No Teatro Angrense, dias 25 e 26 de Outubro, pelas 21h30, a companhia Cães do Mar apresenta o espetáculo“FRIZA”. “FRIZA” é um espetáculo de teatro físico e dança, que se foca nas histórias e nas vivências dos emigrantes açorianos nos Estados Unidos da América. Ana Brum, Diretora Artística dos Cães do Mar, faz um balanço da atividade artística da companhia no presente ano e afirma que “ falta uma política cultural que preveja essa necessidade de circulação entre ilhas” e de que “é preciso iniciar um eficaz acesso, nas ilhas mais pequenas, a bens culturais .“
Correio dos Açores – Qual é o conceito e a temática do espetáculo “FRIZA” ?
Ana Brum (diretora artística) – O “FRIZA” é um espetáculo de teatro físico e dança, reflexo de várias disciplinas. É um espetáculo difícil de colocar numa só gaveta, se é que ela existe. É um espetáculo que se foca nas histórias, nas vivências dos nossos emigrantes nos Estados Unidos.
De que forma pretendem passar essa mensagem?
Como eu disse, é um espetáculo quase não-verbal, portanto nós recorremos pouco à narração e a expressão dos atores é sobretudo virtual, o espetáculo em si é sobretudo virtual. Com recurso a imagens projectadas e a momentos coreográficos, muita música, até diria que a música é preponderante neste espetáculo.
É um espetáculo muito visual, o que nós tentamos criar são objectos abertos que permitam várias leituras, ou seja, cada pessoa faz uma leitura daquilo que está a ver, embora possa percorrer para outras conclusões mais ou menos óbvias das dificuldades, dos amargos e dos doces da vida de quem emigra, sejam eles açorianos ou não. Espero que o espetáculo consiga passar esse lado mais emotivo dessa perspetiva.
Que balanço é que faz do trabalho dos Cães do Mar no presente ano?
Eu diria que foi um ano bastante positivo. Quero frisar que ainda estamos em processo de criação.
Começámos o ano com uma criação chamada “Música na Estrada” com a Lúcia Moniz. Tivemos também um projeto que se chama “A Matilha”, um grupo que nós criamos, um grupo de formação e criação amadora. Nós criamos o mesmo para poder acolher aqueles que procuram formação para fazer teatro de uma forma não-profissional.
Criámos um espetáculo de rua chamado “Equestres”. Tivemos de novo uma edição do projeto “Rua Direita” que, penso eu, voltou a aumentar o seu público este ano, em relação aos projetos anteriores.
Acolhemos uma peça do Teatro Ibérico, “KINDZU” , em que apresentamos em Angra e no Raminho, na costa norte da ilha.
Uma coisa que tentamos fazer é, quando acolhemos projectos, se for possível e tivermos condições, levar a outras salas na ilha, um acesso mais rápido às populações que não vivem em Angra do Heroísmo ou na Praia da Vitória. Temos também a nossa relação com a Escola dos Biscoitos e um projecto no âmbito do Plano Nacional das Artes, em que trouxemos uma obra, para criar um pequeno filme com as crianças das Escola dos Altares. Eu diria que temos estado bastante ocupados.
Têm intenção de executar espetáculos em outras ilhas nos Açores?
No ano passado estivemos no Pico, no Fringe, com o “A Balada de Portuguese Joe”. Nesta medida também vamos criando parcerias. Esperamos no próximo ano ir a São Jorge, Santa Maria, Pico (que já é uma ilha parceira com a Mirateca Arts). A pouco e pouco tentamos circular nos Açores, porque a fim e ao cabo acabamos na maioria das vezes a circular mais no continente do que nos Açores. Um pouco talvez porque existe um desinteresse ou pouco abertura. Nós inclusive tentamos abordar o Teatro Micaelense e, até agora, não conseguimos uma resposta conclusiva sequer.
Então, podemos dizer que, de certa forma, ainda existem muitos obstáculos na cultura e no sector do teatro nos Açores?
Eu diria que falta sobretudo uma política cultural que preveja essa necessidade de circulação entre ilhas. É preciso iniciar um eficaz acesso, nas ilhas mais pequenas, a bens culturais. Isso está algures previsto na Constituição Portuguesa ao fim ao cabo.
E isso ao fim de décadas do que o Estado Português tem feito no território continental, através de projectos com apoio da DGARTES, ao contratualizar companhias profissionais das diversas áreas para criarem, para circularem um pouco por todo o país. Não é à toa também, isto é, numa relação de causalidade, que nos Açores estamos com os piores resultados a nível escolar do país, também uma das zonas mais esquecidas, e mesmo entre ilhas existem grandes assimetrias de acessos. Isso põe em causa com que se possa crescer com o horizonte e com perspetivas.
Sinopse: FRIZA é um espetáculo de movimento sobre o movimento. Dois performers dão corpo às palavras que não nos cabem na boca, às palavras que temos de inventar quando nos inventamos em novos e desconhecidos territórios, lugares habitados por outros hábitos e linguagens.
FRIZA é uma reflexão sobre a emigração Açoriana, mas também sobre todas as migrações ou movimentos que implicam aprender a estar num novo chão, relacionarmo-nos com novas realidades, conhecer novas línguas e linguagens. As migrações continuam a ser espaço de fusões, invenções, reações, recreações… São espaços de ajuste e de novidade, são espaços de criação e esperança. Mudamo-nos para melhor ou só com a esperança nisso?
FRIZA junta um poeta americano, uma compositora da beira baixa e artistas dos/nos Açores que pensam em conjunto o movimento “desfrisado”. Pensar nas migrações passadas é pensar nos movimentos humanos de hoje.
FRIZA é um espetáculo de teatro físico a partir do ontem, do hoje e do amanhã.
José Henrique Andrade
