Diogo Pereira Nunes, Presidente da Junta de Freguesia de Candelária na ilha do Pico desde 2021, destaca o potencial da freguesia, sobretudo no sector vitivinícola e agrícola. Apesar deste dinamismo, a Candelária enfrenta desafios comuns a muitas freguesias, como a escassez de mão-de-obra, a falta de habitação acessível e a tendência de jovens qualificados em não regressarem à ilha após os estudos. Para mitigar o problema habitacional, espera-se a construção de 30 lotes na Mirateca, uma intenção anunciada pelo Governo Regional na última visita à ilha do Pico. O sector vitivinícola tem tido um papel determinante no desenvolvimento económico da freguesia, com a reconversão de terrenos abandonados em vinhas ao abrigo do programa VITIS. Para o autarca, esta área é um “excelente desafio” para a freguesia e tem desempenhado um papel fundamental no combate à sazonalidade turística. No campo cultural e desportivo, a freguesia destaca-se pelo Grupo Folclórico da Casa do Povo da Candelária, o mais antigo dos Açores, e pelo Candelária Sport Clube, que compete na 1.ª Divisão de Hóquei em Patins. Além disso, tem apostado na formação musical em instrumentos de cordas, de forma a que não se perca esta tradição fortemente enraizada na freguesia.
Correio dos Açores – Que retrato nos faz da Candelária?
Diogo Pereira Nunes (Presidente da Junta de Freguesia de Candelária) – A freguesia da Candelária apresenta-se como uma pitoresca povoação cuja fundação remonta ao século XVII, mais precisamente ao ano de 1632. A norte, confina com a freguesia da Criação Velha e, a Sul, com a freguesia de São Mateus, abrangendo uma área aproximada de 31,72 quilómetros quadrados. Actualmente, residem na freguesia cerca de 800 pessoas.
Esta localidade tem como santa padroeira Nossa Senhora das Candeias, imagem que se encontra na Igreja de Nossa Senhora das Candeias, templo cuja construção remonta ao século XVIII, mais precisamente a 1803.
Nesta freguesia, importa mencionar algumas das figuras que, ao longo dos tempos, contribuíram para a história da localidade, da ilha do Pico ou mesmo de Portugal. Assim, refere-se o Cardeal D. José da Costa Nunes, o primeiro cardeal natural dos Açores e patrono da Escola Secundária da Madalena.
D. José da Costa Nunes deixou o seu património à Candelária, destinando-o à criação de um jardim de infância sob a responsabilidade da Congregação das Irmãs Franciscanas Hospitaleiras da Imaculada Conceição.
Também é de referir o bispo D. Jaime Garcia Goulart (Candelária do Pico, 10 de Janeiro de 1908 — Ponta Delgada, 15 de Abril de 1997), que se destacou no campo da acção missionária no Oriente. A freguesia é, por isso, conhecida como o “Vaticano dos Açores”.
No que respeita ao património histórico, destacam-se a Igreja Paroquial dedicada a Nossa Senhora das Candeias, a Casa de São José que foi a residência do Cardeal Costa Nunes, a Ermida de Nossa Senhora de Fátima localizada no Campo Raso, o Solar dos Arriagas na localidade do Guindaste, a Ermida de São Nuno na localidade da Mirateca, o Curato de Santo António do Monte e a Capela de São Francisco na localidade do Monte, além dos Impérios do Espírito Santo.
No campo da cultura, a Candelária destaca-se pelo Grupo Folclórico da Casa do Povo da Candelária, o mais antigo dos Açores, e pelo agrupamento de escuteiros 808 da Candelária. No desporto, salienta-se o Candelária Sport Clube, que atualmente milita na 1.ª divisão de Hóquei em Patins. A freguesia conta ainda com uma Casa do Povo.
Dispomos de um porto de abrigo denominado Porto do Calhau, muito utilizado devido à sua localização estratégica. Contamos também com a zona balnear do Pocinho, que oferece um parque de lazer à disposição de todos, bem como com o aprazível parque de lazer dos Fogos, igualmente junto ao mar. Ambos dispõem de sanitários públicos e de condições para churrascos em família ou com amigos.
Por fim, merece destaque o moinho recentemente restaurado, que também é um ponto turístico muito procurado.
Quais são os principais desafios, necessidades e dificuldades que a freguesia enfrenta?
Os desafios são diários. Para além das necessidades que todos reivindicamos, algumas das quais temos conseguido resolver, vivemos uma época difícil, marcada por um aumento abrupto dos preços nos custos de produção em diversas áreas, aliado à escassez de mão-de-obra e recursos limitados. Gerir os trabalhos tornou-se uma luta diária.
