Ricardo Simões é cirurgião ortopédico dedicado à patologia da coluna e exerce funções no serviço de ortopedia do Hospital Divino Espírito Santo. “A sensação que eu tenho é de que, com a existência de doentes mais idosos, existe uma maior pressão de tratar estes doentes, pois as pessoas vivem mais tempo e querem passar estes anos com a máxima qualidade possível – afirma o cirurgião.
Correio dos Açores – Poderia fazer um breve resumo da sua experiência nesta área da ortopedia?
Dr. Ricardo Simões (cirurgião ortopédico) – Actualmente sou especialista, trabalho no serviço de ortopedia do Hospital Divino Espírito Santo. Sou especialista há cerca de seis anos. Comecei-me a interessar pela área da coluna na altura do internato, na altura em que estávamos sob formação de ortopedia geral e traumatologia. No meio do internato fiquei interessado de forma mais consciente sobre a patologia da coluna, diria que a partir do terceiro/quarto ano do internato. E a partir daí tenho-me dedicado mais nesta área, na área traumática de coluna como de patologia degenerativa.
Quais são os casos ou condições que estão mais presentes entre os seus pacientes?
Em relação à patologia da coluna, existe logo uma divisão importante. Pelo menos na maior parte das patologias que nós tratamos, dividimos a patologia em coluna traumática e não-traumática. Traumática habitualmente pode ocorrer em acidentes de alta energia, geralmente em jovens, por exemplo quedas de altura. E também em doentes idosos com osteoporose, tipo de patologia que leva que mesmo com trauma de baixa energia, ocorram fraturas.
Outro tipo de doentes são os doentes com patologia degenerativa da coluna, e dentro destes também existe uma divisão importante em relação à idade. Os doentes mais idosos têm outro tipo de patologia, ou seja uma patologia degenerativa como o canal de estreito lombar ou espondilolistese degenerativa. São patologias que normalmente acontecem em doentes com mais de cinquenta/sessenta anos. Portanto, eu diria que há a primeira divisão em relação ao trauma e patologia degenerativa, e mesmo nestas duas divisões existem outras divisões consoante a idade do doente. Existem patologias que são mais recorrentes entre os mais jovens e patologias que são mais recorrentes em idades mais envelhecidas.
Como se pode prevenir determinadas problemáticas associadas à coluna?
Obviamente que em doentes mais obesos, com mais peso ou maior sobrecarga, seja sobre a coluna lombar, seja na zona cervical, correspondem a um factor de risco importante na patologia da coluna. E outro tipo de factor de risco são as profissões, pois existem profissões que têm um desgaste mais rápido do que outras em relação à coluna, nomeadamente construtores civis, condutores de camiões pesados, atletas de certos desportos, leva que se aumente o risco de patologia da coluna.
Estes factores de risco devem ser diminuídos ao máximo porque, obviamente, a prevenção é sempre melhor do que a necessidade de cirurgia ou intervenção, que deve ser evitado ao máximo.
Faz uma relação entre o fenómeno de sedentarização dos mais jovens com patologias da coluna nestas idades?
Eu julgo que em doentes mais jovens eu não noto nenhum aumento importante da patologia da coluna. Pelo contrário, em doentes mais idosos, tendo em conta que as pessoas vivem mais tempo, as pessoas procuram melhor qualidade nestes últimos anos da sua vida, eu noto cada vez mais que existe uma maior procura de algum médico que possa tratar de doentes acima dos sessenta e cinco/setenta anos de idade.
Portanto, conclui-se que o aumento da esperança média de vida está relacionado com a procura de tratamentos ou intervenções na sua área?
A procura é cada vez maior, pelo menos é a percepção que eu tenho. Atenção que eu faço estas cirurgias há cerca de cinco anos, mas a percepção que eu tenho é de que cada vez existe um maior interesse por parte de pessoas mais idosas, pois a patologia da coluna degenerativa nestas idades é uma patologia muito delicada, em que o doente tem uma limitação importante no andar, dor lombar, dor diária, dor noturna, não consegue muitas vezes andar mais de cem metros. Isso acaba por ser uma coisa muito limitativa do dia-a-dia.
Portanto, a sensação que eu tenho é de que, com a existência de doentes mais idosos, existe uma maior pressão de tratar estes doentes, pois as pessoas vivem mais tempo e querem passar estes anos com a máxima qualidade possível a partir dos sessenta/setenta anos de idade.
Que tipo de intervenções são efectuados nestes casos?
Em termos de traumatologia, a intervenção que se faz em fraturas lombares é maioritariamente através da fixação da coluna com parafusos, de forma aberta ou de forma percutânea, com pequenas incisões.
Quando falamos de patologia degenerativa falamos de várias formas de tratar. Abordagem menos agressiva, fazendo incisão à volta de um ou dois centímetros, consegue-se tratar do problema do doente. Contudo, existem doentes de patologias um pouco mais avançadas e em que não é possível ocorrer tratamento por essa via minimamente invasiva, e de que realmente é preciso fazer uma cirurgia com um pouco mais de agressividade. Obviamente, que cada cirurgia tem de ter em conta a patologia do doente, vendo o principal objectivo que temos de tratar, mas também o doente que temos. Se é um doente muito idoso, com patologia dois ou três níveis da coluna lombar, nós temos de ser o mínimo agressivo possível, pois complicações em doentes dessa idade, que implica a colocação de muito material, é mais alta. Temos sempre de ver qual a patologia que estamos a tratar, e dentro das nossas capacidades técnicas, qual é a melhor forma de executar a cirurgia com a menor forma de agressividade possível.
José Henrique Andrade
