A empresária Teresa Neves, das áreas de comércio, hotelaria, habitação e imobiliário na cidade de Ponta Delgada mostra-se preocupada com o fecho de lojas tradicionais e com a desertificação da maior cidade açoriana em termos comerciais, e consequentemente de população residente. “O que notamos é que a nossa cidade está a atravessar um momento de nítidos desequilíbrios, virada quase apenas para o turismo e suas valências”. A entrevistada defende policiamento de proximidade e um novo olhar sobre o centro histórico para que não perca mais a sua identidade. Defende que “o ideal, é conseguir-se manter uma convivência equilibrada e sustentável entre todos os sectores para que nos possamos orgulhar de ter um centro histórico rico, vivo, autêntico, apelativo e harmonioso, capaz de conseguir atrair a aberturas de novas lojas e de novos investidores.
Correio dos Açores: Esta semana, mais três estabelecimentos do centro histórico da cidade de Ponta Delgada, fecharam ou anunciaram o seu encerramento. A Frutaria da Cidade, que existia há 25 anos, o Armazém Toronto, com mais de meio século de existência e a Casa Batista que vai encerrar uma das duas lojas que tem na cidade. Um cenário preocupante?
Teresa Neves (empresária): Sem dúvida, é um cenário que preocupa todos aqueles valorizam os centros históricos das suas cidades e que têm consciência da importância destes como alicerce da identidade e memória colectiva de uma região. E a nós, que sempre investimos e acreditámos no valor e potencial do nosso centro urbano, preocupa-nos bastante. Quando vemos espaços, com décadas de história, encerrar portas, entristece-nos, pois, é um pedaço de identidade da cidade que desaparece.
Obviamente, que também tem que haver a consciência e a percepção de que as lojas para conseguirem manter a sua actividade, mediante toda a concorrência existente nos dias de hoje, terão que se modernizar para se adaptarem à evolução dos tempos. Porém, também se entende a desmotivação destes empresários em investir e inovar pois sentem a falta de incentivos e medidas de apoio dentro de um cenário citadino pouco apelativo e atractivo.
Porém, considero que estas situações devem servir de reflexão e de ponto de viragem. O nosso centro histórico, precisa de uma estratégia clara, integrada, equilibrada e realista que una e valorize, equitativamente, o comércio, turismo e habitação.
Neste momento, o que notamos é que a nossa cidade está a atravessar um momento de nítidos desequilíbrios, virada quase apenas para o turismo e suas valências.
Falta, talvez, uma maior articulação, entendimento e auscultação entre as entidades competentes, quem investe e vive diariamente no centro histórico, sentir as suas necessidades, dificuldades e preocupações. Numa cidade pequena e tão sensível como a nossa, as medidas que se tomam, devem ser pensadas de forma equilibrada, com estratégia e visão global. Devem criar, antecipadamente, alternativas eficazes para que não se corra o risco, depois, de poderem destabilizar sectores económicos fulcrais, nomeadamente o comércio local, como tem vindo a acontecer.
A responsabilidade social dos políticos vai muito para além dos seus mandatos, seja no poder executivo ou autárquico. A cidade de Ponta Delgada, tem velhos problemas que nunca foram resolvidos, como o estacionamento e outros e novos, como a mendicidade, o barulho nocturno e o consumo de droga a céu aberto.
É verdade, Ponta Delgada tem problemas antigos como a falta de estacionamento, a carência de planeamento coerente, a falta de organização nas operações de carga e descarga, resultando em congestionamentos e transtornos no trânsito, a falta de animação capaz de atrair os nossos residentes e locais – e não só aquela pensada para o turismo e para o período em que ele mais se faz sentir – a falta de iluminação… E também novos, que têm vindo a surgir e que necessitam de intervenção imediata e urgente pois afectam não só a imagem da nossa cidade, como também o bem-estar de quem vive e investe nela, como o triste aumento da mendicidade, a problemática do crescente consumo das drogas sintéticas e o ruído nocturno causado por bares abertos, até às duas da manhã, em ruas estreitas, dentro do centro histórico onde estão localizadas unidades hoteleiras e habitacionais. Bares, com música ao vivo, que não respeitam os limites de ruído nem as regras de insonorização e que dão muitas vezes azo a vários distúrbios e mais ruídos na via pública durante a madrugada. Porém, estão licenciados e, por isso, a polícia não pode agir e, dificilmente atende quando é chamada.
