Edit Template

Organismos fixos no fundo do mar da Região estão entre os mais afectados pelas alterações climáticas

As alterações climáticas estão a transformar as dinâmicas dos oceanos e a redistribuir espécies marinhas em função da temperatura. Mas quais são as áreas mais vulneráveis e que precisam de maior atenção? Esta é a pergunta que serve de ponto de partida para um novo estudo desenvolvido no Parque Marinho dos Açores, com a colaboração da investigadora Ana Colaço, do Instituto Okeanos.
O artigo científico, intitulado “Mapping the Azores Marine Park Vulnerability to Temperature Changes”, teve em conta a sensibilidade das espécies, a exposição a variações de temperatura e a sua capacidade de adaptação, avaliando diferentes habitats: bentónico (fundo marinho), bentopelágico e pelágico.
Foram analisadas temperaturas históricas (1995-2020) e calculadas as variações de ano a ano e a variabilidade térmica em diferentes latitudes e profundidades.
Os dados mostram que “o ambiente bentónico de águas profundas dos Açores é o mais vulnerável quer ao aquecimento, quer às variações de temperatura”. Foram também identificadas regiões com “baixa variabilidade de temperatura (<0,3°C)” que poderiam ser consideradas refúgios para espécies altamente sensíveis, caso as condições ambientais e biológicas se mantenham adequadas.
O artigo destaca que os ambientes bentónicos profundos são tão ou mais afectados pelas alterações climáticas do que as águas superficiais. Os investigadores explicam que “encontrámos maior sensibilidade das espécies, maior exposição e vulnerabilidades gerais dentro do domínio batial”.
As espécies pelágicas e bentopelágicas, mais móveis, apresentam “amplitudes térmicas mais alargadas”, conseguindo resistir melhor a oscilações extremas. A ausência de áreas “Altamente Vulneráveis” em águas de menor profundidade é atribuída ao facto das espécies pelágicas serem “altamente móveis e capazes de se realocar quando as condições se tornam desfavoráveis”. Contudo, “a maioria das Áreas Marinhas Protegidas é classificada como ‘Relocalização Esperada’, o que leva a uma rotatividade substancial de espécies”, reforçando a necessidade de monitorização contínua das comunidades.
Portanto, os resultados, segundo o Instituto Okeanos, “revelam que os ambientes bentónicos com espécies sésseis dos Açores são os mais vulneráveis às alterações de temperatura, enquanto espécies mais móveis apresentam maior capacidade de adaptação”. O trabalho “reforça a importância de manter e reforçar medidas de conservação marinha, monitorização ambiental e protecção de áreas que possam servir de refúgio climático no futuro”.
Com a evolução do aquecimento global, espera-se uma redistribuição biogeográfica das espécies: algumas migrarão para novas profundidades ou latitudes, enquanto outras poderão desaparecer dos seus habitats tradicionais. Essa movimentação depende de múltiplos factores: “a adequação ambiental das regiões circundantes, a capacidade de uma espécie migrar, a distribuição das presas e a localização dos locais de desova”. Entre as zonas destacadas estão o monte submarino Sedlo, o monte submarino Great Meteor e o complexo Atlântida-Platão, todos com características térmicas que sugerem estabilidade e potencial para servir de abrigo a comunidades ameaçadas.
As projecções de temperatura apontam para “maiores aumentos de temperatura em locais de latitude mais baixa”. Áreas como o Banco Princesa Alice, o Condor, e as fontes hidrotermais a sudoeste dos Açores surgem como pontos críticos, onde a variabilidade térmica será mais acentuada no futuro.
O estudo sublinha que a identificação e preservação de refúgios térmicos é “importante a considerar no desenho e gestão das áreas protegidas”, uma vez que podem promover a persistência da biodiversidade em cenários de aquecimento rápido.
Os investigadores, no presente artigo, encontraram também fortes correlações entre a sensibilidade térmica e as características das espécies.
“A amplitude e os limites de temperatura das espécies correlacionam-se significativamente com determinadas características que definem o nicho ecológico”, lê-se no estudo.
Os investigadores sugerem algumas recomendações práticas: implementar estratégias de conservação que considerem a existência de impactos climáticos; monitorizar locais vulneráveis e potenciais refúgios; acompanhar a estrutura das comunidades onde se prevê uma maior rotatividade; aumentar o conhecimento sobre as características que determinam a vulnerabilidade das espécies, incluindo as fases larvares.
Para os cientistas, é essencial que as redes de Áreas Marinhas Protegidas (AMPs) considerem estas dinâmicas.
“Precisamos de manter AMPs ou redes de AMPs de maiores dimensões para garantir a representação, replicação e disseminação do habitat”, afirmam.
“Uma paisagem marítima termal diversa acabará por proporcionar refúgios climáticos e incorporar redes de conectividade existentes para realocação”, acrescentam.
O trabalho alertam ainda que “os impactos das alterações climáticas nos ecossistemas marinhos já estão a surgir, e as medidas socio-económicas actualmente implementadas não conseguem compensar esses efeitos sobre os sistemas e serviços que eles fornecem, mesmo em cenários de baixas emissões”.

José Henrique Andrade

Edit Template
Notícias Recentes
Lusitânia em busca da terceira vitória consecutiva
Instituições do sector social da Maia apostam na qualificação dos seus quadros para melhor servirem
José Manuel Bolieiro destaca importância da transição digital e da inteligência artificial para a “eficiência e transparência”
Lagoa recebeu dirigentes associativos das comunidades portuguesas
Rússia ordena apreensão de activos russos de mais cinco empresas europeias
Notícia Anterior
Proxima Notícia

Copyright 2026 Correio dos Açores