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“Tinha 42 anos, uma filha de 13 e sentia que poderia morrer no dia seguinte. Esse é o primeiro impacto: o confronto com a mortalidade”

Todos os anos são diagnosticados cerca de 130 novos casos de cancro da mama nos Açores, e o dia 19 de Outubro serve para consciencializar sobre a importância do diagnóstico precoce, que pode significar um tratamento mais eficiente e menos agressivo. Para assinalar esta data, conversámos com Rita Reis, uma sobrevivente que partilha uma história, que é sobretudo de superação e resiliência, mas sem esconder os momentos mais difíceis, que vão desde a espera pelo diagnóstico até ao pós-tratamento, onde, como afirma, “quando acaba tudo, ninguém nos diz: está curada”.

Correio dos Açores – Qual a importância de assinalar o Dia Internacional do Cancro da Mama?
Rita Reis (sobrevivente de cancro da mama) – A importância de assinalar este dia está sobretudo relacionada com a prevenção. Se nunca falarmos no assunto, as pessoas acabam por deixar passar os seus exames de rotina e os cuidados que precisam de ter, não só em relação ao cancro da mama, mas na saúde em geral. Daí a relevância da consciencialização, para que homens e mulheres percebam que é necessário prestar atenção ao seu corpo e realizar exames anuais, como as mamografias e a auto-palpação mamária. O diagnóstico precoce é essencial para a sobrevivência, e só o conseguimos se estivermos atentos.

Qual a primeira noção que se tem de que poderá ter a doença? Pode partilhar connosco o momento em que recebeu o diagnóstico e o que sentiu?
O meu diagnóstico foi feito num exame de rotina, que realizava regularmente. Em 2017, surgiram tumores que não detectei, já que fazia ecografias anualmente e, por isso, não realizava muita auto-palpação mamária. Naquele momento, todos os sinais apontavam para algo maligno, e, apesar de ainda não ter uma confirmação oficial, desde o primeiro dia, tive a sensação de que seria cancro da mama. Claro que, nesse dia, parece que o nosso mundo desaba. Tinha 42 anos, uma filha de 13 anos, e sentia que poderia morrer no dia seguinte. Esse é o primeiro impacto: o confronto com a mortalidade, algo com que felizmente não lidamos diariamente. A espera pela confirmação do diagnóstico foi realmente dos momentos mais difíceis.

Houve algum sintoma ou sinal que, olhando agora para trás, associe ao diagnóstico?
Não tive sintomas físicos. Talvez um cansaço diferente, mas, como trabalhava muito, nunca valorizei. Na verdade, o cancro da mama é muito silencioso. Ou a pessoa detecta um nódulo, ou, como no meu caso, o tumor estava tão profundo que nem sequer o consegui palpar. Além disso, normalmente, não provoca dor. Às vezes, há manifestações na pele e, nesses casos, é mais fácil perceber. Mas, quando os tumores estão mais profundos, não se sente nada. A verdade é que pensava que ia fazer um exame de rotina normal, com os mesmos resultados de sempre. Achava que estava tudo bem, mas afinal não estava.

Como foi o processo de tratamento?
Depois do diagnóstico, percebi que os profissionais de saúde são incríveis, pelo menos na minha experiência no HDES. Passei de achar que ia morrer no dia seguinte a entender que tinha uma luta pela frente, mas já com o objectivo de superá-la. O meu cirurgião foi excelente na explicação de todos os passos do tratamento e do que poderia acontecer, assim como a oncologista e as enfermeiras da oncologia; todos foram muito assertivos e esclareceram todas as perspectivas do que poderia acontecer.
No meu caso, primeiro fiz quimioterapia porque o tumor era grande e havia adenopatias. Portanto, iniciei com a quimioterapia, só fui operada depois e fiz a radioterapia no final. É normal ter medos sobre o que vamos sentir e sobre o que vai acontecer. No entanto, uma vez que entramos no processo, torna-se mais fácil, pois estamos a agir. É importante decidir que não controlamos tudo e que temos de seguir as orientações que nos dão, acreditando sempre que vai correr bem.