Da nossa parte e, tendo já investido nos três principais sectores económicos da cidade: Comércio, Turismo e Habitação, temos vindo a ser afectados por todos essas problemáticas, nomeadamente, a desordem provocada pelas cargas e descargas na Rua Hintze Ribeiro. Rua esta, que nem está autorizada para esse fim, a entrada é proibida para todos os veículos, excepto aqueles que precisam acessar às unidades hoteleiras localizadas nessa via, conforme a placa de sinalização de proibição de trânsito colocada no início desta rua. Porém, a realidade é bem diferente e todos os dias assistimos à constante entrada de grandes veículos de mercadorias, a toda a hora do dia, que bloqueiam a rua e depois impedem a entrada e saída dos veículos autorizados de acesso aos hotéis causando um grande caos logístico e entupimento na circulação de viaturas, não só na Rua Hintze Ribeiro, como também na Rua Machado dos Santos.
Outra problemática que nos tem vindo a afectar bastante é o ruído nocturno nessa rua, causado pelos bares ali existentes, com as características que já mencionei e que têm originado muitas reclamações dos nossos hóspedes que não conseguem descansar. E, aqueles hóspedes que têm que ir muito cedo para o aeroporto, não conseguem dormir de todo, deixando depois comentários e críticas negativas a esse respeito nas plataformas digitais de reservas que, obviamente, nos prejudicam em futuras reservas e comprometem a imagem do nosso Hotel.
Preocupa-lhe este cenário de abertura de restaurantes chineses, indianos, sul coreanos, de sushi, que estão a proliferar na cidade, descaracterizando-a? O centro da cidade estará num futuro próximo resignado a restauração e similares?
Não me preocupa propriamente a diversidade gastronómica que pode ser sinónima de uma cidade aberta ao mundo e culturalmente dinâmica, mas, desde que haja equilíbrio. O que me preocupa realmente, é se esse crescimento se tornar desordenado e começar a contribuir para a perda da identidade local, desequilíbrio e sobreposição aos outros sectores. A restauração é, sem dúvida, muito importante para o desenvolvimento turístico da nossa cidade e região, mas, não pode ser o único motor económico do centro histórico. É essencial preservar, proteger e criar medidas urgentes de incentivo e revitalização do nosso comércio tradicional, da habitação e da cultura para evitarmos que a cidade se transforme num cenário turístico sem alma e identidade. O ideal, é conseguir-se manter uma convivência equilibrada e sustentável entre todos os sectores para que nos possamos orgulhar de ter um centro histórico rico, vivo, autêntico, apelativo e harmonioso, capaz de conseguir atrair a aberturas de novas lojas e de novos investidores.
A abertura do “Retail- Park” vai ser a machadada final? Considera um erro o seu licenciamento, ou, era uma situação incontornável?
Na altura em que esta notícia se tornou pública, dei a minha opinião critica e desfavorável neste vosso jornal, relativamente à abertura do “Retail – Park” e mantenho a minha opinião. Como é fácil de entender, numa região pequena e tão sensível como a nossa, a abertura destas grandes superfícies comerciais, que atraem consumidores pelas suas características apelativas e pelo estacionamento fácil para a periferia da cidade vai, inevitavelmente, desertificar ainda mais o nosso centro histórico. Sabemos, obviamente, que este licenciamento foi, talvez inevitável, tendo em conta a pressão económica e os interesses comerciais, mas, deveria ter sido acompanhado por uma estratégia clara de revitalização do centro urbano, de apoio e criação de incentivos ao comércio local para que houvesse um desenvolvimento equilibrado da cidade, tendo em conta a protecção e preservação do seu centro histórico. Infelizmente, isso não se verificou, nem se tem vindo a verificar, mas, esperamos e queremos acreditar que ainda se consigam tomar medidas eficazes que consigam minimizar o impacto que a abertura dessa grande superfície comercial irá trazer a quem aposta e investe no centro histórico.
A vossa empresa, que está ligada ao comércio, ao turismo, à habitação e ao imobiliário, tem apostado no centro histórico da cidade de Ponta Delgada. É uma estratégia assumida, que se tornou arriscada, dada a situação difícil em que se encontra este mesmo centro histórico?
