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EDA irá investir 450 milhões de euros nos próximos quatro anos em energias renováveis

Ontem, no Hotel Azoris Royal Garden Ponta Delgada, tiveram lugar as ‘II Jornadas Regionais da Sustentabilidade.
Na sessão de abertura, Rodrigo Costa, Administrador Executivo do Grupo EDA, destacou a distinção atribuída ao encontro, pela Direcção Regional do Ambiente e Alterações Climáticas. O evento, organizado em parceria entre a EDA e a Finançor, foi um dos primeiros a receber o Selo “Evento Circular – Ouro”, criado pelo Governo dos Açores para distinguir boas práticas e incentivar a transição para a economia circular.
“Conseguimos ser um dos primeiros eventos com o Selo de Ouro, o que nos orgulha imenso. E isto demonstra o nosso compromisso com as práticas sustentáveis e com a responsabilidade que nós todos temos”, afirmou.
Sublinhou que, para a EDA, a sustentabilidade “deixou de ser uma opção e é hoje uma estratégia ética e económica, que nos traz vantagens e nos coloca na frente. Assumimos esse compromisso com responsabilidade, no papel central que temos na transição energética da Região Autónoma dos Açores.”
“Temos três eixos na nossa estratégia de sustentabilidade: energia pelo ambiente, energia pelas pessoas e energia com propósito. Aliado a isto, contamos com três pilares fundamentais que garantem a implementação desta estratégia: descarbonização, digitalização e inovação, e envolvimento comunitário”, explica.
No plano da descarbonização, adiantou que entre 2025 e 2029 a empresa prevê investir 196 milhões de euros em renováveis e sistemas de armazenamento, elevando a penetração das energias limpas de 33% para 53%. “Temos a intenção de reduzir até 2050 cerca de 96% das nossas emissões. Porquê que não é 100%? Porque temos a intenção de compensar as emissões irredutíveis”, explicou.
Na digitalização, destacou o uso de drones para monitorização da rede e o projecto de instalação de 140 mil contadores inteligentes até 2028, com impacto na eficiência operacional e na relação com os consumidores. Já no envolvimento comunitário, referiu acções de literacia ambiental em escolas, preservação da biodiversidade e incentivo à mobilidade eléctrica, sublinhando também a valorização dos colaboradores.
Pedro Amaral Frazão, vice-presidente do GRACE, começou por destacar a posição vulnerável das Pequenas e Médias Empresas no mercado: “As PMEs têm uma relação desigual com as grandes empresas porque, como são pequenas, obviamente não têm o músculo nem a capacidade das grandes empresas e, portanto, têm muito mais preocupações de assegurar a sua vida diária, a sua tesouraria e, no fundo, garantir prazos de pagamento que lhes permitam ter liquidez para pagar as contas: as contas aos seus fornecedores e, claro, as obrigações que têm perante o Estado.”
Essa desigualdade estende-se também ao próprio Estado. “Se alguma empresa se atreve a não pagar a tempo a TSU ou a não devolver o IVA, tem logo o Estado em cima, com coimas e penalizações. Ora, o Estado, se não pagar a tempo, não lhe acontece nada. Esta relação é de facto desigual.”
Ainda assim, o gestor defende que a balança pode ser menos pesada no relacionamento com grandes empresas, porque estas “sabem que não há bons fornecedores sem bons clientes, e vice-versa”. Daí a importância de “relações francas e abertas, em que todos compreendam as limitações de uns e de outros”, algo que pode ser ajudado por “calibrar prazos de pagamento” para garantir que a PME consegue sobreviver dentro desse quadro.
No campo da sustentabilidade, o gestor sublinhou a pressão crescente a que estas empresas estão sujeitas: “As PMEs têm cada vez mais a obrigação de dar informação (…) Primeiro têm que perceber a linguagem por detrás desses pedidos. Segundo, têm que manter uma coerência na fita temporal das respostas. Já não chega dizer que estamos a pensar fazer isto ou aquilo, é preciso dizer ‘já estamos a fazer, estas são as métricas, estes os impactos, estes os resultados’.”
