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“Estamos a fazer aquilo que ainda está ao nosso alcance para que a Escola Primária não feche e evitar que mais jovens famílias abandonem a freguesia”

António Monteiro, Presidente da Junta de Freguesia de São Pedro, em Santa Maria, desde 2021, afirma que os maiores problemas da freguesia passam pela falta de recursos para dar respostas a uma população que está cada vez mais envelhecida e pela falta de habitação para os casais jovens. Faltam apoios para construir um centro intergeracional com valências de centro de dia, que permita manter os idosos na freguesia, e de ATL para a ocupação dos tempos livres das crianças. Em causa está o facto de os idosos estarem a ser realojados para fora da sua freguesia e o risco de fechar a Escola Primária de São Pedro. Além disso, o autarca afirma que a falta de manutenção dos caminhos agrícolas e o fraco investimento no sector turístico estão a atrasar o desenvolvimento desta freguesia.

Correio dos Açores – Que retrato faz da freguesia de São Pedro?
António Jorge Cabral Monteiro (Presidente da Junta de Freguesia de São Pedro) – São Pedro é uma freguesia com pouco mais de mil habitantes, sendo a segunda com mais densidade populacional na ilha de Santa Maria (concelho de Vila do Porto). Caracteriza-se pela sua ruralidade, mas também pela presença de algumas das maiores empresas de construção e de indústrias locais, como a Fábrica de Blocos Teodoro e a empresa André Oliveira, uma das maiores da área. Além disso, conta com uma forte componente agrícola, com uma grande fatia dedicada à lavoura e várias explorações. É também onde se localizam a estação RAEGE (Rede Atlântica de Estações Geodinâmicas e Espaciais), e a ESA (Agência Espacial Europeia) com a sua estação Galileo Sensor Station. Assim, São Pedro combina o rural típico das freguesias açorianas com uma vertente industrial e tecnológica.
Cada freguesia em Santa Maria tem as suas cores, e São Pedro é representada pelo amarelo, a cor dourada que simbolizava a riqueza e prosperidade da freguesia, onde antigamente se encontravam os maiores solares da ilha. Era uma freguesia muito produtiva, onde os senhores de terras tinham quintas e solares.

Quais são os principais desafios, necessidades e dificuldades que a freguesia enfrenta actualmente?
Um dos grandes desafios da freguesia é o facto de ter poucos recursos para a área que tem (18,49 km²), o que faz com que seja muito difícil acudir a todas as necessidades da população.
A esperança média de vida está a aumentar, e a freguesia tem cada vez mais pessoas idosas, que, na sua grande maioria, foram trabalhadores rurais e, neste momento, não são pessoas com muitas posses, apresentando, portanto, algumas carências de acompanhamento. Mas com os poucos recursos que temos, é muito difícil atender a todos os pedidos que chegam à freguesia.
Falta um ano para acabar o mandato e não sei se me vou recandidatar. Este é o meu primeiro mandato na junta, mas tem sido um momento um pouco inglório; queremos ajudar, mas temos poucos recursos para tantos pedidos. Esta situação também foi influenciada pela instabilidade política que levou a novas eleições, tanto com Governo da República e do Governo Regional. Isto porque os fundos comunitários estão todos atrasados e, claro, sem recursos próprios e sem os quadros comunitários abertos para apresentar projectos, algumas necessidades importantes da freguesia tornam-se muito difíceis de atender. Sou presidente da Associação Escravos da Cadeínha, que organiza o ‘Santa Maria Blues’, mas essa actividade acaba por ser mais aliciante do que a própria freguesia. Digo-o porque acredito que a freguesia deveria ser um projecto que me desse mais satisfação, mas neste momento não estou tão motivado como gostava.

