O Novembro Azul, celebrado no mês passado, destacou-se como uma oportunidade essencial para sensibilizar e alertar a população masculina sobre a prevenção, o diagnóstico precoce e o tratamento do cancro da próstata. Em entrevista ao ‘Correio dos Açores’, Pedro Mota Preto, responsável pelo Departamento de Urologia do Hospital Divino Espírito Santo (HDES), sublinha que o diagnóstico precoce é “fundamental para reduzir a mortalidade” e defende que a sensibilização deve passar pela superação de tabus e preconceitos culturais em relação aos exames médicos básicos, como o toque rectal. O especialista destaca que o HDES desempenha um papel crucial no rastreio e acompanhamento dos casos de cancro da próstata nos Açores.
Correio dos Açores – No mês passado foi celebrado o Novembro Azul, o mês de prevenção do cancro da próstata. Qual é a importância desta campanha?
Pedro Mota Preto (Director do Serviço de Urologia do HDES) – É muito importante porque permite abordar o cancro mais frequente no homem, o da próstata, com maior destaque e frequência durante este mês.
É uma ocasião para sublinhar o conceito do seu diagnóstico precoce e a difusão das medidas que podem melhorar a saúde masculina em geral e em particular a redução do risco de cancro.
Pretende igualmente reduzir o preconceito masculino acerca da realização de exames básicos indispensáveis para o diagnóstico do cancro da próstata.
É curioso referir que esta campanha é internacional e teve a sua origem na Austrália em 2003 sob o nome de Movember. Nesta campanha encorajaram todos os homens a deixar crescer o bigode como forma de chamar a atenção da sociedade em geral para o tema do cancro da próstata. O nome “Movember” derivou da associação de duas palavras inglesas: “moustache” (bigode) e “November” (Novembro). Mais tarde, esta iniciativa adquiriu o seu nome actual, mas a ideia do bigode persistiu. É por isso que todos os anos em Novembro os utentes do Serviço Regional de Saúde podem ver muitos bigodes nos Hospitais e nos Centros de Saúde…
Quais são os principais desafios na detecção precoce do cancro da próstata?
A detecção precoce começa necessariamente pelo exame rectal da próstata e pela realização de um exame de sangue, muito popular desde 1993, o PSA (Antígeno Prostático Específico).
Estes dois exames não se excluem, complementam-se, por isso devem ser ambos realizados. Um homem pode ter um cancro da próstata e ter um PSA normal, por exemplo.
O exame físico da próstata ainda gera alguma aversão por muitos homens na nossa sociedade. Assumir este exame por aquilo que é – um simples exame médico que pode literalmente salvar vidas – é um desafio cultural.
Por outro lado, a realização generalizada destes dois exames (rastreio) leva frequentemente à realização de exames mais dispendiosos (ressonâncias magnéticas e biópsias) e de tratamentos (radioterapia ou cirurgia). O controle dos custos económicos associados representa igualmente um desafio. O benefício deve ser superior ao custo.
Sabemos que o rastreio implica naturalmente um aumento do número de novos casos (aumento da incidência) mas este número inclui um número importante de cancros pouco agressivos com menor probabilidade de virem a provocar a morte.
Verifica-se, portanto, que não há um verdadeiro ganho na redução da mortalidade de todos os cancros diagnosticados e tratados. Isto é, o custo económico para a sociedade e o sacrifício pessoal do homem é superior ao benefício obtido em valores globais.
O desafio actual é conseguir distinguir os carcinomas que precisam ser diagnosticados e tratados dos casos que podem ser apenas vigiados inicialmente.
Numa primeira fase, um nódulo palpável na próstata, principalmente se associado a um PSA persistentemente elevado ou a subir, acarreta um maior risco para a saúde do homem.
A relação entre o volume da próstata e o PSA, e a percentagem de PSA livre no sangue, a história familiar e a raça devem ser tidas em conta. A decisão da realização duma ressonância ou duma biópsia deve tomada pelo Urologista.
Os açorianos têm uma maior sensibilização para a prevenção nos últimos anos?