O problema, reconhece, é que este processo representa uma “violência para as pequenas empresas, porque obviamente exige um esforço de acompanhamento para o qual são precisos recursos, em pessoas e em investimento, que custa dinheiro. Se não for feito com atenção, as PME afundam-se neste tipo de coisas, deixam de estar concentradas no seu negócio. Vão ter que fazer essa trajectória, mas cada um tem que dar um passo à medida da sua perna.” Como exemplo, apontou o sector dos transportes: “Não passa pela cabeça que uma empresa de transportes de pessoas resolva ter camionetas eléctricas de um dia para o outro. São investimentos penosos e depois nem sequer há sítios para abastecer. É preciso fazer isto de forma deliberada no tempo, para garantir a segurança das empresas. O caminho faz-se passo a passo, com a cabeça tranquila e dentro do que é possível.”
Questionado sobre como transformar os Objectivos de Desenvolvimento Sustentável em vantagens competitivas, destacou a clareza da Agenda 2030: “Os ODS têm cor, têm lógica, estão numerados e são fáceis de explicar. Permitem que empresas e comunidades em todo o mundo falem a mesma linguagem. O ODS aqui ou na China é exactamente igual.”
Segundo o gestor, o mérito dos ODS é permitir que “qualquer empresa, pequena, média ou grande, consiga identificar em que ‘gaveta’ pode investir e qual deve privilegiar”. Explicou ainda que “do ponto de vista ambiental está mais regulado, há metas de descarbonização, há taxas, há impostos. Do ponto de vista social, o céu é o limite. As empresas podem intervir internamente, junto dos colaboradores, ou externamente, na comunidade, à medida do que quiserem, desde que dentro da legalidade. E é muito fácil depois encaixar isso nos ODS correspondentes.”
Na área da ‘governance’, destacou o papel central das parcerias: “Para mim são 16 mais 1, porque o 17º é talvez o mais importante. Procuramos cada vez mais projectos que tenham impacto social, mas sobretudo que tenham parceiros. Não é passar cheques, é cada empresa dar um pouco de si dentro da sua cadeia de valor. É fácil somar A mais B mais C, e no final a equação resulta em projectos colaborativos. Isso é mais lógico, mais fácil de concretizar, dá resultados e até gera um efeito multiplicador para outras acções.”
Pedro Silva, da Get2C, começou por sublinhar a urgência do tema: “Apesar de haver políticos e grandes líderes mundiais que estão cada vez mais a desacreditar a ciência, a realidade é que há coisas que são inegáveis. E o aumento da temperatura média global da Terra é um deles. (…) Já ultrapassámos, em 2024, aquilo que era o Acordo de Paris. Estamos cerca de 1,5 graus Celsius acima da era pré-industrial.”
Segundo explicou, este aumento resulta sobretudo das emissões de gases com efeito de estufa, cujas consequências já são visíveis, como é o caso da redução drástica do gelo, incêndios, secas e fenómenos extremos:“As ilhas, as nossas, os Açores e a Madeira, não se estão a safar disto; são altamente vulneráveis. Sofrem com o aumento do nível do mar, a acidificação dos oceanos e tempestades intensas como a da semana passada que abalou os Açores.”
O orador chamou ainda a atenção para a desigualdade no contributo para as emissões:“Seis países ou grandes regiões representam 53% das emissões do planeta em 2023. Os Estados Unidos com 11%, a China com cerca de 27% a 30% e a Europa com 7%. E 70% das emissões mundiais são de apenas 100 empresas. Isto é um número brutal. E isto não é hoje, é desde 1988”, afirmou.