Sim, é uma estratégia assumida e sabemos que implica riscos, como todos os investimentos. É uma realidade que o nosso centro histórico enfrenta dificuldades e vive um período de alguma estagnação. Mas, continua a ser um importantíssimo núcleo simbólico, social e cultural e sempre será, pois os centros históricos são de extrema importância para a preservação da história, identidade e cultura de uma região.
A manutenção da nossa aposta, é uma forma de contribuirmos e apoiarmos essa regeneração urbana que tanto necessitamos, baseia-se na convicção e esperança que temos na recuperação e melhoria do nosso centro histórico e na confiança que depositamos no futuro executivo camarário para concretizar e se concentrar nessa revitalização.
Aproveito esta pergunta para esclarecer que o actual encerramento de dois dos nossos espaços comerciais, nada tem a ver com a razão que tem levado outras lojas a fecharem. Temos vindo a assistir, especialmente nas redes sociais, a publicações que criticam o estado atual do nosso centro histórico com fotos tiradas a vários espaços comerciais encerrados. Nessas publicações, surgem também fotos desses nossos dois espaços, ligados a outros espaços comerciais encerrados, como se a razão fosse toda a mesma, o que não é verdadeiro.
Estes nossos dois espaços comerciais, encontram-se, de momento, encerrados um, devido a uma estratégia empresarial e comercial da nossa empresa e o outro, teve que ser encerrado por falta de condições em manter a loja aberta, devido a grandes obras estruturais no edifício onde a mesma se localiza.
A opinião publica tem a imagem de que a Polícia Municipal está “travestida” de posto avançado do Departamento de licenciamento das obras municipais e não de contribuir para a segurança da cidade. Concorda?
Concordo com essa percepção. Sentimos, de facto, diariamente, a falta de uma presença policial que garanta verdadeiramente a segurança da cidade – uma polícia que possa agir de uma forma preventiva e dissuasora e, não apenas desempenhar funções de fiscalização administrativa.
É importante reconhecer que a Polícia Municipal tem um papel relevante na gestão do espaço urbano e na aplicação de regulamentos, mas, é fundamental sentirmos uma presença policial activa e próxima de quem aqui vive, investe, trabalha e nos visita. Uma polícia capaz de intervir rapidamente em situações de insegurança, roubos e vandalismo que afectam o dia a dia e a imagem da nossa cidade.
É de enaltecer a recente instalação de câmaras de videovigilância na cidade, uma medida que consideramos muito positiva e necessária para reforçar a segurança no centro histórico. Porém, esta iniciativa tem também que ser acompanhada por um reforço de presença policial no terreno, pois a tecnologia por si só, não substitui a tranquilidade e a segurança que a presença visível de agentes de autoridade transmite e a nossa cidade carece dessa presença.
Que mensagem gostaria de deixar neste período de eleições autárquicas a todos os candidatos a Câmara Municipal de Ponta Delgada?
Governar Ponta Delgada exige diálogo e cooperação com todos – empresários, residentes, instituições e associações. A cidade enfrenta desafios sérios, desde a necessidade de revitalização do seu centro histórico e comércio local até à gestão equilibrada e sustentável de um turismo de qualidade.
Aos candidatos à Câmara Municipal de Ponta Delgada, deixamos uma mensagem de responsabilidade e de compromisso com quem nela investe, vive e trabalha. É fundamental devolver, confiança, vitalidade e segurança ao nosso centro histórico – a segurança das pessoas e a segurança económica de quem mantém o comércio de portas abertas todos os dias.
O comércio tradicional, é parte essencial da identidade e da alma de Ponta Delgada e necessita de medidas urgentes de protecção, incentivo e valorização.
Esperamos e confiamos que o próximo executivo camarário olhe para o centro da nossa cidade não apenas como um espaço físico que terá de governar, mas, como o “coração vivo” da cidade de Ponta Delgada que não pode deixar de bater e que para isso, precisa de ser cuidado, acarinhado e protegido.
O futuro do nosso centro histórico, dependerá da capacidade de conciliar desenvolvimento, com preservação, crescimento, com equilíbrio e humanidade e modernidade, com essência e memória.
CA
