André Rodas, de 72 anos de idade, é um de quatro irmãos: duas professoras e um coronel do exército. Os seus irmãos são naturais da ilha do Faial, mas André Rodas nasceu em Moçambique, porque o seu pai era militar.
André Rodas tem sobrenome de família e tem uma ligação forte com uma das duas ilhas mais Ocidental do Arquipélago dos Açores, as Flores. “Esta ligação com a ilha das Flores surge quando estudava no Liceu Nacional da Horta. Conheci lá uma rapariga das Flores, namoramos, casamos e fui para lá viver”. André Rodas tem dois filhos, Andrea e Tiago Rodas.
O nosso entrevistado comentou à nossa reportagem, que de início não foi nada fácil viver na ilha das Flores. “Não foi nada fácil, porque quando regressei do Ultramar já tinha trabalho na Secretaria de Turismo, na Horta, mas ela como era professora insistiu para ir viver para ilha das Flores para trabalhar com o pai dela e não tive outro remédio senão ir”.
Quando chegou à Lajes das Flores disse, que era na altura uma “Vila palheiro, atrasadíssima. As lágrimas vieram-me aos olhos e o que me valeu foi que fui para uma casa da alta sociedade da Vila das Lajes”.
Voluntariou-se
e foi para o Ultramar
André Rodas andava a estudar, foi para Lisboa antes de voluntariar-se para ir para a tropa, ainda por cima para tropa de elite do Exército português. “Só comecei a trabalhar depois de regressar de Angola, com 24 anos de idade”.
Nessa altura começa a trabalhar no comércio, onde diz que “caiu de paraquedas”.
Sobre a Guerra do Ultramar diz ter tido “momentos bons e outros maus”. Contudo, “se não tivesse havido o 25 de Abril tinha ficado em Angola, porque a minha mulher já era professora e estava a dar aulas lá, e eu já ia começar trabalhar em Benguela, mas com o 25 de Abril, a efeméride produziu a liberdade política em Portugal e o acesso da independência das ex-colónias em África falantes da língua portuguesa e a autodeterminação dos respectivos povos e viemos embora”.
E como era tropa de elite do Exército português e estava sempre na frente de combate sentiu o efeito da guerra.
Na ilha das Flores começou a trabalhar na Empresa João Germano de Deus, quando ainda era ainda em nome individual antes de passar a ser sociedade, onde André Rodas passa a ser sócio também.
Conhece o Mestre Paulo
e o entusiasmo cresce
O nosso entrevistado ainda trabalhou como prospector no antigo Banco Português do Atlântico, antes de se ligar, de igual modo, aos combustíveis. Conhece o mestre Paulo Soares, conhecido por Paulo das bombas de gasolina, que montava as bombas da GALP em todas as ilhas. Nessa altura, interessa-se pelos combustíveis (gasóleo e gasolina) e gás butano. “Foi a partir dessa altura, que mais entusiasmo tive em poder ficar pelas Flores”.
“Depois também dediquei-me muito ao mar, fundei o Clube Naval das Lajes”, a 31 de Maio de 1989. André Rodas é o sócio número 2, o sócio número 1 é Albino Cristiano Alves Gomes, que foi presidente da Câmara entre 1982 – 1997.
A fundação do Clube Naval das Lajes teve como objectivo promover as actividades náuticas, a formação e a prática desportiva na ilha das Flores, e a preservação do património baleeiro da ilha.
Escola de Vela, Escola Náutica de Recreio (Marinheiro, Patrão Local e VHF) Competição em botes baleeiros são algumas actividades desenvolvidas pelo Clube Naval das Lajes.
Relação profunda com o mar
A sua relação com o mar é profunda, desde os tempos do avô paterno. “Meu avô paterno foi trancador e foi oficial de baleia no Porto do Comprido no Capelo, ilha do Faial”. Manuel Leonardo da Silva, seu avô era conhecido por Manuel Crastos. “Ele incentivava-me e eu quando fui para o liceu, tinha 10 anos de idade, comecei na Escola de Vela, na Mocidade Portuguesa, nos Lusitos, que eram barcos pequenos. Para um lado, com vento a favor tudo corria dentro da normalidade, mas para trás tínhamos de remar”.
“Cheguei à ilha das Flores e o meu hobby era o mar, porque foram muitos anos nestas andanças e tinha de continuar esta ligação”, destacou.
Tira a Cédula Marítima, a Carta de Arrais e depois passados alguns anos a Carta de Patrão de Alto Mar. “Depois tive a sorte de ter sido fiel depositário de um barco, que tinha sido apreendido com droga, na ilha do Faial. Era um barco com 14 metros e fiquei responsável por esse barco de 2004 a 2014 e então podia navegar pelas ilhas todas. Todos os anos saíamos em meados de Julho e regressávamos em finais de Agosto.
Depois, o iate também já era muito velho e como tinha sido comprado em leilão vendemo-lo. Passados uns anos, um norte-americano pediu ajuda a 40 milhas da ilha das Flores, um helicóptero foi buscá-lo, mas o iate foi parar à ilha Terceira a casa de um casal amigo, que disse-me que queria dar-me o iate, e que se quisesse ir buscá-lo ficava com ele, e foi buscá-lo.
O iate “Bolero”, a reforma e Alfama
Tive de legalizá-lo, que tinha bandeira americana e tive, que legalizá-lo para a Comunidade Económica Europeia, mas foi quase como um presente envenenado, porque foi muito caro. Foi oferecido, mas no fim, com legalizações e com a bandeira polaca ficou-me à volta dos 13 mil Euros. Esse iate, lindíssimo, o «Bolero», era um clássico de 1981.
Mais tarde, vem o furacão “Lorenzo”, na ilha das Flores fico sem espaço e levei-o para São Jorge, onde esteve quatro anos. Ia todos os anos lá buscá-lo e passear pelas ilhas todas com a família, mas após alguns problemas de saúde, já ultrapassados tive de o vender”.
No presente reformado vai dando aulas no Clube Naval das Lajes, vai ajudando e dedica grande parte do seu tempo a manter uma quinta que tem na ilha das Flores, com bananeiras e laranjeiras, apesar de há cinco a esta parte viver em Alfama, em Lisboa, mas vai cinco, seis ou sete vezes por ano à ilha das Flores, onde tem também um semi-rígido para ir à pesca.
A vida insular traz consigo um estilo de vida único. “Vivo a insularidade de uma forma agradável, porque tenho o mar, apesar de lá em Alfama ter o Rio Tejo, a 100 metros de casa, mas quando chego à ilha das Flores, o espírito e a insularidade para mim é extremamente agradável e gosto da ilha das Flores”.
Marco Sousa