Nesse quadro, sublinhou que o papel das empresas“é descarbonizar. A pressão social é cada vez maior, as empresas são cada vez mais escrutinadas. As questões ambientais, sociais e governance são cada vez mais importantes. Quer financiadores, quer parceiros e clientes olham cada vez mais para estes aspectos, e não só ao nível regulatório: há imposições legais que estão a mudar o paradigma do que as empresas têm de responder.”
Pedro Silva salientouainda a importância da nova legislação europeia em matéria de reporte, que obriga as empresas a maior transparência ambiental e social:“O primeiro passo para traçar um plano de descarbonização é medir. É saber onde é que nós estamos, quais são os pontos da nossa empresa que mais emissões têm. Como nós gostamos de dizer, é preciso plantar a primeira árvore, e neste caso a primeira árvore é medir a pegada de carbono”, disse.
“Durante um período de tempo, medimos quais foram as emissões de gases de efeito de estufa, CO2, metano, óxido nitroso e outros, na nossa actividade. Gosto de chamar a isto uma fotografia. Um inventário de gases de efeito de estufa é exactamente a mesma coisa: uma fotografia anual do nosso impacto”, completou.
De seguida, explicou os três âmbitos de emissões. O primeiro corresponde às emissões controladas directamente pelas empresas, como o combustível que utilizam, os veículos próprios ou os edifícios. O segundo diz respeito à produção de electricidade e energia consumida, responsabilidade de entidades como a EDP ou a EDA. Já o terceiro refere-se à cadeia de valor, englobando desde a aquisição de matérias-primas até ao transporte da mercadoria para o cliente final.
Reconheceu que o processo é complexo, mas já existem soluções tecnológicas: “Muitas vezes dizem ‘não tenho dados’. Ok, é preciso criar processos para esta recolha ser automática. (…) Já existem ferramentas que permitem chegar até aos fornecedores para obter informação mais directa. Também já existe software que ajuda a responder a auditorias, a fazer projecções e prever para onde vamos.”
“Temos três soluções: uma para grandes empresas, uma para pequenas e médias empresas e outra para pessoas. Para as grandes empresas, o ‘Get2Zero Pro’ permite calcular as emissões de dióxido de carbono, desde o âmbito 1 ao âmbito 3, de forma simplificada e automática”, explicou.
Para exemplificar, Pedro Silva apresentou ferramentas criadas pela Get2C e fez uma demonstração prática de como medir a pegada de carbono com o próprio público.
João Maciel, da EDP NEW, afirmou que a empresa é “ um actor na produção, distribuição e consolidação da energia, com grande foco nas renováveis. No ano de 2024, 95 % da energia que produzimos foi renovável e, até há data, estamos com 90%.
Segundo o gestor, “a transição energética é uma coisa grande. Vamos ter de fazer em menos de 30 anos algo que levou 200 anos a consolidar, a matriz de uma energia mais centralizada e a distribuição. Este paradigma está a mudar e vamos ter de o fazer. Se formos fazer uma analogia, vamos ter de mudar os pneus do carro com o mesmo em andamento e com pessoas a entrar”.
Para João Maciel “muita da transição energética que vai ser feita tem a ver com tecnologia. Energias como a eólica, produção foto voltaica são energias de grande impacto. A tecnologia é importante mas não é só isso. Em 2024 foram investidos 2,1 triliões de dólares em transição energética no mundo e tem quase que triplicar, todos os anos, até 2050”.
Fazer a transição energética é algo intensivo do ponto de vista do trabalho. O gestor da EDP referiu que “é preciso ter gente suficientemente formada para fazer a transição. A robótica e a inteligência artificial são ferramentas que nos vão permitir alavancar o trabalho das pessoas. Todas as tecnologias que são relevantes para a transição energética, 70% estão na China. Temos que desenvolver parcerias com a China, mas também temos que desenvolver alternativas, em termos de materiais”
“Na inovação queremos resolver problemas que existem e na investigação queremos garantir que não deixamos nada descoberto”, finalizou o gestor.

