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“Os Açores têm as condições ideais para que as vespas asiáticas proliferem”, afirma Bruno Oliveira

Depois de terem aparecido, pela primeira vez, vespas asiáticas nos Açores, mais concretamente em São Miguel, o nível de preocupação dos Serviços de Desenvolvimento Agrário aumentou. Desde que receberam esta informação, já meterem mais de quatro centenas de armadilhas, tendo já capturado mais de quatro dezenas de vespas. Ao ‘Correio dos Açores’, Bruno Almeida explica que cuidados se deve ter, como se pode identificar e o que se deve fazer caso se identifique algum ninho.

Correio dos Açores – Como é que a Vespa Asiática chegou a São Miguel?
Bruno Almeida (Director dos Serviços de Desenvolvimento Agrário) - No dia 27 de janeiro, fomos informados sobre a presença de um ninho de vespas de grandes dimensões nas Areias de Rabo de Peixe. Este foi o primeiro avistamento deste tipo de ninho nos Açores, o que nos deixou em alerta e preocupados.
É importante destacar que o Serviço de Desenvolvimento Agrário está a trabalhar em conjunto com e a Direção Regional da Agricultura, Veterinária e Alimentação para evitar a disseminação da Vespa Velutina na ilha de São Miguel e, potencialmente, para as outras ilhas. Dado que a espécie entrou nos Açores por São Miguel, o risco de propagação é elevado.
Conforme a biologia das vespas, o ninho antes de colapsar, liberta muitas vespas fecundadoras, que são responsáveis pela formação de novos ninhos no ano seguinte. Normalmente, os ninhos colapsam em outubro ou novembro, libertando entre 40 a 100 vespas fecundadoras, que podem originar de oito a dez novos ninhos no ano seguinte. Para que esses novos ninhos se desenvolvam, é necessário que cerca de uma centena de fecundadoras sejam libertadas na natureza.
Cientes dessa realidade, iniciámos, na primeira semana de fevereiro, a distribuição de armadilhas na área das Areias, que agora se estendem por uma vasta área. Até à data, temos 437 armadilhas colocadas pela a Ilha de São Miguel.

Na ilha de São Miguel toda?
Não está na ilha toda. As armadilhas estão mais concentradas na zona das Areias, em Rabo de Peixe. No entanto, também temos armadilhas colocadas ao longo da Costa Norte, desde a Gorreana até João Bom, e na Costa Sul, desde a Lagoa até Ponta Delgada, especialmente nas áreas do Livramento, São Roque, Fajã de Cima e Fajã de Baixo.
Até agora, das 437 armadilhas distribuídas, capturámos 45 vespas fecundadoras. Segundo a bibliografia, isso representa quase metade das vespas que se esperava capturar nesta fase. As vespas fecundadoras, que estiveram em semi-hibernação de outubro a fevereiro, começam a sair em março à procura de alimento, e é nesse momento que entram nas armadilhas.
Com a captura de 45 vespas, podemos considerar que há menos 45 ninhos potenciais. Embora nem todos os ninhos vinguem, pois geralmente sobrevivem entre 8 a 10. Nas últimas três semanas já identificámos a presença de dois ninhos primários. Estes ninhos são menores e poderão dar origem a ninhos secundários, que são maiores.
Um dos ninhos primários foi encontrado próximo da zona das Areias, em Rabo de Peixe, e o outro, que nos preocupa mais, foi localizado na zona do Paim, indicando que as vespas se deslocaram de Rabo de Peixe até Ponta Delgada. Também já observámos vespas nas áreas do Livramento, São Roque e Capelas.

Quais são as condições ideais para que a vespa possa construir o seu ninho?
Os Açores têm as condições ideais para que as vespas proliferem. Ou seja, nós temos humidade, muita água, temos temperaturas amenas ideais para que elas consigam sobreviver e crescer. Portanto, o nosso ambiente é propício e pode resultar em sérios danos, especialmente para os apicultores, uma vez que as vespas procuram fontes de proteína, alimentando-se de abelhas. Elas capturam abelhas e levam-nas para o ninho, onde servem de alimento às suas larvas.
Actualmente e nessa altura do ano, não existe muita procura às colmeias. O que pode existir neste momento são ninhos primários, onde a vespa fecundadora está a começar a produzir a primeiras larvas, que tornar-se-ão em vespas. Significa que dentro de dias estas vespas que esperamos capturar e que podemos vir a detectar nas armadilhas, já são filhas dessas vespas fecundadoras.
O que é que vai acontecer para a altura do Verão? É nesta altura que estes ninhos primários vão começar a crescer, em que vai haver um aumento da população no interior do ninho e um aumento da necessidade de proteína. Para suprir essa necessidade, elas atacarão as colmeias, alimentando-se das abelhas. Além disso, as vespas asiáticas não se limitam a abelhas, também procuram carne e resíduos alimentares em áreas sujas, mas a prioridade continua a ser as colmeias. O que é acontece com isso? Elas quando detectam uma colmeia, atacam incansavelmente. Observámos diversas vespas a atacar uma, duas ou três colmeias levando a que as abelhas não saiam das mesmas e quando saiam são logo capturadas. Isso, dia após dia, leva depois à morte da colmeia.
Foi encontrado, como referiu um desses ninhos, já numa zona mais habitacional, ali na zona do Paim.

