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“O mundo está cheio de possibilidades e ganhar experiência fora dos Açores pode abrir portas que talvez nem imaginassem”, afirma Rodrigo Tavares

Desde cedo que o micaelense Rodrigo Tavares, actualmente a viver na Roménia, soube que queria construir uma carreira internacional. Estudou Jornalismo em Lisboa, passou pela imprensa nacional e regional e, depois de uma experiência em Espanha através do programa Eurodisseia, mudou-se para Bucareste, onde vive há quase sete anos. Hoje é gestor de recursos humanos numa multinacional, e diz-se viciado na energia do mundo coorporativo — mas o que mais valoriza é a flexibilidade de poder viajar sem comprometer a carreira e, sobretudo, poder sempre voltar a casa. “É importante manter uma ligação às raízes. Estar longe não significa perder a identidade açoriana — muitas vezes, a distância faz-nos valorizá-la ainda mais”, afirma.

Correio dos Açores – Como foi crescer nos Açores e em que momento começou a imaginar um futuro fora da ilha?
Rodrigo Tavares – Acredito que quem teve esse privilégio se sente sortudo por crescer num lugar onde o verde da ilha se mistura com o azul infinito do mar. Sempre que posso, regresso para recarregar energias. A primeira vez que saí da ilha sem saber quando voltaria foi aos 18 anos, quando fui para a universidade em Lisboa – um passo que muitos açorianos também dão. Desde cedo, tive o objectivo de descobrir o que poderia oferecer ao mundo para além do oceano que nos rodeia.

Pode falar-nos um pouco sobre o seu percurso no Jornalismo e o que o levou a mudar de área?
O meu percurso no jornalismo teve início desde logo na universidade, quando entrei no curso de Jornalismo na Escola Superior de Comunicação Social (ESCS). Durante esse período, tive o privilégio de aprender com profissionais de renome da área, como os jornalistas Ana Leal, Daniela Santiago e José Alberto Carvalho. Embora tenha me especializado em jornalismo televisivo e radiofónico, foi a escrita que levou a melhor, não fosse essas uma das minhas maiores paixões.
Ainda durante os estudos, fiz um estágio no jornal ‘Correio da Manhã’, uma experiência intensa de três meses. Sendo um jornal generalista, tinha dias em que de manhã poderia estar a entrevistar uma banda como DAMA, conversar com políticos à tarde e, no final do dia, relatar um acidente. Confesso recordar com nostalgia o ambiente da redacção, o burburinho constante, a ansiedade dos prazos e a oportunidade de trabalhar lado a lado com jornalistas que admirava.
Após concluir a licenciatura, colaborei com o ‘Diário de Notícias’ em Lisboa enquanto frequentava uma pós-graduação em Indústrias Criativas e foi então que, concluída essa etapa, regressei aos Açores, onde iniciei um estágio no jornal ‘Açoriano Oriental’. Trabalhar num contexto regional, com recursos limitados, poderia ser visto como um desafio, mas foi nessa realidade que aprofundei a minha paixão pelo jornalismo e desenvolvi uma capacidade de adaptação e criatividade que me acompanham até hoje.
O jornalismo foi uma fase marcante da minha vida, que recordo com enorme carinho. Admiro profundamente os verdadeiros jornalistas, que, apesar dos desafios, continuam a batalhar pela profissão, muitas vezes enfrentando salários precários e condições laborais complicadas. Muitos até no limite da exaustão. Apesar da paixão que nutria pela área, senti a necessidade de procurar novos desafios que me proporcionassem um crescimento pessoal e profissional mais alinhado com as minhas aspirações.

Depois de estudar e trabalhar fora, decidiu voltar aos Açores. O que motivou esse regresso?
Desde o início, sabia que o meu regresso à ilha seria temporário. Sentia que as minhas ambições encontravam limites na ilha e não gosto de me sentir restringido. Foi então que participei no programa Eurodisseia, que oferece estágios profissionais remunerados a jovens europeus, permitindo adquirir experiência e melhorar competências linguísticas. Trabalhei seis meses numa agência de comunicação e marketing em Valência — uma experiência extremamente gratificante.
Foi aí que descobri o quão viciante pode ser integrar um ambiente internacional, rodeado por pessoas de todo o mundo e a ouvir várias línguas ao mesmo tempo

