteranos que depois de emigrarem, como outros dos seus companheiros de “campanha”, regressaram às terras que os viram nascer e nelas se reinstalaram.
“Picados” e por vezes com uma disfarçada lágrima, temperada com o sal que só “elas” transportam, lá se volta, “volta e meia” à “picada”, que de voltas tinha muitas, mas eram nas curvas, que a morte “emboscada” os espreitava.
A “ Pedra Verde”, Nambuangongo, o “ lendário “ Tenente – Coronel Maçanita, que recordam como um grande condutor de homens.
Camaradas tombados. Canhangulos e catanadas surgidas a poucos metros.
Gritos e a fome. As fardas encharcadas até aos ossos.
Os aerogramas inacabados, as sepulturas improvisadas ali mesmo, as preces mais sentidas do que ditas…
Aerograma, também é para ti, caro Luís, que a 10 de Junho do longínquo ano de 1580, morrias.
Só. Depois de deambulares pelas estreitas vielas de Lisboa, apenas com a Pátria no teu coração.
Mestre da Língua, aqui se deixa perdão por tão mal a tratar, nestes tão desajeitados rabiscos.
Licença para te citar, com esta sublime e imortal frase, homenagear todos os Heróis de sempre.
Luís Vaz de Camões, certo se está que não te importas de incluir neste número “infinito” de heróis, estes patrícios, cujos nomes inscritos estão em placas.
“ AQUELES QUE POR OBRAS VALOROSAS SE VÃO DA LEI DA MORTE LIBERTANDO”
Termina-se já, sem antes deixar um apelo ao Presidente de Portugal, Professor Doutor Marcelo Rebelo de Sousa.
Que a 10 de Junho de cada ano, não deixe de na sua agenda ficar escrito, como preito de homenagem aos Açoreanos que tombaram em África, na chamada “guerra do ultramar”, depositar uma flor de hortência azul aconchegada com um ramo de criptoméria verde.
Junto à Estátua do Soldado, onde inscritos estão os nomes de todos aqueles que, viram as suas vidas interrompidas, em nome dos interesses de alguns poderosos, mas que na altura, lhes diziam ser em nome dos superiores interesses da Nação.
Sr. Presidente queira com muito afecto, qualidade que o seu Padrinho, Presidente Marcelo Caetano também possuía.
Aquelas “conversas em família”, ainda estão gravadas.
Mais afecto não havia. Depois do “frio distanciamento” do Presidente Salazar, do qual, aos seis anos, o Senhor apanhou boleia no banco traseiro, embora sentado no lado errado.
Serão os Açores a “última fronteira”? Ou serão colónia? Se assim for, do Senhor seu Pai, Governador Baltazar, deve ter retido o sentido cristão da acção psico-social.
Sr. Presidente, renova-se e retribui – se o genuíno afecto. Quanto à foto ou “selfie” (como agora se diz), será aquela que a História registará.
António Benjamim