Li nas redes sociais que foi o Tribunal de Contas a alertar o governo regional para o índice anormalmente alto de mortalidade nos Açores, apesar de a região apresentar um perfil populacional mais jovem.
Não sei se a imprensa regional fez eco do assunto, porque já não leio jornais nem vejo notícias sistematicamente, como era meu hábito até ao ponto de me afetar psicologicamente. A loucura do mundo e a constante preocupação com o que nós, professores, andamos a adivinhar na escola de há alguns para cá, a evidência da falta de esperança que fizesse vislumbrar uma sociedade melhor para todos, atiraram-me para as entrelinhas de que por vezes se pauta a vida e que só se redefiniu após a ajuda devida e uma pequena fortuna em gastos de saúde.
Os professores não têm medicina no trabalho, mas, ainda assim, há sempre quem acuse que, entre as três centenas de atestados médicos de professores neste ano letivo, grande parte é fraudulenta. A suspeição lançada, por gente supostamente responsável, às classes docente e médica, não devia passar incólume, no entanto o índice de aviltamento já é tão normal nesta sociedade que já se sacode os ombros, como quem diz: pouco importa, pois quem precipitadamente julga vê as coisas como o próprio é e não como as coisas são. Não merece crédito, mas há sempre um dia em que estes julgamentos fazem ricochete. De qualquer modo, não era este o meu objeto de reflexão.
Na esteira do absurdo a que assistimos sobre o mundo todos os dias pelas televisões, a nossa região não fica atrás. O alerta do Tribunal de Contas, embora parecendo exceder as suas competências, está a zelar pela sua continuidade. Ora vejamos: se o argumentário do protocandidato à Presidência da República, Almirante Gouveia e Melo, e de alguns comentadores que já ouvi, estiver certo, o Estado deve dar prioridade à avultada despesa com a defesa e a segurança, nem que para isso se arrase com o estado social, pois sem defesa não existirá país em caso de guerra, muito menos saúde e educação!
Porém, ninguém ainda lhe ripostou o seguinte argumento: se, a exemplo da nossa região, o país começar a definhar cada vez mais cedo, não haverá é país nem região para defender! Nem sequer jovens saudáveis para servirem nas Forças Armadas, como parece ser este o objetivo.
A saúde é prioritária. Numa região, onde o valor da incidência de cancro é tão elevado, a prevenção é fundamental, pelo que o estudo que se impõe sobre as suas causas é urgente! Quer-se proatividade nos representantes que elegemos em vez de posturas que serão alvo de ridicularização do resto do país se a proposta da reforma antecipada para os açorianos cair na Assembleia da República. Pretende-se que atuem nas causas e não nas consequências. É para isso que prestam serviço.
Como é possível que se peça estudos acerca de tudo e de nada e o mais essencial não interessa? Encomenda-se um estudo que irá durar 18 meses para avaliar o uso dos manuais digitais na região, cuja resposta qualquer professor dará no imediato e de graça (os professores já o fizeram duas vezes a pedido de dois grupos parlamentares da Assembleia Regional) , e não se sabe o porquê de tanta gente morrer precocemente nos Açores?
Li também que os pedidos de atendimento para certas especialidades feitos pelos médicos de família estão a ser recusados pelo HDES.
Atuar na prevenção não é, portanto, uma prioridade. De resto, entrar no Hospital do Divino Espírito Santo é hoje quase mais difícil do que ser admitido num clube de elite.
Como é possível que a saúde dos açorianos esteja assim tão arredada das preocupações fundamentais dos responsáveis? Classe médica incluída, que está silenciada. Por que razão estão todos calados? Já estaremos todos mortos? Só o Tribunal de Contas parece advertir que não ficará para pagar a despesa…
Por: Paula Cabral