Porquê a Roménia?
Sabendo que a experiência em Espanha seria de apenas seis meses, iniciei entrevistas para oportunidades noutros países durante o último mês. Surpreendentemente, recebi três propostas: uma na Roménia, outra na Hungria e a terceira na Holanda. A escolha recaiu sobre a Roménia devido à oportunidade de integrar a Accenture, uma empresa que há muito ambicionava integrar enquanto estava em Portugal. Ao ser aceite para fazer parte da equipa na Roménia, acabei por dar início à minha carreira em recursos humanos.
Ao chegar à Roménia, pouco sabia sobre o país ou sobre Bucareste, a sua capital. Recordo-me de aterrar no dia 17 de Abril de 2018, apanhar o autocarro para o centro num dia cinzento e chuvoso, com vestígios de neve no chão, rodeado por edifícios imponentes, mas degradados, e pensar: ‘O que fui fazer à minha vida?’. Mas tinha de fazer com que a decisão resultasse. Empenhei-me em construir um novo caminho e, agora, passados quase sete anos, sei que trilhei um percurso sólido e enriquecedor.

Quais foram os maiores desafios na adaptação — a língua, a cultura, o quotidiano?
A minha adaptação foi surpreendentemente rápida, em grande parte devido à facilidade linguística. Embora o romeno seja uma língua românica, como o português, e partilhe uma base latina, tem também influências eslavas, turcas e gregas, o que lhe confere características únicas. No entanto, muitos romenos, especialmente em Bucareste, demonstram uma proficiência notável em inglês, o que facilitou muito a comunicação e integração. Acho que essa habilidade multilinguística continua a ser uma das razões que torna a Roménia especialmente atractiva para diversos negócios e empresas internacionais.

O que é que a Roménia tem de melhor?
Ao longo destes anos, ouvi muitas pessoas com estigmas em relação à Roménia — imaginam-na como um lugar pobre, com poucos recursos ou até perigoso. Eu, que vivo aqui há quase sete anos, posso afirmar que o melhor da Roménia é a segurança. Já passei por muitos países e continuo a considerá-la o mais seguro de todos. Nunca me senti desconfortável em nenhum lugar, e essa é uma sensação partilhada por muitos que, como eu, vieram de fora.
Bucareste tem também óptimas opções de restaurantes. Sou um frequentador assíduo e continuo a afirmar, com confiança, que é a capital com os melhores restaurantes de todos países europeus por onde passei — tanto em termos de menu como de estética. Não consigo dizer não a uma ida a um restaurante. Um vício que apanhei do meu pai (risos).
Outra qualidade notável da Roménia é a sua capacidade de resiliência, a vontade de querer mais e lutar por isso É um país em rápido desenvolvimento, cada vez mais competitivo. As grandes empresas estão todas aqui, muitas delas tendo a Roménia como centro europeu. Os salários são bastante atractivos e há excelentes oportunidades laborais. Tudo o que conquistei até hoje devo-o, em grande parte, a este país (com muito esforço da minha parte também).
Além disso, admiro o povo romeno, que é trabalhador, resiliente e determinado. É um povo que sabe o que quer e está sempre atento ao que se passa a nível económico e político.O mais interessante é que vemos as mudanças a acontecer. Ao sair à rua, é possível observar a cidade a transformar-se. As novas infra-estruturas, a melhoria da qualidade de vida, e a presença de muitos espaços verdes em praticamente todas as cidades. As árvores estão por todo o lado, o que, aliás, é uma prioridade para as pessoas deste país.
Fico sempre contente por mostrar Bucareste a quem me visita. Já recebi amigos de vários países — e até os meus pais vieram cá várias vezes. Ficam sempre surpreendidos com o que vêem.

