Foi há 75 anos quando, atraído pela praia, visitei pela primeira vez esta pequeníssima ilha, nascida neste imenso Oceano Atlântico que me alimenta a alegria de viver, porque vejo-o e abraço a toda a hora.
Cheguei pela manhã quando ainda das areias molhadas, se desprendia o hálito morno da madrugada vadia. Na praia, alguns jovens bêbados de sol, desenhavam na areia as sombras dos corpos bronzeados, que corriam ao sabor de uma brisa fresca, bailando nas ondas, salpicava-lhes as faces. Havia neles o encanto e a despreocupação das férias.
Finalmente o “Arriaga”, um velho barco de madeira, construído por mestres artesãos, capaz de enfrentar as fúrias do mar.
Fundeou junto a um cais emblemático, feito sobre colunas, ali desembarcamos. Vínhamos desfeitos da tormentosa viagem a que fomos sujeitos.
Eu tinha 13 anos, na altura em que comecei a alimentar alguns dos meus sonhos. Visitar o Porto Santo fazia parte desse rol: comprei a viagem num dos ‘carreireiros’, o “Arriaga”. Havia um outro: “Maria Cristina”. Aconselhado por um amigo, pus-me na proa do velho barco, aconteceu-me o que nunca pensará: um desassossego físico e mental de medos e angústias traumatizantes.
O “Arriaga” bailava numa sucessão impressionante de ondas que o faziam balançar da direita para a esquerda, afocinhando depois a proa no mar, sentindo-se um estampido tão forte que toda a embarcação tremia. Completamente encharcados, mais parecíamos fantasmas de um filme de terror, enquanto a voz do “arrás”, um homem de estatura média, ressoava dizendo-nos “este é o mar da travessa!”. Desconhecia que naquele mar juntavam-se três correntes que, em alguns dias, revoltavam-se provocando aqueles temporais, não se compadecendo com as embarcações, tão rudimentares, cujos “arrás” já conheciam e, de certo modo, dominavam e enfrentando-os. Pensei muitas vezes que a embarcação ia afundar-se, tal eram as inclinações a que rasavam o mar.
Entrei na vila, estava deserta. Nada era como hoje, o Porto Santo, então vivia praticamente no esquecimento profundo dos poderes de Lisboa. Isolados, os porto-santenses cosiam as suas mágoas e tristezas no silêncio dos dias. As ligações com a Madeira eram rudimentares, impróprias para uma travessia que, às vezes, se levanta da sua ‘calmia’, e faz-se tempestade. Depois dos ‘carreireiros’ vieram: o “Milano”, o “Cedros”, o “Independente”, o “Pátria”, todos barcos inadaptáveis para o mar entre a Madeira e o Porto Santo.
Esses tempos passados pertencem já à história. Estas novas gerações, que aqui desfrutam das suas férias, não fazem ideia de como era esta ilha, hoje tão procurada por milhares de madeirenses e estrangeiros para as suas férias.
Com a chegada da Autonomia tudo mudou por completo, um madeirense visionário, um grande político que ficará nos anais da história, o “Doutor Alberto João”, assume a Presidência do Governo e perante a realidade que se lhe deparou de uma terra cuja falta de tantas infraestruturas urgentes e necessárias para o seu desenvolvimento e dar dignidade a uma população que estava prisioneira de um estado de atraso aterrorizador.
Nos seus programas de governo o Porto Santo foi uma das questões prioritárias. Considerando e respeitando os porto-santenses nas suas exigências justas, ele deu tudo o que pudesse permitir o seu desenvolvimento e proporcionasse às suas gentes melhores condições de vida.
Assim, felizmente aconteceu.
Volto aqui sempre para retemperar as minhas forças físicas, que aos poucos, vão morrendo com o avanço dos anos e, paradoxalmente, mas me avivam a memória, possibilitando que todas as manhãs, quando me desperto crie novas iniciativas. Este ano escolhi outubro e descobri já que é um mês recomendável pela presença diminuta de pessoas, um clima moderado, com o sol que se liberta de um céu azul e um mar que adormece nos nossos braços. Para este longo período de vinte dias, trouxe na bagagem Garcia Lorca e Ortega y Gasset, duas personagens da poesia e da filosofia que me acompanham há anos.
Com os seus ensinamentos enriqueci-me culturalmente. Para os complementar, tenho entre mãos, dois livros emblemáticos “Caro Professor Germain”, de Alberto Camus e “Orlando” de VirginiaWoolf.
Mas o Porto Santo, com seus mistérios e paisagens que convidam à meditação, surpreende-me pela abertura das mentes, numa população, como a madeirense, cheia de medos e preconceitos, há hoje uma libertação que lhes dá criatividade. Por exemplo, as festas do São João que, cada vez mais se vestem de imaginação e beleza. Os participantes das marchas trazem nos olhos a alegria da liberdade que se lhes assiste, criadores de um tempo novo. A confirmar esta liberdade de estar na vida com o respeito que merecem as pessoas, assisti no passado sábado, a um casamento, quando passeava numa parte da longa praia dourada. A praia enfeitada com um arco verde, cheio de balões e flores brancas e uma centena de cadeiras para os convidados que, rigorosamente, vestiam-se de branco. Experimentei a sensação de estar a viver uma cena hollywoodesca. Os convidados levantaram-se e por entre aplausos e flores, duas jovens lindíssimas, porto-santenses, elegantemente vestidas de branco, de mãos dadas e ao som da música dirigiram-se à mesa onde estava a notária que as casou.
Pensei na beleza deste ato de amor, que livremente une dois seres humanos com direito a viver as suas vidas, com consideração aos demais. Felicito a Luísa e a Mónica porque escreveram corajosamente, estou certo, uma nova página na história da sociedade local. Os sonhos de amor não se devem nunca sufocar.
Quando deixei a praia, já o dia invadia a noite, os convidados dirigiram-se para o banquete nupcial. Aí, pensei no Porto Santo de há 75 anos, quando os olhares tristes porto-santenses se depositavam na linha do horizonte, exprimindo as esperanças, tantas vezes, negadas! Prisioneiros de tudo que lhes coartava a liberdade de sonhar.
Uma época em que faziam do mar cemitério das suas confidências. Esta diferença abissal de um passado escondido no silêncio, e de um presente iluminado, radiante, celebrado no amor, o único sentimento que não se pode nunca proibir, deixa-me feliz como amante incorrigível da liberdade e do amor. Entretanto, vou continuar pelas manhãs a gozar o sol e à noite contemplando as estrelas, contá-las, como fazia em criança. Jamais consegui fixar o número certo.
Vou continuar a ler essa escritora espantosa, VirginiaWoolf e a correspondência entre o professor German e o grande escritor Albert Camus; vou continuar a ir à praia com os meus queridos amigos Vítor e José Reis, e cavaquearmos com outros amigos: a Luísa, o José Barros e a Nininha.
Á nossa frente, todos os dias, num mar teimosamente calmo, passa o “Lobo Marinho”, um navio moderno e confortável que liga a Madeira ao Porto Santo. Já lá vão os velhos tempos dos ‘carreireiros’, que apesar de tudo permanecem no tempo da memória.
Há poucos dias um jovem, natural da ilha, telefonou-me e disse-me:
“Sabe, estou a escrever um livro sobre os ‘carreireiros’ do Porto Santo.”.
Respondi-lhe: “Parabéns, é uma iniciativa que merece ser acarinhada e apoiada!
João Carlos Abreu