Foi recentemente empossada a nova Direcção do Coral de S. José e o Correio dos Açores esteve à conversa com Rogério Paulo Massa, que acaba de cessar as suas funções como Presidente daquela prestigiada instituição cultural. Nesta entrevista ele faz um balanço muito positivo do seu mandato, destacando a valorização simultânea do repertório clássico universal e da tradição açoriana. Enfatiza a dimensão humana do projeto e o papel do Coral na criação de públicos e na ligação à comunidade. Entre os momentos mais marcantes da sua liderança, recorda eventos como o festival “Viva Puccini!” (2008), a actuação na Casa da Música (2010), a criação do Festival Música no Colégio (2012) e a participação no festival coral em Praga, além da conquista da sede própria da Associação em 2017, ao fim de 50 anos de existência. Destaca também a atribuição pela Região da Insígnia Autonómica de Mérito Cívico em 2008 como um reconhecimento importante do esforço colectivo do grupo ao longo das décadas. O Festival Música no Colégio, de acesso gratuito e realizado ao ar livre em Ponta Delgada, é apontado como o projeto de maior orgulho, embora represente um enorme desafio logístico e financeiro, sendo sustentado sobretudo pela dedicação dos coralistas. A decisão de não se recandidatar à presidência foi ponderada, motivada pela vontade de renovação e pela crença na necessidade de dar lugar a novas energias. No entanto, manter-se-á ligado ao Coral como cantor e colaborador informal. Dirige palavras de agradecimento e encorajamento aos coralistas, apelando à continuidade do espírito de entrega, e deixa uma mensagem de gratidão ao público pelo apoio constante. Para o nosso entrevistado, o Coral de São José continua a desempenhar um papel vital na vida cultural dos Açores, promovendo os Açores dentro e fora do país, e contribuindo para a sua visibilidade e identidade musical.
Correio dos Açores: Terminou o seu mandato à frente de uma das instituições mais prestigiadas dos Açores. Que balanço faz deste tempo na presidência do Coral de São José?
Rogério Massa: Após alguns anos à frente do Coral de São José, sinto um profundo orgulho pelo caminho que percorremos. Foi um trabalho de afirmação cultural, que passou por dar voz ao grande repertório clássico universal, mas também valorizar a tradição açoriana. O Coral consolidou-se como uma referência, não apenas pelo nível artístico, mas pela forma como soube criar ligações com a comunidade e gerar públicos para outros agentes culturais. Mais do que os concertos e projectos que realizámos, guardo a dimensão humana desta experiência: um grupo de pessoas unidas pela música coral, que ajudou a tornar o Coral de São José numa das instituições culturais mais prestigiadas dos Açores.
Entre muitos e variados projectos a minha memória leva-me até 2008 com “Viva Puccini!”, o primeiro festival do género nos Açores, que integrou 4 momentos culturais: uma mostra expositiva, a interpretação da “Messa di Gloria” de Puccini, uma “Gala de ópera” e uma conferência. Outro grande momento foi a possibilidade de cantar na Casa da Música com a Banda Militar do Porto em 2010.
Em 2012 sonhámo se realizámos o grande projeto – Festival Música no Colégio – que decorre anualmente, em Julho, no Largo frente à icónica Igreja do Colégio dos Jesuítas. Trata-se de um festival de características únicas na cidade de Ponta Delgada e nos Açores que tem trazido para o palco do Colégio grandes nomes do panorama musical, nacional e internacional, com honras de gravação integral, desde a primeira edição, e posterior transmissão pelos canais de televisão da RTP.
Saliento ainda a inauguração da tão desejada sede da nossa Associação, no dia da celebração do 50º aniversário do Coral a 19 de março de 2017.
Merece-nos também lembrar a deslocação que fizemos a Praga, República Checa para participar no Choir Music Festival of Prague, a única representação portuguesa.
O Coral recebeu a Insígnia Autonómica de Mérito, uma das mais altas distinções da Região. Que significado teve esta condecoração para si e para todos os membros?
