A Sociedade Portuguesa para o Estudo das Aves (SPEA) promove este fim-de-semana a 12.ª edição da BirdRace Açores, um evento que alia competição, convívio e conservação da natureza. Sob o lema “Observar Aves, Proteger a Natureza”, a iniciativa pretende não só reforçar o entusiasmo pela observação de aves, mas também incentivar boas práticas ambientais nas várias ilhas da Região. Em declarações ao ‘Correio dos Açores’, Ana Mendonça, Técnica de Educação Ambiental da SPEA e coordenadora do projecto, sublinha que os Açores atraem cada vez mais observadores de aves estrangeiros, graças às espécies endémicas, como também devido ao aparecimento de espécies ocasionais: “Quem quiser acrescentá-las à sua lista mundial tem obrigatoriamente de vir cá”.
Correio dos Açores – Do que se trata a BirdRace Açores?
Ana Mendonça (Técnica de Educação Ambiental na SPEA e coordenadora da BirdRace Açores) – A BirdRace Açores é, essencialmente, uma competição por equipas. No entanto, mais do que a vertente competitiva, o grande objetivo é promover a actividade de observação de aves no arquipélago.
Os Açores são uma região extremamente privilegiada para a prática do “birdwatching”, pois oferece uma notável diversidade de aves, muitas delas de grande interesse, mas a comunidade local de observadores de aves ainda é relativamente pequena. Por isso, através da BirdRace procuramos juntar o espírito de competição ao incentivo à descoberta e à valorização das aves que existem cá.
Este ano celebramos a 12.ª edição do evento. Ao longo das edições anteriores, já contámos com cerca de 250 participantes no total, tendo sido registadas perto de 700 espécies diferentes. Para esta edição, até ao momento, contamos com a inscrição de 14 equipas, num total aproximado de 25 participantes.
O desafio é simples: durante o fim de semana de 4 e 5 de Outubro, que coincide também com o EuroBirdwatch, o maior evento europeu de observação de aves, cada equipa percorre a ilha onde se encontra e regista todas as espécies que conseguir identificar. No final, vence a equipa que observar o maior número de espécies diferentes.
A BirdRace ocorre em quais ilhas da Região?
Qualquer equipa pode participar em qualquer ilha, portanto as candidaturas estão abertas a todas as ilhas dos Açores. Este ano, já temos participantes em quase todas as ilhas; apenas faltam duas para completarmos a presença em todo o arquipélago. Temos equipas em São Miguel, Santa Maria, Graciosa e nas outras ilhas do Grupo Central, restando apenas São Jorge e Corvo. Isto é óptimo, pois demonstra que a mensagem da BirdRace está a chegar cada vez mais longe e que há mais pessoas interessadas na observação de aves.
É importante sublinhar que a BirdRace não é apenas para observadores experientes. Ao longo dos anos, temos contado com uma grande diversidade de participantes: desde especialistas até iniciantes que começam a observar aves perto de casa, nos seus jardins. A organização do concurso está sempre disponível para apoiar os participantes com dúvidas, permitindo que mesmo os menos experientes se sintam à vontade. Muitas vezes a participação acontece em família ou com grupos de amigos. É comum que participantes antigos tragam sempre novas pessoas nas suas equipas.
A BirdRace alia-se à missão da SPEA nos Açores e à conservação das aves no país. Este ano, o lema é: “Observar aves, conservar a natureza”, reflectindo a ligação entre a actividade e a protecção ambiental.
Entre as ameaças enfrentadas pelas aves nos Açores, destacam-se problemas específicos como a poluição luminosa, que afecta sobretudo aves marinhas. Este ano, as equipas vão receber kits de resgate de cagarros, com lanternas, luvas e instruções sobre como realizar resgates de forma adequada. Esta iniciativa coincide com o início das campanhas de resgate de cagarros, que começam dentro de duas semanas. Outro desafio global abordado na BirdRace é o lixo marinho. As equipas, enquanto percorrem o arquipélago para observar aves, são incentivadas a recolher lixo de forma consciente. As equipas que participarem nesta acção poderão receber kits de limpeza de praia desenvolvidos pela SPEA.
A BirdRace tem múltiplos objectivos: promover a conservação da natureza, fortalecer o interesse pela observação de aves e incentivar a prática de actividades ao ar livre. Queremos também envolver as comunidades e os jovens, que cada vez mais participam na competição, ajudando a reconectar as pessoas com a natureza e com o ambiente em que vivem.
A observação de aves é uma actividade em crescimento nos Açores e tem atraído cada vez mais participantes estrangeiros. O que motiva esta dinamização?
Cada vez se fala mais em turismo de natureza, e a observação de aves insere-se nesse segmento. De facto, os Açores são um destino muito procurado por observadores de aves porque aqui podem encontrar espécies únicas. O nosso isolamento geográfico, no meio do Atlântico, e a diversidade de habitats em cada ilha favorecem o aparecimento de espécies exclusivas do arquipélago. É o caso do Priolo e do Tentilhão, que ascendeu recentemente a espécie. São aves endémicas dos Açores e, por isso, quem quiser acrescentá-las à sua lista mundial tem obrigatoriamente de vir cá.
Outro exemplo é o Painho-de-Monteiro, uma espécie marinha também endémica, com uma distribuição ainda mais restrita do que as anteriores.
Além das espécies residentes, a localização estratégica do arquipélago transforma os Açores num ponto de paragem durante as rotas migratórias: todos os anos recebemos aves que aqui encontram descanso e alimento antes de prosseguir viagem. Há ainda um factor que torna o arquipélago particularmente apelativo: a chegada de espécies chamadas “ocasionais”. São aves raras e difíceis de observar no continente europeu, muitas vezes vindas do continente americano, que despertam grande entusiasmo entre os observadores.
Podemos dizer que os Açores, em particular a Ilha do Corvo, despertam grande interesse entre os observadores europeus, pois permitem avistar espécies que não se encontram em nenhuma outra parte da Europa em certas épocas do ano. Os Açores oferecem um conjunto único de condições naturais, habitats diversificados e, sobretudo, o factor surpresa: nunca se sabe exactamente quais espécies ocasionais poderão aparecer em cada temporada.
José Henrique Andrade