Qual o papel do apoio de quem nos rodeia (família, amigos, profissionais de saúde) durante o tratamento e que estratégias utilizou para superar os momentos mais difíceis?
O cancro de mama não afecta apenas a pessoa diagnosticada; o cancro é da família toda — do marido, dos filhos e dos amigos — porque tudo vai mudar. A pessoa que até então era saudável, de um momento para o outro, vai passar por um processo de doença e vai ficar mais frágil. E nesse momento, onde tudo é uma incógnita, estamos todos no mesmo barco.
Por outro lado, e por mais que tenhamos os amigos, a família toda a apoiar, o diagnóstico é uma experiência muito solitária. Nós sentimos que aquilo é uma coisa só nossa, que somos nós que temos de enfrentar.
A minha estratégia para lidar da melhor forma possível com este momento foi, em primeiro lugar, pensar que só podia ter uma doença. Ou seja, não ia arranjar mais uma, sobretudo uma doença psiquiátrica ou qualquer outra coisa. Portanto, senti que tinha de lidar com aquilo de maneira a sobreviver e a fazer tudo o que me dissessem para poder ter um desfecho positivo.
De resto, são os profissionais de saúde que nos ajudam a lidar com tudo aquilo que vai acontecendo durante os tratamentos. E claro, ser positiva. Ser positiva no sentido de acreditar, mas também há momentos em que choramos muito e achamos que não vai correr bem. E na verdade eu acredito que esses momentos são muito importantes, pois não vivemos numa alegria exagerada a achar que, por sermos positivos, vai correr tudo bem. Porque as outras mulheres que não tiveram um desfecho feliz também foram positivas. Mas temos de acreditar da mesma maneira que queremos sobreviver; eu acho que é sobretudo uma questão de sobrevivência.

Há algum momento que foi particularmente difícil?
O momento mais difícil foi começar a fazer os tratamentos, porque o intervalo entre o diagnóstico e o início do tratamento demorou um bocadinho. E aí, as noites são terríveis, porque não sabemos o que nos espera, não sabemos se o tratamento vai resultar. Pensamos muito em quem vai ficar e em tudo o que pode acontecer se não estivermos cá
Iniciando os tratamentos com o apoio de toda a equipa do hospital, acho que isso passa a ser uma coisa muito secundária. O futuro já não é tão longínquo, pois não pensamos a longo prazo; pensamos em fazer o tratamento e a cirurgia. Vamos reflectindo sobre muitos outros aspectos da nossa vida que não considerávamos antes, porque no fundo achávamos que éramos imortais – a sensação que todos temos, de que nunca vai acontecer connosco.
Acredito que o apoio da minha família também foi muito importante, pois temos um sentido de humor que ajuda a tornar as situações difíceis mais suaves. Foi a queda do cabelo, o aumento de peso devido à questão hormonal, que também é muito alterada nestes casos, e fomos lidando com tudo conforme ia acontecendo, da melhor maneira.
Mas também se chora muito. Sente-se frustração e questiona-se: “por que é que só aconteceu comigo?” Mas temos de andar para a frente; e, na verdade, andar para a frente significa fazer o que nos dizem e cumprir com isso.

Como foi a fase do pós-tratamento?
Falávamos dos momentos mais difíceis e, pensando melhor, o pós-tratamento foi realmente a fase mais difícil — quando terminou tudo. Enquanto estamos a fazer o tratamento, estamos apoiados por uma rede e a receber medicação para que isto não volte a aparecer. Quando acaba tudo, ninguém nos diz: “está curada”, porque numa doença deste tipo não se pode dizer que a pessoa está curada logo de imediato. Ou seja, a partir daqui, vamos controlando isto e vamos vendo.
Esta fase deixou-me muito angustiada, porque na verdade eu preferia continuar a fazer tratamentos para que o cancro nunca mais aparecesse. Depois, o tempo vai passando e nós vamos percebendo que realmente não controlamos as coisas e que temos de viver o dia a dia, ou, num futuro próximo, da melhor maneira possível. E foi essa a decisão que tomei: viver mais e melhor, ter objectivos e acreditar que conseguiria concretizá-los. Depois de passar por um balanço destes, pouca coisa mexe connosco.

Recidiva é uma preocupação constante para quem passa por um diagnóstico de cancro. Como é que se encara essa possibilidade?
A recidiva está muito presente nos primeiros tempos, mas depois vamos aprendendo a lidar com isso. A recidiva significa voltar a passar pelo processo, mas, para nós, já não é o completo desconhecido.
Já no caso da metastização, estamos a falar de um diagnóstico mais pesado, mas actualmente já há muitos tratamentos e ajudas para controlar a doença. A metastização já não é uma sentença imediata.
Pelo menos no meu caso, não vivo com as coisas que não posso controlar, e a recidiva é algo que não posso controlar.
Claro que procuro cuidar da minha alimentação, fazer exercício físico e seguir tudo o que está recomendado para evitar que isso aconteça, mas, se tiver que acontecer, vou ter que lidar e acredito que essa perspectiva ajuda muito. Ou seja, se acontecer, “a gente logo vê.” Acho que é isso que se começa a fazer depois dos tratamentos: não queremos pensar nas coisas que não controlamos.
A equipa que nos acompanha também tem a valência da Psico-Oncologia, que é uma ajuda muito importante para todas as fases e que está sempre muito disponível. Ajudam-nos a lidar com todas as fases do processo e com tudo aquilo que nos acontece, inclusive aquilo que não está directamente relacionado com o cancro, mas com as consequências que ele deixa.

