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Votar porquê?

Em época de promessas tinha prometido a mim mesmo e a alguns amigos seguidores das minhas desconstruções que não iria escrever neste período de campanha eleitoral para as Autárquicas. Desculpei-me, parte pela vontade de não criar mais ruído e parte pela decisão de não tomar partido sobre quem genuinamente ou não, acha que pode ou deve ser o autarca, nome que assusta na sua etimologia, mas que se compreende-se aplicado à gestão partilhada de um território composto por concelhos e freguesias a que se deva associar autonomia representativa dos interesses próprios das suas populações. Não cumpri!
Como defendia Eça de Queirós, a política moderna não é de individualidades, mas é de ideias. Mas como ideias não há muitas, ficamos pelas individualidades e pelas promessas; o que já não é mau se, de entre os voluntários e os recrutados à força existirem como se referia ele; encarnações justas e poderosas para tomarem nas suas mãos o nosso destino, neste caso de residentes e frequentadores das nossas ruas, das nossas freguesias e das nossas cidades.
Considero as eleições autárquicas uma manifestação democrática de maior importância na caracterização do poder do povo na definição desta vontade, por isso será matéria de reflexão se a ocorrência às urnas for menor do que qualquer outro auto eleitoral.
Esta será uma primeira condição para se ter que votar, mas haverá mais se as ideias se impuserem sobre as promessas, que o mesmo será dizer; se ao querer fazer se associar o poder fazer, explicando-nos como e quando tal será possível.
O poder autárquico está limitado pela inevitável coexistência de outros poderes que, quer se queira quer não, condicionam decisões territoriais, sociais e até económicas que comprometem o cumprimento de promessas eleitoralistas.
Sabemos que existem temas que nos preocupam e temas que nos seduzem e que têm sido porta bandeiras de todas as candidaturas, como o da segurança, o da habitação; o das acessibilidades e mobilidade; o da saúde pública (menos focado); o da demografia e fixação de residentes e nalguns casos até ao da emigração; o da pobreza (escondido nestes debates), o dos sem abrigo e do flagelo das dependências; e os “fait divers” habituais das deslocações a banhos, mercados municipais, feiras e instituições de carácter social maioritariamente dependentes das políticas do governo e não das autarquias.
Faz parte. Mas estes são os problemas e o que importa são as propostas viáveis de minimização ou até de solução dos mesmos. Se nos prometem mais cem casas num concelho que precisa de mil, se prometem mais segurança, mas quem a reforça são as forças de segurança pública que carecem de meios e não dependem deles, se precisamos de melhores condições de acesso a cuidados de saúde e quem os disponibiliza é o governo, se queremos minimizar a pobreza existente, mas o problema é sistémico, se queremos fixar residentes, mas não conseguimos competir com outras geografias, se queremos resolver o problema dos sem abrigo e das dependências, mas não temos plano próprio para o poder fazer, se queremos mais creches e mais centros de dia e mais valências residenciais para idosos mas não temos política social robusta para o poder fazer; então estamos perante uma missão que parece inglória porque por vezes impossível, mas que pode ser e o é muitas vezes gratificante; porque quem elegermos pela proximidade e conhecimento com estes problemas, na tentativa de melhorarem as vidas das outras pessoas podem ascender à tal dimensão de eleitos poderosos para tomarem nas suas mãos o nosso destino em processo de luta conjunta.
Mais um motivo para votarmos identificando-nos com este poder de proximidade e não com falácias providenciais dos que, na origem grega da palavra autarca, querem governar por si só.
Podemos apelar ao voto como um dever e uma obrigação, mas mais do que isto é uma arma que quando usada nos igualiza em poder de decisão. Usem-no sempre.

Por: Dionisio Faria e Maia

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