Na sua perspectiva, a falta de verbas para gerir a freguesia ao longo do ano e a dificuldade em dar resposta a uma população cada vez mais envelhecida são os maiores problemas em São Pedro?
Exactamente. Mas ainda temos a questão dos jovens. A solução passaria por criar um centro intergeracional e, nesse sentido, já fiz várias solicitações ao Governo Regional, uma vez que existem algumas casas no centro da freguesia, incluindo um solar ao abandono. Durante a última visita estatutária à ilha, o Instituto da Segurança Social pediu a recuperação desse espaço para fazer um centro intergeracional. É uma casa lindíssima que está completamente ao abandono, e a ideia era recuperá-la e transformá-la na sede da freguesia. No entanto, o Governo não achou que era uma boa ideia.
Um centro intergeracional funcionaria quase como um centro de dia, onde os idosos da freguesia poderiam estar, em vez de irem para a Vila. Sou defensor de que quem esteve sempre numa freguesia não deve ser retirado dela no final da vida. Essa casa permitiria, por exemplo, que eles continuassem a ir à missa na igreja que sempre frequentaram.
A vertente intergeracional incluiria também um ATL, um local de ocupação dos tempos livres para as crianças. Ao mesmo tempo que iria permitir que os idosos continuassem a viver na sua freguesia, também ia ajudar os pais que trabalham, e assim as crianças teriam um espaço para ficar entre as 15h00 e as 17h00, ou até que os pais as fossem buscar. Além disso, existem muitas famílias com crianças que também têm pais idosos. Este é um projecto que eu gostaria muito de ver realizado, mas tem sido difícil para as entidades apoiarem e angariarem recursos.

Os idosos são realocados definitivamente para a Vila porque não há infraestruturas na sua freguesia de residência?
Exactamente. Não sou especialista nesta área, mas temos observado que, ao retirar os idosos das suas casas e da sua freguesia, a verdade é que duram pouco tempo. Ao irem para a Vila, sentem-se deslocados e desintegrados, acabando por falecer rapidamente. Quando estão acamados e em outras condições, é uma situação diferente, mas quando ainda têm alguma mobilidade, não faz sentido afastá-los do lugar que sempre conheceram.

A falta de habitação para os casais jovens é um problema na freguesia?
A falta de habitação para os casais jovens é um grande problema na nossa freguesia, mas este é mais um caso em que o pedido de ajuda também foi recusado. Sendo a segunda freguesia com maior densidade populacional da ilha, fazia todo o sentido haver habitação para os jovens; temos, inclusive, algumas casas em ruínas que o Governo poderia comprar. A Câmara Municipal já adquiriu duas casas no âmbito do PRR e está a recuperá-las, mas tendo em conta a situação actual ainda não é suficiente e é preciso que o Governo também faça a sua parte.
Estamos a notar que a falta de habitação leva a que cada vez mais jovens saiam da freguesia. E neste caso posso dar o seguinte exemplo: este ano, se não fosse a Junta de Freguesia a pagar o transporte para os miúdos irem para o ATL da Vila, a Escola Primária de São Pedro teria fechado. É uma situação que acarreta mais um custo à freguesia, mas estamos a fazer aquilo que ainda está ao nosso alcance para que a escola não feche para evitar que mais jovens famílias abandonem a freguesia.
Não assumi este cargo para ter um título; vim por uma causa, para melhorar alguma coisa. No entanto, a falta de recursos faz com que tudo isto seja uma luta inglória. Batemos à porta, mas ninguém nos ouve. É uma pena que seja assim.

Quais são as maiores dificuldades inerentes à dupla insularidade?
Santa Maria sofre com as influências de determinadas cores políticas. O que é certo é que, nos transportes marítimos e aéreos, já tivemos mais centralidade, mas agora até nos tiraram o barco de passageiros que ligava São Miguel a Santa Maria.
A verdade é que padecemos de todos os problemas da dupla insularidade e, por vezes, somos deixados ao abandono no arquipélago. Infelizmente, as ilhas mais pequenas têm muitas dificuldades tanto na importação como na exportação de produtos, pois os barcos atrasam, seja no Verão ou no Inverno.
Além disso, os transportes são caríssimos e, embora exista uma lei que estipula que o preço dos contentores deve ser o mesmo para qualquer ilha dos Açores, isso não acontece. Em Santa Maria, pagamos muito mais pelas coisas do que, por exemplo, em São Miguel. É nestas situações que percebemos como os líderes políticos parecem mais interessados em se autopromover do que em trabalhar para a causa pública, e isso acaba por desmotivar.

