Os irmãos Henrique e Rodrigo Benevides não tencionam continuar a disputar o campeonato nacional de motocross por falta de apoios.
Henrique iniciou a participação no “nacional” em 2016 e o irmão Rodrigo quatro anos mais tarde.
As prestações de Henrique Benevides no campeonato português foram muito positivas. À medida que se adaptou ao ritmo dos pilotos continentais mais rodados, o octacampeão dos Açores melhorou gradualmente as classificações. Quatro vezes quarto classificado, perdeu o segundo lugar em 2024 devido a uma queda com fractura de uma clavícula na parte final da prova decisiva. Em 2023 só não se classificou em terceiro lugar porque a avaria na moto o impediu na última corrida.
“Estou cansado e a nossa vida profissional tem de passar para primeiro lugar, além de estar na hora de pouparmos para investimentos pessoais futuros”, começou por referir Henrique Benevides.
“Nas participações minha e do meu irmão Rodrigo durante o campeonato de 2025 anotamos todas as despesas, incluindo as motos, e concluímos terem sido investidos cerca de 50 mil euros”, acrescentou o piloto natural da freguesia da Candelária. “É muito dinheiro sendo os apoios muitíssimos curtos”.
Henrique Benevides recebeu 1 270€ da Direcção Regional do Desporto por ser campeão regional e 1 156,54€ da Câmara de Ponta Delgada, valor idêntico ao irmão Rodrigo. A Junta de Freguesia da Candelária comparticipou com 700€, um privado colaborou com 150€ e a Bentrans ofereceu o transporte das motos.
As despesas incluem as viagens de Ponta Delgada até Lisboa e regresso, as viagens terrestres para os locais das provas, sempre distantes, as estadas e a alimentação, os combustíveis e outros encargos.
“Estamos em desvantagem”
Benevides mais velho diz que “o facto de gostarmos muito do motocross, que já vem do meu pai e do meu tio, está causando dificuldades profissionais porque são sempre dois ou três dias fora do serviço que é da família”.
“Quando chegamos na véspera ao local das corridas, cansados de longas viagens aéreas e no Continente, temos de montar toda a estrutura, cuidar das motas, enquanto os nossos principais adversários, que têm a oportunidade de irem treinar nas pistas das provas, têm pessoas a tratarem de todos os pormenores. Aí começa a nossa desvantagem. Aliás, só o facto de nos deslocarmos da ilha de São Miguel, já é uma grande desvantagem para com os nossos concorrentes”, lamenta Henrique Benevides.
O melhor piloto açoriano, sendo apenas superado em termos de títulos das ilhas pelo faialense Marco Garcia, adiantou que “quase com 30 anos de idade, já casado, tenho de olhar para o meu futuro e deixar de investir nas motos”.
Uma das lacunas nunca superada, residiu no apoio que a Direcção Regional do Turismo deveria conceder ao campeão açoriano de motocross para representar a Região no campeonato nacional.
“Nunca percebi porque o campeão dos Açores de motocross nunca mereceu o mesmo critério de apoio pela promoção dos Açores no exterior como acontece com o campeão regional de ralis. Não digo no mesmo valor (o campeão de ralis recebe 65 mil euros) porque os gastos são diferentes, mas uma verba que atenue as despesas. Eu, tal como o Rodrigo, promovemos os Açores nos fatos e nas motos e andamos por regiões do Continente onde as modalidades contempladas não vão. Pode ser que quem me suceda nas participações nacionais tenha mais sorte”, desabafou Henrique Benevides sobre uma injustiça que nunca foi colmatada.
“Competição no campeonato regional não estava saudável”
Henrique Benevides e o irmão Rodrigo ausentaram-se do campeonato dos Açores de 2025. Uma surpresa. As razões explicadas pelo campeão:
“Foi uma opção nossa porque a competição no campeonato não estava a ser saudável”, começou por justificar, adiantando, posteriormente, os pormenores.
“Um senhor emigrante nos Estados Unidos da América, natural da Relva, resolveu mover-nos uma perseguição depois de uma situação ocorrida numa das últimas provas do campeonato do ano passado. Tem sido o responsável por trazer a algumas provas nos Açores dois pilotos norte americanos. A vinda do James Harrington e do Ashton Arruda é salutar porque os contactos e a integração nas provas influencia positivamente os nossos pilotos”, declara.
Então o que sucedeu: “Como estava a relatar, o senhor emigrante entendeu que o meu irmão Rodrigo vedou propositadamente a passagem do James, que estava comigo na luta pelo primeiro lugar. Não foi o que aconteceu. Uma situação própria de uma corrida. Quando a manga terminou, tendo eu ganho, foi incorrecto com o Rodrigo. A partir daí a intenção de fazer deslocar os dois pilotos norte americanos foi a de eu não ganhar. Eles vieram para a primeira prova do campeonato dos Açores, no Faial, e como soube que não iremos competir, já não se deslocaram para a prova na ilha Terceira, no final de Agosto”, conta Henrique Benevides porque abdicou de lutar pelo nono título açoriano de motocross. “Assim não há sequer perspectiva de um ambiente pouco salutar, de crispação”, concluiu.
“Volto em 2026 nos Açores”
A ausência nas provas locais é temporária. “Tenciono, como o meu irmão, voltar em 2026 apenas para as provas nos Açores. É muito mais fácil. Não perdemos dias na oficina, temos amigos que nos ajudam nos transportes das motos. Não há os mesmos sacrifícios como no campeonato de Portugal”.
A ausência, pelo segundo ano consecutivo, de provas na ilha de São Miguel, deixa Henrique Benevides triste: “Lamento não haver provas numa ilha que reune o maior número de pilotos, local onde o motocross começou nos Açores. Não entendo como não há pessoas para constituírem uma direcção do Rosinhas VC que possibilite o regresso da competição nem entendo como sendo uma modalidade com tantos aficionados, com competições em cinco ilhas, nunca tenha surgido uma Associação que transmitirá mais força e cujas reivindicações ganharão outra importância”.
O piloto campeão participou recentemente numa prova particular a fim de rodar e corresponder ao convite. É que continuam a realizarem-se provas de motocross e de outras disciplinas motorizadas mas sem serem oficiais, com os perigos inerentes com eventuais acidentes.
José Silva
