Corria o ano de 1973 quando, ainda em Luanda, ouvi pela primeira vez falar do Prof. José Enes, salvo erro numa conversa informal com o meu amigo João Gonçalves, diretor da revista Notícia. Sabedor da minha ligação aos Açores, sempre que havia novidade, dava-me sinal. Só mais tarde, no outono de 1975 e no rescaldo do chamado “verão quente” do PREC -processo revolucionário em curso, quando me encontrava em França na Universidade de Marselha preparando o doutoramento, primeiro como bolseiro da NATO e depois do Governo francês, voltei a ter notícias daquele que, sem então me aperceber, iria determinar o meu percurso de vida. As comunicações telefónicas com os Açores não eram fáceis, recebendo-se as notícias via rádio ou por telex, umas fitas furadas que transformavam o código em letras. Como tinha alugado um pequeno apartamento num 1º andar, a um técnico do laboratório onde prosseguia os trabalhos da tese, por vezes falava com a família para Ponta Delgada pelo telefone, que ficava no hall do rés do chão, onde moravam os donos da casa. Daí estar mais ou menos ao corrente das movimentações para criação do Ensino Superior nos Açores e ter notícias do convite feito pelo Presidente da Junta Governativa Regional ao Prof. José Enes– que nessa altura, depois de ter lecionado na Universidade de Luanda entre abril de 1973 e dezembro de 1974, era docente do Instituto Politécnico da Covilhã — para liderar o grupo de arranque que planeou o Instituto Universitário dos Açores. Mas o que não sabia, é que o Dr. Ricardo Ferreira, reputado professor de matemática micaelense, também ele membro do grupo, obtivera de meu pai, gerente da firma H. Vaultier, o número telefónico do apartamento de França e o passara ao Prof. Enes. É assim que, numa noite outonal de 1975, o meu amigo e senhorio Jeannot me bate à porta às 2 da manhã, dizendo que tinha “ unappeldes Açores”. Alarmado, julgando que algo mau acontecera em casa de meus pais, enfiei um roupão, quase voei escada abaixo e atendi a chamada. Do lado de lá do Atlântico, a voz serena e educada do Prof. Enes identificou-se, pedindo desculpa por me incomodar “às 11 da noite”. Feliz por atender, agradeci, mas explicando que em Antibes eram 2 da manhã, mas que “Sr. Reitor, isso é irrelevante”. Ao que o meu interlocutor respondeu que “ainda não sou Reitor, mas com sua ajuda posso vir a ser, porque venho convidá-lo para se juntar ao projeto de criação da Universidade dos Açores”. Aceitei de imediato e a minha alegria extravasou a linha, mas informei o Prof. José Enes que estava colocado na Universidade do Minho desde setembro, ao que me respondeu “não se preocupe, tratarei disso com o Prof. Lloyd Braga” (Lloyd Braga, era então Reitor da Universidade do Minho). Despedi-me do nosso Primeiro Reitor de tal modo entusiasmado, que mal consegui dormir nessa noite.
Pouco tempo depois voei para Lisboa, onde tivemos a primeira reunião no Ministério da Educação com o Secretário de Estado do Ensino Superior, aceitando um desafio que mudou a vida nos Açores. Recordo com admiração as reuniões preparatórias do início do ensino no Instituto Universitário, onde a sabedoria do Prof. José Enes moderava alguma audácia das minhas intervenções. Aconteceu quando teimei em copiar o modelo das universidades ultramarinas, que tinham tido como pilares os Institutos de Investigação de Angola e Moçambique. O nosso Primeiro Reitor, perante a minha insistência em começar pela investigação científica, disse-me uma verdade que nunca esqueci: “ou começamos pelo ensino superior, ou a sociedade açoriana nunca apoiará a universidade”; confiando-me depois e de imediato, a tarefa de instalar os primeiros laboratórios científicos nos 3 polos de Ponta Delgada, Angra e Horta.
Com este fim, o Prof. Enes conseguiu um apoio financeiro de um empréstimo holandês de 300.000 florins, para o que me ligou para França, solicitando-me que fosse a Haia assinar o contrato com o DFO –Dutch Foreign Office. Não posso afirmar se foi em 1976 ou depois, mas o certo é que, quando o nosso Reitor me disse que só me poderia pagar a deslocação mais tarde, tranquilizei-o logo, resolvendo o assunto com a agência Antibes Voyages, onde tinha conta corrente. Entretanto, graças às diligências do Prof. Enes, quando cheguei a Haia e fui ao DFO, tudo foi fácil. Foi o empréstimo holandês que permitiu, conjuntamente com os apoios da USAID-Agency for International Development (tudo fruto da ação diplomática do Reitor Enes) instalar os primeiros laboratórios de biologia e química nos 3 polos universitários açorianos, instalação de que fui responsável, sempre com total suporte reitoral. Poderia e irei dizer muito mais no próximo “cesto da gávea”, mas por agora fico pela recordação doque declarei à imprensa em agosto de 2013, quando do falecimento do Prof. José Enes, considerando-o “o homem certo, no lugar certo e na hora certa para a criação da Universidade dos Açores”.
Vasco Garcia