Que perigo é que essas vespas também podem apresentar para as pessoas?
Sim, este é um problema de saúde pública. As vespas podem atacar pessoas e, para aqueles que são alérgicos ao veneno, isso pode ser fatal. Felizmente nem todas as pessoas são alérgicas, as picadas causam inchaço e dor, geralmente mais intensa do que a picada de uma abelha.

A que sinais as pessoas devem ficar alerta devido às Vespas Asiáticas?
As pessoas que detetarem um ninho, seja primário ou secundário, devem contactar os Serviços de Desenvolvimento Agrário de São Miguel. Temos uma equipa especializada que se deslocará ao local indicado para reconhecer e eliminar o ninho, independentemente do seu estado. Este serviço é realizado à noite, quando as vespas estão no ninho, pois durante o dia elas estão fora. É um serviço totalmente gratuito.
Atualmente, a Direção Regional da Agricultura, Veterinária e Alimentação já adquiriu três equipamentos que nos vão facilitar na eliminação de eventuais ninhos que venham a existir. São equipamentos específicos. Estes ninhos estão instalados normalmente a3/4 metros de altura, a maior parte das vezes estão instalados em árvores e por isso necessitamos de equipamentos específicos que nos auxiliem na correcta eliminação do ninho.

Têm feito algumas sessões de sensibilização para os apicultores, eu sei que a última teve cerca de 130 participantes. É algo que os apicultores têm aderido com facilidade?
Os apicultores têm-nos contactado, sobretudo para procurar armadilhas, visto que o Serviço oferece as armadilhas. São armadilhas artesanais que fabricamos por nós e que disponibilizamos a todos os apicultores que estejam interessados.
A revisão das armadilhas está a ser um desafio enorme. Temos 437 armadilhas e a equipa do Serviço de Desenvolvimento Agrário, em colaboração com a Direção de Serviços de Agricultura e Desenvolvimento Agrário, realiza inspeções regulares a cada 15 dias para verificar a presença de vespas e renovar o isco. Este trabalho está a exigir um esforço enorme, e contamos com a ajuda dos apicultores para instalar armadilhas nos apiários, uma vez que as vespas tendem a se concentrar em áreas com colmeias nos próximos meses.
No próximo dia 13 de maio vamos ter uma sessão em que iremos falar da Vespa Asiática e explicar como está actualmente o panorama aqui na ilha. Contaremos também a presença da drª Maria José Valério, que é uma técnica do INIAV, que estará cá presente na ilha neste dia e vai-nos abordar questões sobre sanidade apícola e também inclusive, da vespa asiática e dos problemas que os nossos colegas apicultores do continente sofrem.

É possível exterminar completamente a vespa asiática ou isso vai ser um problema que nós vamos ter que aprender a lidar a partir de agora?
Eu espero que não tenhamos esse problema. Nós estamos a reunir todos os esforços para tentar eliminar o máximo de vespas fecundadoras. No entanto vai ser muito difícil. Temos a consciência que é difícil, mas eu tenho a certeza que vamos conseguir.
Gostaria de salientar que estamos em contacto com a Universidade das Ilhas Baleares, que são um caso de sucesso. Também é uma ilha e é um caso de sucesso porque conseguiram eliminar a Vespa da sua ilha. E, portanto, estamos em conversações com eles para também saber aquilo que eles adoptaram e o que fizeram, para que se, eventualmente, a vespa vingar aqui na ilha de São Miguel, nós actuarmos em conformidade com aquilo que eles fizeram.
Também estamos em conversações com uma empresa de drones que tem uma tecnologia ultramoderna na detecção de ninhos. Os drones têm um sensor térmico, que os permite localizar através da temperatura os ninhos. Como os ninhos das Vespas possuem uma temperatura que ronda os 33 e os 35 graus e a nossa temperatura ambiente varia entre os 20 e os 23 graus, na época de Verão, à noite, o drone identifica essa diferença de temperatura e localiza o ninho.

Frederico Figueiredo

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