Como é o seu dia-a-dia profissional numa multinacional no estrangeiro e que diferenças encontra em relação à cultura de trabalho em Portugal?
Adoro trabalhar no contexto de uma multinacional — não me imagino de outra forma. Comecei na Accenture, onde passei mais de quatro anos como HR Admin; depois, em 2022, tornei-me HR Business Partner na Teleperformance e, em Julho de 2024, assumi o cargo de HR Manager na Genpact. Sempre fui movido pela adrenalina do ambiente corporativo, onde o ritmo é intenso, os desafios constantes e estamos rodeados de pessoas ambiciosas. Nunca me atraiu trabalhar numa pequena empresa. Gosto de ambientes dinâmicos, de grande escala, onde inovação e estratégia fazem parte do dia-a-dia. Sou, sem dúvida, um ‘corporateaddicted’.
Na Genpact, lido com um portfólio de centenas de colaboradores numa organização com quase 5000 pessoas. O que mais me motiva é apoiar talentos a atingirem o seu potencial. Sei bem o que é estar do outro lado — ter ambições, querer crescer — e poder orientar esse percurso é algo que me dá um enorme prazer. O papel de RH aqui não é apenas administrativo; é estratégico. Trabalhamos com dados e insights para decisões informadas sobre retenção de talento, desenvolvimento de carreiras e optimização de processos.
A Inteligência Artificial tem sido um grande aliado nesta jornada. Utilizamos IA para analisar tendências de turnover, identificar padrões de comportamento, prever necessidades futuras e tornar os processos mais ágeis e eficientes. Em vez de vermos a IA como uma ameaça, usamos a tecnologia a nosso favor, permitindo-nos concentrar no que realmente importa: as pessoas. A automação de tarefas repetitivas dá-nos tempo para sermos mais estratégicos e humanos no que fazemos.
Comparando com Portugal, sinto que o ambiente de trabalho aqui é mais estruturado e orientado para métricas e performance. Há um foco muito forte na digitalização, eficiência e uso estratégico da tecnologia. É uma cultura exigente, mas recompensadora para quem gosta de desafios e quer fazer a diferença.
Uma das grandes vantagens de trabalhar numa multinacional como a Genpact na Roménia é a flexibilidade: posso gerir o meu horário e trabalhar remotamente, inclusive a partir do estrangeiro. Essa liberdade permite-me equilibrar vida pessoal e profissional, viajar sem comprometer a carreira e estar próximo da família quando preciso. Para alguém que gosta de dinamismo e não se vê preso a um escritório todos os dias, este modelo de trabalho faz toda a diferença. Além disso, reflecte a própria cultura da empresa, que aposta na confiança e na entrega de resultados, independentemente de onde estamos a trabalhar.
Como organiza a sua vida social fora do trabalho? O seu círculo de amigos é maioritariamente internacional ou local?
Tenho amigos de todo o lado e, ao longo dos anos, fiz parte de grupos muito diversos, com expatriados e romenos. Nestes quase sete anos, passei por várias fases, integrando diferentes círculos sociais, pois esta é a realidade de quem vive no estrangeiro: uns regressam aos seus países, outros chegam e trazem novas perspectivas.
Bucareste é, a nível social, uma cidade incrivelmente dinâmica. As empresas contratam muitos estrangeiros e oferecem óptimos benefícios a quem decide mudar-se para a Roménia, como aconteceu comigo. Isso cria um ambiente multicultural onde é fácil conhecer pessoas de várias origens.
Para além disso, há imensos eventos para expatriados — encontros profissionais, actividades culturais e de lazer — o que torna a cidade ainda mais atractiva para quem gosta de novas experiências. Há sempre algo a acontecer: um jantar com amigos de várias nacionalidades, uma noite animada num ‘rooftop’ ou até um retiro de fim-de-semana pelas montanhas da Transilvânia. Bucareste não deixa ninguém parado — e talvez seja isso que mais gosto na cidade.

A proximidade com um conflito armado mudou de alguma forma a sua percepção do que é viver em segurança na Europa?
A guerra na Ucrânia teve um impacto profundo no quotidiano de todos os que vivem na Roménia, sim. Lembro-me de uma altura em que centenas de refugiados chegavam diariamente a Bucareste de comboio e eu, juntamente com vários amigos, ajudávamos na recolha e distribuição de comida e outros bens essenciais. Foi um cenário devastador, marcado pelo desespero de quem fugia sem saber o que o futuro reservava. Ver de perto aquelas pessoas, ouvir as suas histórias e sentir o peso da incerteza foi avassalador. As grandes empresas na Roménia também desempenharam um papel muito importante, contratando muitos refugiados ucranianos e ajudando-os a reconstruir as suas vidas. Ainda hoje trabalho com colegas que chegaram nessa altura. Nos primeiros meses do conflito, o sentimento de insegurança era palpável — todos nos questionávamos até onde poderia escalar a guerra. Cheguei a passar um longo período nos Açores, não só para acalmar a minha própria ansiedade, mas também para tranquilizar os meus pais.