As especificidades das ilhas no contexto da energia
Bruno Vieira, gestor da EDA, na sua intervenção, começou por dizer que “tendo em conta que somos um sistema insular, temos algumas particularidades que tornam muito específica as actuações que temos de ter nas nossas ilhas. Temos actuações em três vertentes da energia: actuação, distribuição e produção. Somos o único comercializador em cada uma das 9 ilhas. Somos uma empresa regulada, ou seja, temos uma entidade reguladora que, de alguma forma, influencia a nossa estratégia. Isto porque tudo o que fazemos tem de ser suportado financeiramente para que haja viabilidade nos negócios a longo prazo”.
“Temos hoje 9 micro sistemas que têm sobrevivido per si nas ilhas e não temos capacidade de interconexão entre ilhas, ou seja, não temos capacidade nem de importar nem de exportar energia quer entre ilhas quer para o continente”, acrescentou o gestor.
Bruno Vieira, falando das estratégias de descarbonização da EDA, esclareceu que a empresa tem “um conjunto 27 linhas de actuação e a estratégia de descarbonização foi uma das estratégias da empresa para ir contra algumas dessas linhas de actuação, e de forma bastante significativa ajudar no processo da Região atingir as suas metas. Possuímos um conjunto de instalações que já aproveitam o recurso solar, o recurso vento e o recurso hídrico e também, especifico da nossa Região, o recurso geotérmico. Isto resulta na obtenção de valores promissores nesta nossa caminhada. Já conseguimos ter, em algumas ilhas, produção de um dia de energia 100% renovável. E outras que caminham para lá, apenas São Miguel e Terceira, as ilhas maiores, apresentam valores na ordem dos 70%”.
A EDA, neste momento, e a nível regional, representa 37% da emissão dos gases de efeito de estufa. Segundo Bruno Vieira “durante a nossa caminhada pode-se perceber que temos tido uma descarbonizaçao contínua. A nossa produção de energia ainda é suportada pelos combustíveis fosseis, cerca de 55%, e tudo o resto são energias de diversos recursos.
“A EDA tem apostado bastante na área de inovação e por vias da nossa especificidade temos de ser mais atrevidos no que diz respeito ao risco financeiro o que faz com que esta área seja muito importante para podermos encontrar soluções para as nossas especificidades. E é isso que temos feito através de vários projectos e iniciativas”, referiu o gestor ao abordar a capacidade de investimento da empresa.
“Queremos adoptar estratégias que evitem as actividades que produzam emissões, e é aqui que entram as energias renováveis e o que achamos que pode ser o futuro não utilizando combustíveis fósseis mas sim combustíveis alternativos. Temos de arranjar formas tecnológicas para atingir certos objectivos de maneiras diferentes. Em 2050 esperamos, com a nossa estratégia, atingir a neutralidade entre o balanço que daquilo que são as emissões e a capacidade de retenção seja zero”, informou o gestor.
Bruno Vieira sublinhou o impacto que a EDA tem como empresa nos Açores. “Como empresa de produção de energia na Região, achamos que temos de ter este papel no sentido de sermos alavancadores de iniciativas por parte da sociedade, quer das indústrias quer do sector doméstico, para que em conjunto consigamos encontrar as soluções certas. Por vezes a solução não está na tecnologia nem no investimento mas sim na estratégia de gestão de energia que se encontra entre todos os players que interagem com o sistema eléctrico”.
“Algumas das medidas que estamos a apostar ainda estão em piloto, como por exemplo a energia oceânica, com as ondas ou as marés. Ambicionamos um ecossistema que integre todos os players que interagem com o sistema eléctrico. Nos próximos quatro anos a EDA terá o seu maior investimento, na ordem dos 450 milhões de euros, o que representa o compromisso que existe em a empresa atingir as metas que estão estabelecidas para a descarbonização dos Açores”, concluiu o gestor.

Daniela Canha/Frederico Figueiredo

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