É difícil dizer. Os que procuram o Urologista apenas para saber da saúde da sua próstata ainda são uma percentagem mínima daqueles que se interrogam, mas não procuram o médico, mesmo com PSAs anormais. E ainda é notória a falta de informação naqueles que nos procuram.
Quais são os sinais ou sintomas do cancro da próstata que devo observar?
Este cancro caracteriza-se por não dar queixas quando está confinado à próstata. Desenvolve-se na maior parte dos casos de forma lenta podendo estar presente durante anos e só ser detectado pelo exame rectal e pelo doseamento do PSA no sangue.
A progressão do tumor para estruturas vizinhas (bexiga, recto, uretra) ou à distância (mais frequentemente nos ossos) pode causar queixas como sangue na urina, dificuldade em urinar, dor, alterações da sensibilidade e do movimento no corpo do homem bem como compromisso das suas erecções. A maior parte destes sintomas não são específicos de cancro da próstata, mas devem ser estudados.
Com que frequência preciso realizar o exame da próstata e outros exames preventivos?
Os exames fundamentais para a detecção precoce do carcinoma da próstata são o exame rectal da próstata e o doseamento de sangue no PSA. Devem ser feitos uma vez por ano, de acordo com as recomendações actuais da Associação Europeia de Urologia.
Devem iniciar esta vigilância todos os homens: Com mais de 50 anos; A partir dos 45 anos se tiverem familiares próximos com cancro de próstata ou se tiverem ascendência de raça Africana; Mais cedo, a partir dos 40 anos, se tiverem conhecimento de mutações genéticas somáticas (BRCA2) identificadas na família; e embora o risco de carcinoma da próstata continue a aumentar com a idade, a utilidade do seu diagnóstico e do seu tratamento em homens com uma expectativa de vida inferior a quinze anos tem um benefício questionável.
Não há exames propriamente preventivos para o carcinoma da próstata.
Que dados ou estatísticas locais temos sobre a prevalência do cancro da próstata nos Açores?
Os dados epidemiológicos disponíveis sobre o cancro da próstata são a incidência (número de novos casos em cada ano) e a mortalidade.
Não há qualquer evidencia de diferença significativa da realidade dos Açores com a do Continente ou desta com a da Europa.
É o tumor mais frequente nos homens (mais de 7500 novos casos em Portugal, em 2022) e a terceira causa de morte nos homens em Portugal (cerca de 2080 óbitos em 2022).
Vários motivos contribuem para a diferença significativa entre a incidência e a mortalidade por cancro da próstata: o seu carácter indolente, o diagnóstico tendencialmente precoce desde 1993 e a evolução dos tratamentos, em particular nas fases mais adiantadas de doença.
Existe algum perfil de risco que é mais comum nos Açores? Por exemplo, há factores genéticos, alimentares ou culturais que aumentam a incidência de cancro da próstata?
É sabido que o factor de risco mais importante para o cancro da próstata é a idade. Dito doutra forma, quanto mais velha for a população em geral mais casos de carcinoma da próstata ocorrerão. É o perfil mais frequente nos Açores.
O cancro da próstata é muito raro antes dos 40 anos. Mais de 70% dos cancros detectados afectam homens com mais de 65 anos.
A obesidade, o excesso de álcool e o tabagismo, muito frequentes no Açores, aumentam o risco de morte por cancro da próstata e podem por si aumentar o risco de cancro.
Existem outros factores que também podem aumentar o risco de um homem ter um cancro da sua próstata ao longo da sua vida:
- Factores genéticos (em menos de 10% dos homens). Segundo alguns estudos, determinadas mutações genéticas aumentam o risco de carcinoma mais agressivo de 1,4% para 11,4% e em mais de 30% para qualquer tipo de cancro da próstata. Estes homens pode ter um cancro da próstata 6 a 7 anos mais cedo do que o esperado, daí defender-se o início da vigilância da próstata em homens com factores genéticos logo aos 40 anos.
Deve ser considerado quando um homem tem três ou mais familiares próximos com história de cancro da próstata ou em três gerações sucessivas ou pelo menos dois familiares com diagnóstico feito antes dos 55 anos. - Raça. Indivíduos de ascendência africana negra. Têm ainda um risco maior para cancros da próstata mais agressivos. Devem iniciar a sua vigilância da próstata aos 45 anos.