A experiência internacional permitiu-lhe conhecer vários países. Consegue dizer quantos já visitou? Há alguma viagem que o tenha marcado em especial?
Já tive a oportunidade de viajar por vários países e continentes, e cada destino deixou a sua marca. Como sou apaixonado por climas quentes, regresso sempre que posso ao Dubai, especialmente porque os Invernos na Roménia são bastante rigorosos. Em Outubro, volto para mais uma temporada. O Dubai tem um ambiente internacional vibrante, é mais barato do que muitos imaginam e há sempre algo a acontecer. Para mim, é um destino mágico. Num dia, posso tomar o pequeno-almoço num iate à volta da Ilha da Palmeira, no seguinte, fazer um safari no deserto e, depois, relaxar nas praias deslumbrantes.
Mais recentemente, em Março, viajei pela Áustria, Hungria e Eslováquia, explorando a arquitectura imperial, os cafés históricos e a riqueza cultural da região. Em Julho, o destino será Itália, com um roteiro traçado entre Palermo, Taormina e Catania.
Uma das grandes vantagens do meu trabalho é a flexibilidade, que me permite viajar e trabalhar a partir de qualquer parte do mundo. Essa liberdade tornou-se um estilo de vida, permitindo-me conhecer novas culturas sem comprometer a carreira.

Poder regressar aos Açores é essencial no seu percurso fora do país? Do que tem mais saudades?
Os Açores serão sempre sinónimo de casa, e voltar é fundamental para mim — é a melhor forma de recarregar energias. Se não tivesse a possibilidade de regressar por períodos mais longos, como faço actualmente, talvez não suportasse tão bem estar longe.
Do que tenho mais saudades? Para além da família e dos amigos, sinto falta do bacalhau com natas e de um dos meus hobbies preferidos: a jardinagem. Sempre que estou nos Açores, passo horas a cuidar do jardim dos meus pais — todos os dias há algo para fazer. Como vivo num apartamento na Roménia, não tenho essa oportunidade.
Outra coisa de que tenho saudades é da minha faceta de ‘mestre das obras’. Quando estou na ilha, passo horas a fazer bricolage — estou sempre a dizer ao meu pai que, se me pagassem, fazia qualquer coisa (risos)!

Quando fala dos Açores fora de Portugal, como os apresenta? Sente que os açorianos têm um espírito próprio?
Sempre que menciono a minha origem, prefiro dizer Açores em vez de Portugal — o que costuma gerar reacções engraçadas. Quem reconhece o lugar pergunta: ‘Mas o que é que fazes aqui na Roménia?’ E eu faço questão de mostrar fotografias — ficam sempre boquiabertos com o Ilhéu da Vila ou a Lagoa do Fogo.
Os açorianos têm, sim, um espírito próprio. Carregam um espírito rebelde que nasce da força e da autenticidade das ilhas. É um traço que se revela na resiliência perante as adversidades e na vontade de inovar, moldado pelas paisagens indomáveis e pela história de superação dos nossos antepassados.

Se em Portugal existissem as oportunidades que encontrou fora, acredita que teria seguido outro caminho?
Não me prendo muito a esse tipo de questões. Estou feliz onde estou, faço o que gosto e o facto é que a Roménia me tem proporcionado uma vida confortável e gratificante.

Que conselhos daria a jovens açorianos que ponderam sair da ilha?
O meu principal conselho é que não tenham medo de arriscar. Sair da zona de conforto pode ser desafiante, mas é também uma oportunidade única de crescimento pessoal e profissional. O mundo está cheio de possibilidades, e ganhar experiência fora dos Açores pode abrir portas que talvez nem imaginassem.
Ao mesmo tempo, é importante manter uma ligação às raízes. Estar longe não significa perder a identidade açoriana — muitas vezes, a distância faz-nos valorizá-la ainda mais. Criar uma rede de contactos, estar atento às oportunidades e não hesitar em pedir apoio a quem já passou pelo mesmo são estratégias essenciais.
A adaptação é a chave. Na universidade ou no mercado de trabalho, os desafios surgem, mas cada um deles é uma aprendizagem. O início pode ser difícil, mas com o tempo, o desconhecido torna-se familiar e enriquecedor. E, claro, nunca esquecer que partir não significa abandonar—os Açores estarão sempre lá, à espera de braços abertos para quem quiser regressar com novas experiências e perspectivas.

Daniela Canha 
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