A cultura e a gastronomia de Cabo Verde chegaram à Ribeira Grande com o ‘Kalema Bar’, novo projecto de Humberto Pereira Furtado. A aposta em São Miguel surge tanto por razões pessoais como pelo potencial do mercado local. O restaurante combina pratos autênticos, como cachupa, moreia frita e chamuças, com música ao vivo, criando um ambiente de fusão entre Cabo Verde e os Açores. Segundo Humberto Pereira Furtado, a escolha da Ribeira Grande deve-se ao seu crescimento e ao apoio da autarquia, que mantém um protocolo com a Cidade Velha, em Cabo Verde.
Correio dos Açores – O que motivou a abertura deste restaurante em São Miguel?
Humberto Pereira Furtado (Proprietário do ‘Kalema Bar’) – O primeiro motivo foi pessoal, pois a minha companheira trabalha aqui como enfermeira, e estávamos divididos entre duas ilhas. O segundo motivo é que vejo muito potencial nesta ilha a nível de restauração. Como na Ilha Terceira já existia a concorrência da minha mãe, optei por vir para cá, uma vez que não havia nenhum restaurante do género que pretendemos.
O ‘Kalema Bar’ que está na Terceira é da sua mãe?
Não, o ‘Kalema’ da Terceira é um bar que serve refeições ligeiras e não tinha propriamente uma cozinha aberta para restaurante. A minha mãe tem um restaurante chamado ‘Restaurante Africana’, no Parque Industrial, que é o tal a que me referia.
Porquê escolherem esta localização específica?
Como já disse ao presidente da Câmara da Ribeira Grande e ao presidente da Junta de Freguesia da Matriz, acho que a Ribeira Grande é o futuro de São Miguel. Já estou há um ano à procura de um espaço na ilha, e a primeira opção, claro, foi Ponta Delgada, mas percebi rapidamente que está tudo muito caro e sobrelotado.
Então, decidi passear pela ilha e descobri a Ribeira Grande. Acho que esta cidade tem um potencial enorme.
E quais são os principais pratos que representam a culinária cabo-verdiana?
O principal é a cachupa, um prato bem diferenciado porque leva milho. É uma espécie de feijoada, mas a base é o milho, muito utilizado em Cabo Verde devido à sua ampla produção e boa conservação.
Além da cachupa, temos vários tipos de feijoada, pois há muitas variedades de feijão em Cabo Verde – feijão-pedra, feijão-congo, sapatinha, entre outros. Há tantos tipos que, se fosse para enumerar todos, levaria muito tempo [risos].
Temos também as chamuças, uma entrada de origem indiana que chegou a Moçambique na época da escravatura, quando havia muitos escravos e pessoas da Índia no país, acabando por se espalhar para Cabo Verde. Temos igualmente uns pastéis de milho, uma espécie de rissóis, mas à base de milho.
Ainda estamos à procura de produtos para as sobremesas, pois nem todos estão disponíveis aqui. Algumas opções incluem doce de papaia com queijo e doce de coco.
A moreia frita é um prato muito comum em Cabo Verde. Aqui também se come, mas com temperos diferentes.
Tenciona fazer alguma fusão entre a gastronomia cabo-verdiana e açoriana na sua ementa?
Já fazemos. O que pretendo aqui é algo semelhante ao que praticamos na Terceira. Tentamos sempre ter uma opção regional para quem não quer arriscar provar a comida cabo-verdiana, por isso incluímos sempre essa alternativa.
Temos alcatra da Ilha Terceira, bifes à regional, bifanas no prato ou no pão e, além disso, vamos ter hambúrgueres do Talho Ideal na nossa ementa.
O público em geral tem aderido bem à cozinha cabo-verdiana?
Até agora, não tenho razão de queixa, pois temos tido reservas desde a abertura. Desde a inauguração e abertura ao público, temos tido reservas todos os fins de semana, principalmente para cachupa, e também para frango de caril e caril de camarão. Este fim de semana, teremos uma reserva para 16 pessoas, portanto, tem corrido bem.