A 12 de Maio de 2008, no Dia da Região Autónoma dos Açores, o Coral de São José recebeu a Insígnia Autonómica de Mérito Cívico. Esta distinção reflete o compromisso, a dedicação e o amor à música que têm marcado o percurso do Coral ao longo dos anos. Representa um momento de profunda honra e gratidão. Mais do que uma distinção formal, é o reconhecimento de décadas de dedicação, de trabalho voluntário e de amor à música e à comunidade. Esta condecoração simboliza sobretudo o esforço colectivo de todos os coralistas, maestros e direcção e restantes corpos sociais que ao longo dos anos contribuíram para o crescimento e o prestígio do Coral, tornando-o uma verdadeira referência na vida cultural açoriana.
Que conquistas ou momentos considera mais marcantes ao longo da sua liderança? Há algum concerto ou projeto de que se orgulhe particularmente?
O Coral de São José, dentro das suas possibilidades, tem procurado acompanhar o que se vai desenvolvendo em outros centros culturais. O objectivo é partilhar essas experiências com o nosso público, que, muitas vezes, não tem oportunidade de se deslocar aos eventos que ocorrem fora da nossa Região. Este esforço reflete o compromisso social do Coral, promovendo a cultura e o acesso à música para todos.
De facto, uma das nossas maiores conquistas foi a obtenção da sede da Associação, alcançada ao fim de 50 anos – após vários avanços e recuos – e que, desde então, permitiu consolidar a nossa estabilidade.
Nos últimos anos, desenvolvemos grandes projectos e concertos de destaque, entre os quais se incluem: Requiem K.626, de Mozart; Die Schöpfung (A Criação), de Haydn; o Festival Música no Colégio; Missa Solemnis Op. 123, de Beethoven; e, já este ano, o Requiem Op. 23 À Memória de Camões, de João Domingos Bomtempo.
O último grande evento foi o Festival Música no Colégio. É difícil levar a cabo um festival com esta envergadura?
O Festival Música no Colégio concebido em 2012 é o nosso projecto estrela que muito nos orgulha, e que teimosamente continuamos a desenvolver, ano após ano.
É um festival de acesso gratuito, com formato único na Região no género que decorre anualmente no Largo do Colégio, espaço que se transforma em palco de memórias e encantos, tendo por moldura a imponente Igreja do Colégio dos Jesuítas, e como gostamos de sublinhar“ é um espaço onde a arte e a cultura se entrelaçam”.
As características que tornam este festival diferente são também as que representam os maiores desafios. Os custos associados ao aluguer de equipamentos, à iluminação, ao som e a toda a logística são expressivos. Apesar de contarmos com o apoio de entidades públicas e com a generosidade de alguns parceiros privados, não podemos deixar de destacar a dedicação e o empenho de alguns dos nossos coralistas que, para além de cantarem, se envolvem profundamente na produção do evento. No fundo, o Festival Música no Colégio é sustentado não apenas por apoios financeiros, mas, sobretudo, pelo trabalho, paixão e entrega de todos os que nele acreditam.
Não se recandidatou nestas recentes eleições. Foi uma decisão difícil? O que o levou a tomar esta opção?
A verdade é que uma decisão desta natureza transporta sempre emoções, mas a de não me recandidatar à direcção do Coral de São José foi profundamente ponderada. Já estou há alguns anos à frente desta instituição, e sinto que chegou o momento de abrir espaço a uma nova geração. Acredito sinceramente que o Coral precisa de se renovar (de ganhar novas ideias), imprimindo uma nova energia mas sem nunca perder a sua matriz identitária, que é o que nos distingue e nos une.
Ao longo destes anos, quem me conhece sabe que vivi intensamente cada etapa, cada concerto, cada desafio e cada conquista. Sinto-me profundamente grato por tudo o que construímos em conjunto — amigos coralistas, diretor musical, colaboradores e músicos, e todos os que sempre acreditaram neste projeto. Mas acredito que o futuro do Coral de São José depende também dessa capacidade de se reinventar, de acolher novas vozes e novas energias.
Não encaro esta minha decisão como um afastamento mas como um gesto de continuidade — porque a renovação é, afinal, a melhor forma de garantir que o Coral de São José permanece vivo, vibrante e fiel ao seu espírito original.
