Correio dos Açores – A dor crónica é considerada um problema de saúde pública a nível mundial mais evidente em regiões desfavorecidas, onde prevalecem, por um lado, a obesidade e, por outro, um sector primário ainda significativo. Que perspectiva tem da dor crónica numa Região como os Açores? Qual a prevalência da dor crónica na população açoriana?
João Borges (Médico Anestesiologista e responsável pela Consulta da Dor no Hospital CUF Açores) – A prevalência da dor crónica, que se define como dor com duração superior a três meses de duração, varia ao longo da vida e, portanto, é variável a cada momento, na Região Autónoma dos Açores (R.A.A), será semelhante à existente noutros países, situando-se entre os 25 e os 35%, sendo o problema crónico mais prevalente.
Há alguns fatores que favorecem o surgimento da dor crónica, como a obesidade, os baixos índices de atividade física, a baixa literacia/escolaridade, os problemas emocionais/psiquiátricos como ansiedade e depressão, as dificuldades socioeconómicas, o trabalho físico e os problemas laborais, sendo que a dor crónica surge também associada a acidentes de trabalho, que geralmente têm maior gravidade no sector primário.
Considerando a presença de vários destes fatores na Região Autónoma dos Açores., diria que há condições favoráveis à cronificação da dor.
Há 10 anos um Inquérito Regional da Saúde indicava que 23,6% da população açoriana sofria de dor crónica. Ao longo desta década, dado o envelhecimento da população e os seus hábitos alimentares, como pode ter evoluído a dor crónica na Região?
Os últimos dados de que tenho conhecimento são referentes a 2019 e constam do Plano Regional de Saúde 2030. Mostram um aumento de reporte de dor lombar (de 25% para 32%) e dor cervical (de 18% para 23%), o que acompanha a tendência crescente da prevalência da dor crónica em todo o mundo, motivada principalmente pelo envelhecimento populacional e a doença crónica e degenerativa associada.
Qual o impacto do sedentarismo e baixa atividade física na existência de dor?
A atividade física, para além da importância já muito bem estabelecida na diminuição e controlo da doença crónica, e inclusivamente na diminuição da mortalidade, é muito importante na prevenção e também no tratamento da dor crónica, principalmente na de origem musculoesquelética, que é a mais prevalente. Por exemplo, em todas as recomendações internacionais para o tratamento da fibromialgia, a atividade física aeróbica (mais conhecida por cardio), é a principal recomendação. Para além da atividade física geral, exercícios específicos de fortalecimento muscular e mobilidade podem ser muito importantes tanto na prevenção como no tratamento da dor crónica.
Que origens tem a dor aguda/crónica no organismo?
A dor pode ter muitas origens e para ela contribuem factores biológicos, psicológicos e sociais que tornam a experiência da dor única para cada indivíduo. A dor aguda é muito importante na natureza, porque tem um papel de proteção – é através da dor que aprendemos que não devemos cair ou queimar-nos, e, como sintoma, a dor pode levar a pessoa a perceber que tem alguma doença. Um exemplo: indivíduos com mutações genéticas que levam à ausência de dor têm um risco maior de se magoar ou de atrasar diagnósticos importantes, porque não sentem dor. É, geralmente, uma dor intensa mas de curta duração, que pode acontecer no período pós-operatório, associada a trauma e outras lesões, bem como a patologia, por exemplo, a dor associada à litíase renal (pedra no rim).
De uma forma geral podemos classificar a dor crónica em primária – quando o quadro doloroso é, por si só, uma doença (como no caso da fibromialgia), ou secundária, podendo esta ser oncológica (associada ao cancro e ao seu tratamento), musculoesquelética (como no caso da dor lombar ou associada a artrose), pós-cirúrgica e pós-traumática (onde podemos dar como exemplo a dor após uma cirurgia mamária), orofacial/cefaleia (tal como no caso da enxaqueca crónica), ou, ainda, visceral (como acontece nos casos de pancreatite crónica).
A dor, nas suas várias dimensões, tem vários impactos sociais, nomeadamente o absentismo laboral. Que conselhos dá para prevenir a dor?