Pode-se dizer que a recepção do público ao bar, em geral, tem sido boa?
Muito boa, e associamos também à música ao vivo, preferencial ‘Mornas e Coladeira’, música de Cabo Verde. Temos o privilégio de contar com duas bandas que tocam muito bem, trabalham connosco e querem continuar a colaborar.
Assim, juntamos a gastronomia e a música, criando uma fusão entre bar e restaurante.
Quais foram os maiores desafios para a abertura do restaurante?
O principal desafio foi ser o segundo, pois já tínhamos uma casa bem estabelecida na Terceira, que funcionava de forma independente há sete anos. Por isso, começar do zero foi um desafio.
A gastronomia não foi um grande problema, pois já trabalhamos há algum tempo com a Associação dos Imigrantes dos Açores (AIPA), ), que nos convidou várias vezes. Após o festival, sabíamos que havia procura por gastronomia cabo-verdiana.
Há também um facto interessante: a Ribeira Grande tem um protocolo com a Cidade Velha, em Cabo Verde, como cidade irmã. Isso ajudou o presidente da Câmara a divulgar e apoiar este projecto a 100%.
Dessa forma, não tínhamos grandes receios, pois já trazíamos muita experiência. Ou seja, avançamos com os dois pés, pois medimos os riscos e eram mínimos.
Foi difícil para arranjar pessoas qualificadas para trabalhar no bar?
Foi um bocado complicado. Na parte das mesas e do bar, o pessoal qualificado está à procura dos melhores, e os bons já estão todos empregados e bem empregados. Na cozinha, por acaso, tive sorte de encontrar uma jovem de Cabo Verde através da AIPA, que indicou logo o ‘Kalema Bar’ para começar a trabalhar. Ou seja, na cozinha não foi muito difícil, mas na mesa e no bar está a ser mais complicado.
O nome do bar não tem nada a ver com os artistas?
Não, ‘Kalema’ é um nome de origem africana que significa arrebentação do mar nas costas de África. Como o primeiro ‘Kalema’ foi à beira-mar e estava associado a um grupo de dança de Kizomba – onde dou aulas e faço parte de uma associação –, analisamos vários nomes e este reunia tudo: mar, dança, Kizomba e África.
Como avalia a concorrência gastronómica em São Miguel?
Não diria concorrência, mas sim colegas de profissão. Não temos concorrência directa, porque o objectivo é incentivar as pessoas a sair para comer.
Também gosto de sair e comer fora, e os colegas trabalham muito bem. Sei de duas ou três referências aqui na Ribeira Grande que são reconhecidas não só na cidade, mas a nível da ilha: o ‘Restaurante O Silva’, que sei que é o número 1 na Ribeira Grande e arrisco-me a dizer que está no top 10; o ‘Restaurante Monte Verde’, que tem um peixe fabuloso; e também ouço falar muito do Manuel Flor.
Não vejo isto como concorrência, porque os pratos são diferentes, os temperos são diferentes e, como costumo dizer, há espaço para todos.
Quais são as suas expectativas para o futuro do ‘Kalema Bar’ em São Miguel?
Eu não gosto de falar em expectativas, prefiro falar em objectivos. O meu objectivo é que esta casa cresça e que, no futuro, possamos encontrar um espaço maior. Espero que este se torne pequeno, pois, em termos de lugares sentados, já estamos limitados a cerca de 40. Não queremos muita rotação, porque vamos trabalhar com diversão e animação ao vivo, sabendo que o pessoal aqui gosta muito de karaoke. Queremos continuar a trabalhar e a partilhar a gastronomia de Cabo Verde.
Refere que já tem um restaurante na Terceira e abriu agora em São Miguel. Podemos dizer que não há duas sem três?
Não sei [risos]. Sendo da Terceira, sou um bocado suspeito, mas costuma-se dizer que à terceira é de vez, não é? A ilha é grande.
Frederico Figueiredo/Filipe Torres
