No próximo dia 8 de dezembro, no Consistório em que o Papa Francisco criará 21 novos cardeais, em Roma, será muito fácil identificar um novo cardeal britânico, padre Timothy Radcliffe, que tem sido o pregador dos retiros que precedem as assembleias do Sínodo em Roma.
O sacerdote dominicano terá pedido ao Santo Padre que o dispensasse de usar a “elaborada indumentária cardinalícia” e Francisco aceitou.
O sacerdote britânico será, assim, o único purpurado que não fará jus a essa designação pela qual também são conhecidos os cardeais, precisamente devido à cor vermelho púrpura das vestes que habitualmente usam e da qual fazem parte uma batina coral vermelha, um roquete de linho com ou sem punho vermelho, uma murça vermelha de lã, uma cruz peitoral presa a um cordão dourado, o solidéu vermelho e a faixa, também vermelha, sobre a cintura.
O próprio contou em entrevista à estação de rádio BBC que quando fez o seu pedido ao Papa, este terá imediatamente, no próprio dia, que o “entendia perfeitamente” e que iria “libertá-lo de usar vestes tão elaboradas”.
O pedido do padre Radclliffe vem na linha do que já disse quando foi entrevistado e lhe perguntaram como era ser o pregador destes retiros e ele respondeu: “o mundo do Vaticano, com os seus títulos grandiosos e roupas estranhas” pode ser “intimidador”. Por outro lado, a resposta de Francisco também não surpreende já que na carta enviada aos futuros cardeais lhes pede que olhem mais longe, com as “mãos juntas” e os “pés descalços” e, ainda no final, apela a que “que o título de ‘servidor’ – diácono – ofusque cada vez mais o de ’eminência’”.
Todos ainda temos bem presente as mudanças nos costumes da vida de um Papa que nos chegaram de Roma logo no dia 13 de Março de 2013, aquando da eleição do Cardeal Bergoglio, o Papa que usaria uma cruz de prata, dispensava os sapatos vermelhos da Prada e, no dia seguinte, saiu do Vaticano para ir buscar as suas coisas ao hotel onde havia pernoitado e acertar as contas das noites lá dormidas.
Relembro ainda o Cardeal Czerny, subsecretário da Seção Migrantes e Refugiados do Dicastério para o Serviço do Desenvolvimento Humano Integral, que adoptou como cruz peitoral, no dia do seu cardinalato, uma feita em madeira a partir de um pedaço de um barco naufragado ao largo do mar mediterrâneo, transformado num verdadeiro cemitério de águas profundas onde tantos de nós perderam a vida, depois de lhes ser roubada a dignidade…
Dir-me-ão que são apenas detalhes… ou assuntos frívolos e fúteis, de menor importância. Eu diria que estas escolhas têm um enorme significado e julgo que não estarei sozinha. Socorro-me de Roland Barthes, reputado teórico da Semiótica e da Cultura, autor do livro “Sistema da Moda”, antes leitura obrigatória nas cadeiras de Semiótica do Curso de Comunicação Social da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa. Diz o sociólogo e semiólogo francês que a moda é um sistema de signos que comunica significados dentro da sociedade; por isso é uma linguagem, com a sua própria gramática e a sua sintaxe, que opera como qualquer outro sistema simbólico: transmite mensagens e significados culturais, sociais e ideológicos.
Diria, por isso, que as escolhas do Papa Francisco e do Padre Timothy Radcliffesão gestos profundamente significativos, desde logo porque as vestes religiosas carregam e comunicam significados. Ao abdicar desses símbolos, tanto o Papa como o novo cardeal apontam para uma mensagem mais clara: simplicidade e despojamento.
O Papa Francisco, ao recusar os sapatos vermelhos (tradicionalmente usados pelos papas), optou por sapatos mais simples, comunicando uma mensagem de humildade e simplicidade. Barthes veria isso como uma forma de subversão da tradição. Os sapatos vermelhos, que carregam uma longa história simbólica de poder, autoridade e ligação com a tradição, são aqui recontextualizados e ao recusá-los, o Papa estaria a recusar, simbolicamente, a ostentação e o poder que podem estar-lhes associados.
Para Barthes, isso seria uma forma de “desmistificação”, ou seja, o Papa estaria a questionar a natureza simbólica de um signo que se tornou um mito cultural, despojando-o de seus significados tradicionais e propondo uma nova narrativa. Mesmo que a opção só tenha tido em conta o conforto de alguém que prefere render-se ao estar bem em vez de seguir uma tradição.
Da mesma forma, a recusa do padre Radcliffe em usar vestes cardinalícias poderia ser lida por Barthes como uma negação consciente de um símbolo de hierarquia e autoridade.
O homem da “escuta paciente”, que pediu a todos os bispos e altas figuras do sínodo que fossem “buscadores de Deus” colocando “as questões mais profundas nos seus corações, questões desconcertantes que convidam a uma nova vida”, prefere a simplicidade do seu hábito branco de monge dominicano.
Afinal, não é a roupa que nos faz santos nem nos torna mais ou menos importantes. Nem a opção por esta ou por outra cor, por esta ou outra indumentária.
Qualquer ritual é uma forma de significação onde cada gesto, objecto ou prática carrega um significado que vai para além da sua função prática. Mas, com o tempo esses rituais podem reforçar significados simbólicos distantes daquilo que é essencial, e que muitas vezes podem ser percepcionados de forma errada, associando a autoridade divina a uma estética grandiosa e opulenta, quando na verdade, Deus que é Rei e Senhor do Universo, enviou o Seu filho que morreu na cruz despojado de tudo e abandonado por todos, para nos salvar, ontem e hoje. Se O tomássemos como mestre, dispensaríamos tudo… ou quase tudo.
Carmo Rodeia
- Diretora do serviço Diocesano
das Comunicações Sociais da Igreja
Diocese de Angra