Falo por mim, que ambiciono sempre mais e mais em prol da minha freguesia, e acredito plenamente que quem nos elege fica na expectativa de que façamos o máximo pela freguesia. É necessário olhar para o poder local com “olhos de ver”, pois são os autarcas de freguesia que estão mais próximos das populações e conhecem as suas ânsias e apelos.
As verbas disponíveis são suficientes para gerir a freguesia ao longo do ano?
As verbas são sempre poucas para tudo o que se pretende executar, razão pela qual estamos constantemente à procura de oportunidades e a recorrer às diversas candidaturas que vão surgindo. Neste momento, temos várias candidaturas submetidas e algumas já em execução e é isso que nos permite ter margem para concretizar os projectos mais arrojados.
Como avalia o desenvolvimento da cultura vitivinícola na freguesia?
O sector vitivinícola na freguesia da Candelária tem uma grande expressão. Temos milhares de metros quadrados de área destinada à produção vitivinícola que foram reconvertidos nos últimos anos ao abrigo do programa VITIS, permitindo que inúmeros terrenos abandonados passassem a ser terrenos de produção vitivinícola.
Qual é a dimensão do turismo na freguesia? O número de alojamentos locais está a aumentar?
Apesar de ainda existir alguma sazonalidade nesta área — cada vez menos, é certo — o turismo é, sem dúvida, um sector em permanente crescimento e, como em qualquer outra freguesia, é importantíssimo para a dinâmica local. Notamos que, nos períodos de Verão, a afluência de turistas nos espaços de lazer da freguesia tem vindo a aumentar ano após ano.
As duas unidades hoteleiras da freguesia oferecem serviços de elevada qualidade, destacando-se que uma delas já foi premiada diversas vezes. Para além disso, temos registado o aumento de alojamentos locais (AL) a abrir portas, sendo notório o investimento nesta área. A oferta turística, para além de crescer, começa também a apresentar maior qualidade.
A falta de habitação é um dos problemas para os casais jovens? Por que razões?
A falta de habitação é um problema transversal a todas as freguesias, e a nossa não será excepção. Vivemos tempos em que o mercado imobiliário atinge valores recorde e, como sempre, procurar soluções junto das entidades competentes e responsáveis por este sector é algo em que este executivo se tem focado.
Recentemente, durante a última visita estatutária do Governo Regional à ilha do Pico, foi informada a intenção de adquirir um terreno na freguesia da Candelária, no lugar da Mirateca, para a construção de 30 lotes destinados à habitação. A concretizar-se, será uma mais-valia para ajudar a resolver parte deste problema para os casais jovens e não só.
Há problemas relacionados com a falta de mão-de-obra na freguesia?
Os valores do orçamento de uma Junta de Freguesia são baixos, o que não nos permite ter um quadro de pessoal conforme queríamos, levando-nos muitas vezes a recorrer a prestadores de serviço. Não havendo mão-de-obra disponível, atrasa as obras planeadas e/ou empreitadas que se pretende executar.
Quantos residentes tem actualmente a freguesia? Qual a percentagem de idosos em relação aos jovens? Quais são as tendências de migração observadas nos jovens?
Neste momento, a freguesia tem cerca de 800 residentes. Pese embora uma boa parte desta população ser mais idosa, existem também 84 crianças com idade inferior a 12 anos na freguesia, ou seja, 10% da população da freguesia são crianças — é um factor que aponto sempre como bastante positivo, considerando que temos uma boa parte deste número de habitantes que são considerados população activa.
Todos sabemos que os jovens, quando terminam o secundário, na sua maioria, saem da ilha em busca do ensino superior. Alguns regressam, outros têm melhores oportunidades e já não regressam, é o que se observa e que, infelizmente, não conseguimos contornar. Apesar de já termos muita gente qualificada a instalar-se na freguesia, importa ressalvar que tenho observado, com agrado, o regresso de alguns emigrantes à freguesia.
Há falta de algum serviço ou infra-estrutura essencial na freguesia?
Tenho trabalhado bastante para trazer dois serviços que gostaria de ver instalados e em funcionamento na freguesia. O primeiro seria um espaço de ocupação de tempos livres para crianças e jovens, pois considero que, actualmente, é uma verdadeira ajuda para os pais e encarregados de educação terem um espaço qualificado onde possam deixar os seus filhos. Já realizei diversas diligências junto das entidades superiores, mas os entraves são tantos que me faz uma certa confusão como é que se colocam tantos obstáculos a um projecto de cariz social como este que quer ajudar as famílias. Apesar disso, não deixaremos de trabalhar para que, um dia, a Candelária possa ter um espaço com estas características.
