Num Domingo recente, dei por mim em Lisboa e, sem grande coisa para fazer, resolvi ligar a televisão e surfar por entre os canais generalistas portugueses. Apenas havia programas de cantores pimba com dançarinas sorridentes e programas de notícias. Nada mais.
Como não sou fã de música pimba, detive-me um pouco mais nos canais de notícias. Rapidamente verifiquei todos comentavam as mesmas notícias até à exaustão e para lá dela. Os debates, com as imagens repetitivas a passar em fundo, eram absolutamente entediantes ou insultuosos. Passados poucos minutos, estava com uma ansiedade sem explicação. Desliguei.
Por não trabalhar em Portugal, estou a salvo desta televisão. No entanto, a curta experiência foi suficiente para me fazer sentir mal e, consequentemente, reflectir sobre a forma como a televisão portuguesa aborda as notícias e os problemas sociais.
Lembrei-me de um artigo que tinha lido dias antes e que referia que o desespero das pessoas resultava da sobre-exploração dos momentos de tensão por parte de programas noticiosos. No caso, ilustrava-se o argumento com as longas horas que vários canais televisivos tinham passado imagens de uns poucos caixotes do lixo a arder num bairro periférico de Lisboa.
Nada mais para além da repetição ad nauseam daquelas imagens, a voz de “jornalistas” descrevendo a situação e comentadores prognosticando a violência. Dez metros quadrados de caixotes do lixo a arder ganharam e condicionaram a perceção sobre 92135 quilómetros quadrados de tranquilidade.
Há uma enorme diferença entre os problemas reais e os problemas percecionados. Os problemas reais estão lá e são indiscutíveis, mas cada um valoriza os que lhe são mais próximos, que o afetam mais e aqueles que os sensibilizam mais. Quanto à proximidade e à consequência, nada a dizer. Somos humanos e estaremos sempre mais preocupados com a unha partida do nosso cônjuge do que com 10 feridos nos antípodas.
O que me preocupa de forma acrescida é a componente da sensibilização. O que se passa é que ao impor problemas que não existem ou, pelo menos, não existem com a dimensão com que nos propõem, a nossa perceção da realidade altera-se. Aqueles caixotes do lixo a arder não tiveram qualquer importância, comparando com publicidade que as televisões fizeram desse facto e dos atos de vandalismo que promoveram.
Não se noticiam suicídios na Ponte 25 de Abril e não se transmitem imagens de invasões de campo no futebol. Sabem porquê? Porque estas duas tipologias de notícias facilitam os fenómenos de repetição. Se isto é tão claro e tão simples para os suicídios e invasões de campo, por que se permite a exploração de misérias humanas como é o incendiar de caixotes do lixo?
Sei que caminhamos para um mundo de desregulação crescente e a comunicação social tem, como todos nós, direito à liberdade de expressão. Tendo isso em conta, torna-se cada vez mais importante contar com a responsabilidade e a competência dos profissionais do jornalismo de Portugal que combatam o sensacionalismo, tal como é referido no seu código deontológico.
Portugal precisa de esperança e de informação de qualidade. Comparando com o que vejo e oiço na Bélgica e no Luxemburgo, a nossa comunicação social tem um caminho para percorrer. Este é o momento para a televisão portuguesa se renovar, adotando uma abordagem mais responsável e objetiva, e libertar-se do sensacionalismo que a afasta do seu papel fundamental de informar e educar.
Por: Frederico Cardigos
- Frederico Cardigos é biólogo marinho no Eurostat. Este é um artigo de opinião pessoal. As ideias expressas neste artigo são da exclusiva responsabilidade do autor e podem não coincidir com a posição oficial da Comissão Europeia.