Apesar de sair da Direcção, sabemos que continuará próximo do Coral. De que forma pretende colaborar no futuro?
Apesar de não me recandidatar à direcção do Coral de São José, continuarei a cantar com muito gosto, enquanto a minha voz me permitir fazê-lo com a qualidade considerada, pelo menos, razoável. Com a experiência que adquiri ao longo do tempo na direcção, estarei sempre disponível para colaborar e contribuir sempre que necessário. Acredito que, ao me afastar do cargo directivo, possa apreciar o Coral com um olhar mais atento e crítico, sugerindo algumas ideias, e ao mesmo tempo mais sereno, reconhecendo o valor de cada um que faz parte desta grande família musical. Manter-me-ei presente embora em outra posição.
Que mensagem deixa aos coralistas e ao público que acompanha o trabalho desta associação musical?
Aos meus colegas coralistas, deixo uma palavra de gratidão por todos os momentos partilhados, e encorajamento: continuem a cantar com alegra, dedicação e paixão, porque é através da vossa entrega que o nosso Coral mantém a sua alma e vitalidade.
Ao público que nos acompanha (o destino último do nosso trabalho), quero expressar o meu profundo reconhecimento pelo apoio constante e pelo entusiasmo que nos inspira a continuar a cantar e a melhorar a cada dia. Que continuemos juntos a celebrar a música, porque o Coral de São José é, acima de tudo, uma família unida pelo amor à arte.
E que desafios identifica para a nova Direcção? O que considera essencial para garantir que o prestígio do Coral se mantenha nos próximos anos?
Quanto aos desafios, acredito que a nova direcção terá de equilibrar a tradição que caracteriza o Coral de São José com a necessidade de inovação, explorando novos repertórios e formatos que atraiam diferentes públicos, sem nunca perder a identidade musical que nos distingue. É importante motivar e valorizar o esforço dos coralistas, que dedicam tempo e energia aos ensaios semanais, muitas vezes após um dia de trabalho, demonstrando um compromisso e paixão que são a verdadeira alma do nosso Coral.
Para garantir que o prestígio do Coral se mantenha nos próximos anos, considero fundamental continuar a investir na formação musical dos coralistas, manter elevados padrões artísticos e reforçar a relação próxima com o público e a comunidade. A paixão, o compromisso e a dedicação de todos (direcção, corpo musical e coralistas) são o verdadeiro alicerce que permitirá ao Coral de São José continuar a crescer e a encantar quem nos ouve.
Considera que as autoridades regionais e autárquicas têm acarinhado o trabalho do Coral de São José?
Embora o Coral de São José tenha recebido alguns apoios das entidades oficiais, nomeadamente do Governo dos Açores, da Câmara de Ponta Delgada, Juntas de Freguesia de São Sebastião e de São José, pelos quais somos muito gratos, é preciso ser claro: esses apoios estão longe de cobrir as necessidades reais das actividades que o Coral produz ao longo do ano. Muitas vezes são obtidos com grande esforço e insistência, apesar do valor cultural e turístico que oferecemos à Região. Projectos como o Festival Música no Colégio, de acesso gratuito a todos e que atrai público local e estrangeiro, promovem a Região. É essencial que as entidades reconheçam a importância deste trabalho e apoiem o Coral de São José de forma condigna, para que possa continuar a crescer e a representar a nossa cultura com qualidade.
Para terminar, que papel acredita que o Coral de São José continua a ter na vida cultural dos Açores?
O Coral de São José, uma instituição já com uma história de 58 anos, continua a desempenhar um papel essencial na vida cultural dos Açores; na preservação e divulgação da música coral de qualidade, actuando também como verdadeiro embaixador da nossa Região. Eventos como o festival “Música no Colégio”, gravado na íntegra e transmitido pelos canais da RTP, permitem levar os Açores mais longe, mostrando ao país e ao mundo a riqueza cultural da nossa Região. Por outro lado, através de concertos, festivais e eventos, o Coral de São José atrai público local e estrangeiro, contribuindo para o enriquecimento e diversidade da oferta cultural da Região proporcionando uma maior visibilidade dos Açores no panorama musical.
António Pedro Costa