O segundo serviço é um equipamento Multibanco (ATM). Ano após ano, tenho tido o cuidado de realizar reuniões com diversos bancos locais, mas, até à data, sem sucesso. Continuaremos a trabalhar neste sentido, pois acredito que é um equipamento necessário, especialmente para ajudar as pessoas que ainda não têm forma de se deslocar de forma autónoma.
Quais têm sido as principais acções de promoção cultural na freguesia?
Na freguesia, as diversas comissões fabriqueiras e associações têm desempenhado um papel importante na comemoração e promoção das festividades dos diferentes padroeiros. Contudo, quando me candidatei à Junta de Freguesia, pensei em criar um evento especial: o Dia da Freguesia. Este é um dia aberto a toda a comunidade, em que se celebra a união entre as pessoas da freguesia. É uma forma de mostrarmos o melhor que se faz na freguesia, seja através das exposições dos artesãos, seja pela actuação do nosso grupo folclórico, que todos os anos nos presenteia com a sua participação nesse dia, promovendo um verdadeiro sarau cultural. Este evento permite-nos ir ao encontro da população de uma freguesia que é grande e dispersa em termos geográficos. Desde 2022, celebramos esta data instituída por este executivo em Abril desse ano, com o dia 16 de Setembro escolhido para em cada ano celebrarmos esta data junto com a população da freguesia.
Outra actividade que temos promovido é a formação em instrumentos de cordas, realizada na sede da Junta de Freguesia com um formador certificado. A Candelária tem uma ligação profunda aos instrumentos de cordas, e quisemos assegurar que esta tradição tão nossa não se perca.
A Candelária tem potencial para se desenvolver mais? Em que condições e em que domínios?
A Candelária dispõe de uma série de comércios, incluindo farmácia, showroom de mobiliário, loja de vendas de materiais de construção, congelados, oficinas de reparação automóvel, hotéis e alojamentos locais, carpintaria, adegas produtoras de vinhos certificados, restaurante de hambúrgueres artesanais, produção de aguardentes, loja de rendas, produção de mel e empresas na área de produção animal, abates de bovinos e exportação de gado vivo. Ou seja, dispõe de uma panóplia e diversidade de empresas.
Sem dúvida que quando perspectivo o futuro da Candelária quero imaginar o melhor para esta freguesia, para que aquilo que é um problema hoje não seja um problema dentro de cinco anos. Considero que a área do enoturismo é um excelente desafio para a Candelária, até mesmo no combate à sazonalidade e já se começou a dar passos importantes nesta vertente turistica. Inclusive, temos a Adega Lucas Amaral, no Campo Raso, que, para além de adega, conta com uma sala de provas aberta a todos os que queiram visitar. De igual modo, temos a empresa ETNOM, que também realiza provas de vinhos no meio da propriedade onde são produzidas as uvas. São duas empresas jovens e de cariz familiar, mas projectos muito interessantes e com espaço para crescer, esperando que outros novos e ambiciosos projectos possam surgir.
Da mesma forma, também considero importante o peso da agricultura, que também tem muita expressão na freguesia. Temos produtores com excelentes taxas de abates de bovinos. Todos são importantes e necessários nos diversos sectores, e contamos com todos para fazer crescer a freguesia.
Que expectativas tem para 2025?
Considero-me apaixonado por esta freguesia, e daí advém o gosto por este cargo que desempenho. Por isso, as expectativas são sempre elevadas e ambiciosas. Temos algumas candidaturas de cooperação financeira aprovadas e vamos precisar de tempo e mão-de-obra para as executar fisicamente, sendo factores que teremos de conjugar.
Apesar de ainda estarmos em Janeiro, já temos planeado os trabalhos que queremos realizar ao longo deste ano. Só podemos desejar que tudo corra pelo melhor, para que no final possamos fazer um balanço positivo.
Gostaria de terminar deixando este poema do meu amigo e Sr. Comendador Manuel Serpa que define muito bem a freguesia da Candelária:
“Candelária é bonita, fresquinha muito catita,
De casinhas a alvejar.
Figueiras aconchegadas, rasteirinhas e podadas
São poemas de encantar.
Berço de gente ilustrada nas gestas da Pátria amada
Celebrada em melopeias.
Candelária dos vinhedos, dos bailes e dos folguedos
Da Senhora das Candeias.”
Daniela Canha
