O Padre Paulo Duarte, sj, é uma figura proeminente na evangelização contemporânea, especialmente conhecido pelas entrevistas que tem publicado e pelas conferências multimédia que têm alcançado um público diversificado na internet. Com uma abordagem acessível e envolvente, ele consegue transmitir de forma eloquente mensagens profundas de fé, esperança e amor, atraindo tanto os fiéis como aqueles que buscam respostas espirituais. Foi numas férias, ainda como Comissário de Bordo da Portugália, que o Padre Jesuíta, Paulo Duarte, decidiu participar numa peregrinação. “A ideia que tinha de uma peregrinação era velhos de joelhos”. E foi com surpresa que se deparou com 200 pessoas da sua idade, a rir, a rezar, a cantar, a partilhar coisas da vida. No ano seguinte, aproveitou de novo as férias e fez parte da organização. Lembra-se de haver um momento de profunda comoção, que chorou uma tarde inteira e a ideia de vir a ser jesuíta, de vir a ser padre começou a ganhar forma e espaço. Lembra-se de pensar: “Tenho uma vida óptima, ganho bem, faço o que gosto, estou a viajar… o que é que se passa?” Através da sua voz, ele inspira muitos na busca de uma relação mais íntima com Deus e a viver os valores cristãos no dia-a-dia. O Padre Paulo Duarte esteve há dias em Rabo de Peixe, onde participou nas festas religiosas daquela Vila e o ‘Correio dos Açores’ aproveitou a oportunidade para dialogar com este sacerdote jesuíta.
Correio dos Açores – Esteve recentemente na ilha de S. Miguel para pregar nas festas de Rabo de Peixe. Que aspectos pode destacar nos momentos celebrativos em que participou?
Padre Jesuíta Paulo Duarte – Rapidamente aviva-se a memória a procissão de Domingo. Caminhar pelas ruas de Rabo de Peixe, observando os rostos, a reverência das pessoas diante da relíquia, sentindo o silêncio, os cheiros vindos dos tapetes, foi muito emocionante. Toca-me muito a esse questionar das pessoas na sua religiosidade. Também nesta linha, a oração do terço na primeira noite das festas foi igualmente emocionante. Normalmente, pelo continente, são as vozes das mulheres que ecoam na memória quando penso em alguém a orientar o terço. Ali, com as vozes fortes dos romeiros, senti peso de raiz, de terra, de pedra de basalto, a vir dos fundos da existência. E destaco ainda a grande participação das pessoas nas celebrações. Que bonito foi ver a igreja cheia de pessoas a entregar as suas alegrias e tristezas à Senhora do Rosário e ao Seu Filho.
O que o levou a aceitar pregar nestas festividades?
Antes de mais, além da amizade com o Padre Nuno Sousa, o carinho que tenho vindo a ganhar por esta ilha, em particular, pelos Açores, em geral. Eu já tinha vindo a Rabo de Peixe, num breve passeio com o Padre Nuno pela vila. “Um dia vens aqui pregar”, disse-me. “Com muito gosto.”, respondi-lhe. E assim foi o cumprimento da boa promessa.
A sua passagem por Rabo de Peixe foi marcante. Qual foi o segredo para cativar a população local?
Oh, fico contente por saber. Não sei se há segredo. Talvez tenha que ver com o que disse antes, o carinho que sinto. Como padre, sou chamado a dar vida, na força da fé. E tento viver isso o mais possível.
Porque escolheu a Companhia de Jesus, em vez de outra Ordem Religiosa?
Quando estava a fazer o discernimento, recordo ter-me identificado com a espiritualidade da presença de Deus no mundo. Para Santo Inácio de Loiola, o nosso fundador, o mistério da encarnação tinha grande importância. O Filho encarnado de Deus está no meio de nós, é enviado. E através d’Ele todas as coisas ganham um olhar renovado. Há mesmo uma ideia inaciana de “ver novas todas as coisas em Cristo” e isso é algo que já na altura, quando pensava entrar, mexia comigo. E na actualidade vou percebendo ainda mais a importância desta ideia tão forte e bonita.