A dor crónica tem um impacto social importante pela sua prevalência e implicações. Sabemos que tem impactos indirectos em perda de qualidade de vida, agravamento de problemas emocionais e isolamento social, deterioração das relações com familiares/cuidadores e representa, igualmente, custos de saúde significativos com tratamentos.
Em Portugal, de acordo com dados da Associação Portuguesa para o Estudo da Dor, estima-se que o custo associado à dor possa atingir os 3.6 mil milhões de euros por ano, o equivalente a 1.7% do Produto Interno Bruto nacional.
Que papel poderá ter o doente na prevenção da dor?
Embora não seja possível preveni-la completamente, o doente é quem pode ter o principal papel na prevenção da dor crónica, através da adoção, a longo prazo, de hábitos de vida saudável – como uma alimentação equilibrada e realização de atividade física regular. Se em relação à alimentação os custos são importantes e podem limitar algumas escolhas, é importante dizer que toda a atividade física é benéfica e pode ir de uma simples caminhada até treinos complexos, e, portanto, não é preciso muito tempo ou dinheiro, o mais importante é realmente planear e incorporar a atividade física no dia-a-dia – deveria ser uma tarefa marcada no calendário, como outra qualquer. Importa também dizer que, hoje em dia, com o acesso à internet, é fácil conseguir planos de treino de execução simples que não necessitam de nenhum material. Diria que grande parte dos problemas de dor crónica, principalmente de origem musculoesquelética, poderiam ser evitados, ou pelo menos minimizados, com estes hábitos.
É também muito importante a adopção de posturas corretas no local trabalho e evitar movimentos repetitivos, quando possível, assim como procurar ajuda no início da dor, como no caso da dor lombar, de forma a que se possa iniciar um plano de tratamento precocemente, que permita evitar a cronificação da mesma.
Na luta contra a dor são aconselhadas mudanças de hábitos de vida e fisioterapia. O Hospital CUF Açores dispõe de algum tratamento que possa aliviar a dor crónica?
Dispomos de diversos tipos de tratamento – através de fisioterapia, nutrição, psicologia, tratamentos farmacológicos diversos, bem como tratamentos minimamente invasivos como as infiltrações, bloqueios nervosos e, mais recentemente, a radiofrequência. Dispomos também da possibilidade de realização de cirurgia por diversas especialidades. Acima de tudo, existe a possibilidade de uma abordagem multidisciplinar por vários profissionais que se complementam naquilo que podem trazer a um tratamento individualizado que depende do diagnóstico e da intensidade da dor.
Estes tratamentos têm o potencial para melhorar a qualidade de vida e proporcionar alívio da dor.
O que é preciso, em termos globais, para diminuir a incidência da dor crónica na população açoriana desde o que pode fazer o utente até ao que deve ser feito pelo médico?
Passa realmente pela prevenção, visto que, em muitos casos, depois de instalado o quadro crónico, torna-se mais difícil o tratamento.
Para além do foco no autocuidado do ponto de vista do doente, que é o mais importante, é também necessária uma mudança de paradigma que possa incidir mais numa vertente de medicina preventiva.
Nomeadamente, através da promoção da saúde e estilos de vida saudáveis, aumento da literacia em saúde e melhoria do acesso dos doentes a informação fidedigna e facilmente aplicável no dia a dia. Estes são temas do presente, mas estou convencido de que serão “os” temas do futuro, dado o crescente número de doentes.
A melhoria ao acesso de cuidados de saúde é também essencial para a redução da dor crónica, não só para os tratamentos dos casos mais crónicos, mas em particular quando a causa é potencialmente reversível (como a título de exemplo uma cirurgia para artrose do joelho).
Dito isto, considero que o doente deve estar cada vez mais envolvido no seu processo de saúde, porque o médico tem uma grande responsabilidade no aconselhamento e tratamento, mas não pode viver pela pessoa, nem tomar as decisões do dia a dia que, a longo prazo, são muito importantes. Por isso é importante que o doente tenha uma participação activa e participativa no seu processo de saúde ou de doença, no sentido em que é, naturalmente, o maior interessado. Contudo, sabemos que viver com dor crónica é extremamente difícil, tem um grande impacto na qualidade de vida da pessoa e requer uma grande resiliência e capacidade de sofrimento, pelo que quanto mais cedo o doente recorrer ao seu médico, melhor será para o processo de tratamento.
João Paz
