Criada por Avelina da Silveira, Paula de Sousa Lima e Vera Pires, Ogygia é uma nova revista literária digital nascida nos Açores, de acesso gratuito e com assinatura feminina. O projecto pretende democratizar a cultura sem perder exigência estética, dando voz a escritoras de diferentes gerações e geografias da lusofonia. Nesta entrevista, Paula de Sousa Lima fala sobre o gesto fundador, a linha editorial e o desafio de afirmar, a partir das ilhas, um espaço literário aberto ao mundo.
Correio dos Açores – Como nasceu Ogygia? Houve um momento específico em que sentiu que era necessário criar uma revista literária feminina e açoriana?
Paula de Sousa Lima (escritora e co-fundadora da revista Ogygia) – A revista surgiu a partir das conversas animadas de um grupo de mulheres amigas e escritoras. Depois de passar por vários processos de “selecção natural”, ficou adstrita à Avelina da Silveira, que a dirige (e muito bem), à Vera Pires e a mim. Somos mulheres assumidamente feministas e queremos dar mais voz às mulheres, partindo dos Açores para o mundo.
O nome da revista remete à ilha mítica de Calipso, mas o editorial redefine Ogygia como espaço de liberdade. Como interpreta essa inversão simbólica?
O título da revista surgiu-me por me ser particularmente grata a literatura e cultura clássicas. A princesa de Ogygia, Calipso, aprisiona Ulisses, é certo, mas é uma figura apaixonada e tutelar. Nós somos, outrossim, apaixonadas – pela escrita… Por outro lado, foi-nos grato explorar justamente a inversão simbólica, pois dessas “novidades” vive a literatura.
A revista nasce digital e gratuita. Mais do que uma questão de acesso, é também uma forma de afirmar um posicionamento político sobre o lugar da literatura na sociedade?
Sim, pode dizer-se que, sem querermos, de forma alguma, banalizar a literatura, é nossa vontade levá-la ao maior número de leitoras e leitores possível.
O que significa, para si, “democratizar a cultura” num tempo em que o excesso de conteúdos convive com o défice de leitura?
Tenho, tal como as minhas companheiras de trabalho, uma enorme vontade de contrariar a tendência do facilitismo e do consumismo “barato”. Democratizar não é abastardar, é, no caso da literatura, levá-la o mais longe possível e fazer dela um “produto” apetecível.
Como definem a linha editorial de Ogygia? Há uma estética ou um conjunto de valores literários que orientam as escolhas?
Temos uma posição de abertura à diversidade de expressões escritas, literárias ou “parentes”, desde o conto à crónica, passando pelo ensaio, pela entrevista, etc., cuja única marca obrigatória é a qualidade – ou o valor estético. Temos, também, um tema para cada número. Neste primeiro, o tema foi “a ilha”, no próximo será “as vozes de Lilith”…
Como se sustenta um projecto literário como Ogygia? Há apoios institucionais ou é um trabalho totalmente independente?
Começou por ser um trabalho independente, mas estamos a concorrer a apoios institucionais, A arte não é – ou não deve ser – sinónima de boa vontade e penúria…
A revista nasce de um gesto feminino, mas recusa qualquer clausura, afirmando-se como espaço de acolhimento e pluralidade. Que ideia de ‘feminino’ orienta este projecto?
A nossa ideia de feminino não é nem mais nem menos do que a afirmação da nossa liberdade e da nossa inteireza de mulheres – que devem ser sempre respeitadas pelas suas qualidades, no caso, literárias.
A insularidade é simultaneamente matéria e metáfora na revista. O que acrescenta o olhar insular à literatura escrita por mulheres?
O olhar insular está em estreita comunhão, creio, com uma escrita feminina, pois há um lirismo, em acepção lata, feminino que também é o da insularidade. E há a ternura pela ilha e, simultaneamente, a necessidade de expansão.
A Ogygia nasce nos Açores, mas dirige-se a toda a lusofonia. Que espaço têm as escritoras dos países lusófonos e da diáspora neste projecto?
Temos muito espaço, todo o que as escritoras da lusofonia quiserem. Já neste primeiro número contamos com mulheres do continente português e da diáspora.
Hoje fala-se pouco de crítica literária. Acha que ainda é possível fazê-la com relevância, ou foi absorvida pelo marketing editorial?
Estou firmemente convicta de que a crítica literária é possível e necessária. Neste primeiro número de Ogygia, eu mesma faço a recensão de Passagem Noturna, de Leonor Sampaio, que foi finalista do Prémio LeYa.
A revista integra também uma entrevista em vídeo com Iva Matos sobre o papel das bibliotecas. Acha que o público leitor ainda se constrói nesses espaços físicos, ou a mediação está a deslocar-se para o digital?
Eventualmente, o público leitor desloca-se para o digital, daí a nossa revista também o ser. As bibliotecas, contudo, não deixam de ter um papel importante, até porque encerram um relevante manancial de cultura, “centralizada” num espaço único e reconhecível pelo público.
A edição é digital, mas mantém uma forte dimensão sensorial: fala-se de lava, mar, voz, corpo. É uma forma de contrariar a impessoalidade do ecrã?
Sim, pode ser. A literatura, em meu entender, ultrapassará sempre qualquer impessoalidade.
O que mais a surpreendeu na recepção do primeiro número?
Fiquei muito feliz com o aspecto geral da revista, com se ter conseguido aliar o conteúdo aos aspectos gráficos. Penso que os primeiros leitores foram sensíveis a isso.
O que espera que Ogygia venha a representar para as novas gerações de escritoras e leitoras?
Somos poucas a trabalhar directamente na revista, mas os nossos sonhos são inversamente proporcionais ao nosso número. Queremos ser uma referência no espaço da lusofonia e temos o desejo de acolher muitas escritoras – de todas as idades, sobretudo das novas gerações, por serem vozes a descobrir. Também esperamos chegar a muitas leitoras – e leitores – sobretudo os mais jovens, que, eventualmente, por ser a revista em suporte digital, a considerem mais aliciante.
Daniela Canha