Que outros projectos tenciona concluir antes de terminar o seu mandato?
Estamos devagarinho a fazer um parque infantil que vai estar pronto antes de acabar o mandato. Para além disso, fizemos um esforço para colocar uma antena de telecomunicações na zona das Feteiras, que vai entrar em funcionamento dentro de pouco tempo. Desde que existem telemóveis, nesta zona não havia rede, uma situação que actualmente não se justifica, pois as pessoas chegavam a casa e deixavam de ter telemóvel. Também queríamos fazer um parque florestal com zonas de piquenique, mas, infelizmente, não vamos conseguir. Vamos melhorar a sinalização na freguesia e ainda queremos recuperar uma vigia da baleia, um projecto que vai dar emprego a um jovem que queira prestar serviço às empresas marítimo-turísticas na zona de Monte Gordo.

Qual é a dimensão do turismo na freguesia? O número de alojamentos locais está a aumentar?
Temos poucos alojamentos na freguesia e, embora seja algo que gostaríamos de ver crescer, o facto é que isso depende muito da iniciativa privada. Apesar de grande parte dos trilhos da ilha pertencerem à nossa freguesia, não temos infra-estruturas para o turismo. No que toca à restauração, por exemplo, tínhamos um restaurante na Quinta do Barroco, mas neste momento não há nenhum em funcionamento. Temos apenas um minimercado e um café.

Quais têm sido as acções de promoção cultural na freguesia?
Nós temos o Grupo Desportivo São Pedro, que considero um dos mais dinâmicos da ilha — foi de onde saiu o Chermiti. Ele foi para o Sporting e, depois, vendido a um clube estrangeiro, mas a sua formação inicial foi cá. Inclusive, o clube vai receber uma verba sobre essa transferência. O grupo tem várias modalidades, mas o futsal, em particular, tem diversos escalões que estão sempre em competição, tanto na ilha como no exterior. Eles organizam o Futsal Summer Cup, onde vêm equipas de fora, como o Sporting e o Benfica, e é um evento que traz muitas pessoas á nossa freguesia.
Também temos a Casa do Povo de São Pedro, que organiza vários, em especial o Santa Maria Trail, o maior trail run que se realiza na ilha, além de diversas provas ao longo do ano. A Casa do Povo oferece ainda outras actividades, como o pingue-pongue, e a Junta vai comprar mais uma mesa para que seja possível manter esta prática e promover o convívio entre as pessoas no centro da freguesia.
Além disso, organizamos o Império das Crianças e as Festas de São Pedro. Temos ainda os impérios que se realizam todos os anos na ermida da Nossa Senhora dos Milagres e na Copeira de São Pedro.

A freguesia de S. Pedro tem potencial para se desenvolver mais? Com que outras condições e em que domínios?
A Freguesia de São Pedro tem muito potencial para se desenvolver, desde logo a nível turístico, com a captação de mais investimento para esta área. Um exemplo imediato seria melhorar as acessibilidades ao Barreiro da Faneca, que estão em péssimo estado.
Os caminhos agrícolas também estão num estado lastimável, mas leva meses, ou até anos, até que se inicie os trabalhos. Sobretudo no que diz respeito às acessibilidades agrícolas, é necessária manutenção em toda a freguesia.
As estradas também estão péssimas, cheias de buracos, sem intervenções há muitos anos. Em São Miguel, Terceira e noutras ilhas, há caminhos agrícolas melhores do que as nossas estradas principais. Portanto, uma das nossas grandes preocupações é que a rede viária da freguesia está em condições lamentáveis, mas por mais que tentemos remediar, a verdade é que isso é da competência do Governo.
A freguesia tem muito potencial, mas precisa de receber a devida atenção. Mesmo no sector agrícola, para atrair e fixar jovens agricultores, é essencial criar melhores condições, especialmente no que toca às acessibilidades.
Daniela Canha

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