Após a recuperação, houve mudanças significativas na sua forma de ver a vida ou de cuidar de si mesma? Alterou algum hábito ou estilo de vida?
Foi uma mudança muito radical porque, até ao diagnóstico, eu trabalhava muito, não dormia, não me alimentava bem e praticava desporto apenas quando dava. Mas, quando percebemos que a vida pode mesmo acabar e que existe muita coisa que podemos aproveitar, naturalmente mudamos a nossa postura. E realmente mudei os meus hábitos, sobretudo ao nível da actividade física e foi isso que me ajudou e tem-me ajudado. Arranjei objectivos e tempo para ter os meus hobbies, porque quando fazemos aquilo que gostamos, isso traz endorfinas; ficamos bem-dispostos e até ficamos com a sensação de que isso pode adiar um bocadinho o retorno da doença.

Que desporto pratica?
Faço ‘trail running’. Quando conheci a minha equipa e, mesmo com todas as limitações que temos ou com que podemos ficar, foram pessoas muito acolhedoras e assim comecei a correr e a entrar em provas.
Para mim, o ‘trail running’ foi realmente um escape e tem sido uma forma muito boa de estar na vida, rodeada de pessoas muito positivas, algumas das quais também passaram pelo cancro da mama. No fundo, estamos gratas por conseguir correr e andar por aí. Sou muito grata por ainda estar viva e quero aproveitar todos os momentos.

Na sua perspectiva, o que é que de fundamental se altera na vida de uma pessoa depois de ter passado por uma experiência assim?
Novamente, o fundamental é realmente preocupar-se apenas com aquilo que se pode controlar e não perder muito tempo com o resto. Não podemos estar sempre a pensar naquilo que pode acontecer, porque a verdade é que, com ou sem diagnóstico, qualquer um de nós pode partir a qualquer momento.
Claro que temos de ter uma perspectiva de futuro, mas é essencial vivenciar mais os momentos do agora do que os do futuro longínquo, porque podemos não chegar lá.

Que mensagem tem para as mulheres que estão a passar por um diagnóstico de cancro da mama ou a iniciar o tratamento? Há algo que gostaria de lhes dizer para as ajudar a manter a esperança?
Em primeiro lugar, a mensagem que sempre transmito é a minha gratidão a todos os cientistas e às mulheres que, ao cederem os seus corpos para testar tratamentos, possibilitaram que eu esteja aqui hoje. Se não tivessem estado disponíveis, a situação do cancro da mama seria muito diferente. Actualmente, temos taxas de sobrevivência muito elevadas e uma qualidade de vida melhor, graças a essas mulheres.
Acredito que não falamos o suficiente sobre elas e sobre todos os doentes que, às vezes em estados avançados, cedem os seus corpos para testar medicamentos que podem, no futuro, melhorar a vida de outros.
Para quem está a passar por esta situação, é importante lembrar que não vai durar para sempre; vai passar! Sigam todas as orientações dos profissionais de saúde e procurem ajuda se sentirem dificuldades a nível emocional. Não hesitem em falar com os psicólogos dos serviços; a ajuda existe e é muito eficaz. Ninguém precisa passar por isso sozinho. A família apoia, mas nem sempre conseguimos partilhar tudo. Existem medos que, por vezes, não podemos discutir com eles, seja porque não querem ouvir ou porque não estão preparados para isso. No entanto, é muito importante que tenhamos um espaço para falar sobre essas preocupações.
Por fim, lembrar que é uma questão de sobrevivência e nós temos um papel importante na nossa doença, porque é nossa. Temos de pensar que é só mais uma etapa da nossa vida e temos de passar por ela. E tem de ser esse o pensamento: vai correr bem. Mesmo quando as coisas não correm tão bem, continuamos a ter ajuda e recursos que nos fazem seguir em frente.
Daniela Canha

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