- Inúmeros estudos têm sugerido redução do carcinoma da próstata em diversos contextos, mas sem comprovação científica sólida:
• Alimentação rica em vegetais (tomate cozido, melancia, papaia, espargos, cenouras – ricos em licopenos), com restrição nas carnes vermelhas e nas processadas (salsichas, fiambre e carnes de fumeiro), consumo moderado de álcool, restrição de fritos.
• Vitaminas E, C e D, o zinco e o selénio foram apontados como protectores.
• Elevada frequência de ejaculação (mais de 21 por mês) foi associado a uma redução de risco em 20% num estudo.
Como é o acompanhamento após um diagnóstico de cancro da próstata nos Açores? Quais são os impactos psicológicos?
O Acompanhamento é feito em consulta de Urologia, quando indicado em consulta de Radio-oncologia ou de Oncologia. Sempre que necessário os pacientes são encaminhados para apoio emocional especializado.
Como os urologistas e as autoridades de saúde têm lidado com o tabu ou o desconforto que muitos homens ainda sentem em relação aos exames de próstata?
Os urologistas ajudam os homens na consulta a lidar com os seus preconceitos em relação ao cancro da próstata no que diz respeito ao diagnóstico e ao tratamento. É necessário um diálogo aberto e franco em que é partilhada informação adequada de forma clara.
As distribuições de folhetos informativos nas unidades de saúde podem revelar-se úteis, mas deve ser intensificada e renovada anualmente recorrendo à imagem de figuras públicas com elevada empatia.
Que estratégias estão a ser usadas nos Açores para motivar os homens a cuidarem da sua saúde de forma preventiva?
Nos Açores, a campanha mais conhecida é internacional e ocorre em Novembro de cada ano, é o Novembro Azul. Promove activamente a consciência sobre a importância do diagnóstico precoce e da prevenção do cancro da próstata, além de combater o preconceito masculino em relação à saúde.
Existe no papel o Plano Regional de Saúde 2030. Em relação à saúde da próstata, o plano inclui programas regionais de saúde prioritários que promovem a adopção de estilos de vida saudáveis e a capacitação dos açorianos para a tomada de decisões promotoras de saúde. Isso inclui a tomada de consciência sobre a importância do diagnóstico precoce e da prevenção do câncer de próstata, bem como a realização de exames regulares e acções de saúde em locais frequentados por homens.
Quais são os maiores desafios para melhorar a saúde masculina nos Açores nos próximos anos?
Combate da obesidade (alimentação e actividade física regular), combate ao tabagismo e ao alcoolismo. Aumentar o nível de literacia da população sobre os factores de risco para doença cardiovascular e oncológica.
Pretende acrescentar alguma informação que seja relevante no âmbito da entrevista?
As campanhas regionais de informação sobre a sensibilização para a detecção precoce do cancro da próstata devem envolver regularmente os Serviços de Urologia dos Açores e a utilização dos meios de comunicação social.
Por outro lado, a articulação dos Urologistas com os Centros de Saúde podem melhorar a utilização racional dos recursos das entidades privadas convencionadas com o Serviço Regional de Saúde, actualmente esgotadas.
A necessária redução dos custos associados à detecção precoce do cancro da próstata passa pela identificação dos casos suspeitos de cancro da próstata mais agressivo que devem prosseguir sem demora para o diagnóstico (ressonância magnética e biópsia) e em seguida para tratamento. A utilização de testes de urina simples com biomarcadores genéticos é promissora.
Em relação ao tratamento cirúrgico é recomendado internacionalmente a realização um número mínimo de 50 procedimentos por ano em cada hospital para que os resultados sejam aproximados aos dos hospitais centrais. Na realidade Açoriana isso implicaria concentrar os recursos de urologia numa única ilha. Um serviço com maior número de Urologistas que daria apoio aos restantes hospitais nas situações menos complexas.
Em suma, a sensibilização do poder político é tão importante quanto a da sociedade em relação ao carcinoma da próstata.
Filipe Torres