Está a decorrer o Sínodo em Roma. Que resultados concretos espera a Igreja desse encontro?
Não me atrevo a dar uma resposta sobre resultados concretos. Há algo, sim, que este sínodo tem provocado: um contributo de maior sensação de pertença no modo de estar em Igreja, em levando a uma maior escuta das pessoas. Há reflexões profundas que têm de ser feitas, diante do mundo em mudança. A realidade, superior às ideias, está a mudar em muitos contextos. A Igreja, como lugar de cuidadora, tem de estar atenta a essas mudanças para perceber como agir bem e melhor nesse cuidar das pessoas reais e não idealizadas.
No seu entender como tornar a Igreja relevante nos ambientes concretos onde os irmãos vivem e sofrem?
Algo que para mim tem sido bastante evidente é o grande aumento da sede, logo de procura, de espiritualidade. A importância do silêncio e da oração são fundamentais para darmos passos de acção em caridade. A espiritualidade bem vivida abre a compaixão e o desejo de justiça. A acção caritativa da Igreja é profundamente relevante. O Papa Francisco, nas suas intenções mensais de oração, alerta para os lugares de sofrimento, onde o cristão é chamado a ter atitudes de cuidado. Torná-la relevante também passa pelo bom testemunho dos seus membros. Se são vistos como incoerentes, dizendo uma coisa e fazendo outra, ou como coerentes, com coração e atitudes de cuidado, isso vai influenciar a relevância.
A Igreja não é uma entidade abstracta, mas são os seus membros. E se nós, os seus membros, formos capazes de viver a espiritualidade que contribui para o trabalho interior de conversão, travessia e iluminar das nossas sombras, deixando o Espírito nos guiar para o bem maior, então haverá mais cuidado pelos irmãos que sofrem.
Que resposta dar aos agnósticos que se questionam como se ouve Jesus?
Há um livro que recomendo com regularidade “Paciência com Deus” de Tomás Halik. É dedicado aos buscadores, qual Zaqueu a subir o sicómoro para ver e ouvir Jesus. E mais que respostas, por vezes é necessário abrir mais perguntas. Das boas. Das que possam permitir fazer caminho de encontro. Sabendo que Deus respeita profundamente a liberdade humana.
Que significa o “Todos, todos, todos” do Papa Francisco?
Significa que todas as pessoas têm lugar na Igreja.
Como se poderá ajudar para humanizar os ambientes periféricos?
Indo lá, conhecendo esses lugares, relacionar-se e implicar-se com as pessoas. A humanização não acontece no abstracto, só desde as ideias, mas no concreto, na escuta, na boa conversa, de modo a perceber o que, de forma igualmente concreta, é possível fazer. As periferias, sejam de que tipo for, são desafiantes. Mas é preciso conhecer as pessoas que aí estão. No fundo, é o mistério da encarnação. Jesus foi conhecendo pessoas e as suas realidades. Ele levava a humanização de Deus nas relações e encontros que vivia. Falei há pouco: o encontro com Zaqueu é um bom exemplo de atenção ao outro sem o julgar e como isso foi promotor mudança e humanização.
Como poderá a Igreja dar voz a uma cultura de integração num Mundo de segregação?
É preciso denunciar a injustiça. Dar voz às realidades de sofrimento. Deus ouve o clamor do seu povo. Por isso, é preciso denunciar a segregação. Depois, repito-me, por me parecer importante, enquanto, enquanto membros da Igreja, devemos ser testemunhas de integração, diálogo, encontro. Por vezes é difícil e exigente, não sendo rápido nem imediato, mas nessa fé de que a Deus, quando tudo é vivido o mais possível com amor, nada é impossível. Sem espiritualismos, com as ferramentas que sabemos hoje a tantos níveis das ciências exatas e sociais, podemos ser homens e mulheres de integração, que implica trabalho pessoal sério, de iluminar sombras de poder, convertendo-o em serviço.
António Pedro Costa
