João Vieira da Natividade, 1899
Um escritor que estudou, como nenhum outro, a flora da Madeira, diria que por ela se apaixonou, exaltando-a no seu conhecimento científico. Aliás, este seu texto foi retirado de uma sua obra extraordinária, Madeira, a Epopeia Rural, publicada em 1953.
Flores e Frutas. Picos e Planaltos
“Cascatas de glicínias; dosséis; festões; grinaldas de buganvílias; sebes de hibiscos, de grandes flores sangrentas; canteiros de graciosas gérberas, estilizadas e aristocráticas; orquídeas com as suas pretensões estéticas animalistas; azáleas de todos os cambiantes; hortênsias, camélias, begónias, a par das flores mais estranhas e dos arvoredos mais raros, vindos de todas as partidas do mundo, e que parece haverem-se congregado festivamente ali em honra da Flora, a deusa da Primavera.E confesso que não contemplo, sem secreta desconfiança, estas flores da Madeira. Aqui no Continente, as nossas flores desabrocham, digamos, com decência, com timidez e recato. Um clima traiçoeiro ameaça comprometer, a cada instante, a sua festa nupcial.
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.Flores e Frutos!… Cores, alegria, perfumes… quase um absurdo na remota e nevoenta Ilha das Flores, na ilha dos negros arvoredos sempre verdes!
A Madeira é, no entanto, fértil em paradoxos, e estes deparam-se-nos a cada passo, e até na própria paisagem.
Nós, os continentais, não calcorreamos as sinuosas estradas sem que sobressaltos de espanto, ou até indignação, amiúde nos assaltem. Uma ilha, digam o que disserem, ou é um continente que não cresceu, ou um continente em via de acabar-se.Ou é um desapontamento, ou virá a ser uma saudade. Mas, para que possua realmente atrativos, para que nos prenda e seduza, não deve passar de miniatura, de um bibelot que nos apeteça possuir…Ora, neste aspeto, a Madeira é um acervo de contrassensos. O pigmeu reveste-se dos adornos dos gigantes e ofende a nossa vaidade de continentais, porque entendemos que tais enfeites não se entregam a crianças. E fica-se com medo do que venha a acontecer…”
Santana Dionísio, 1902
“Como a terra é rica de brutas maravilhas!”
“Estendido no chão – literalmente estendido – para poder ver, sem risco de vertigem, a espantosa fratura perpendicular do Cabo Girão. O mar, a quinhentos metros de profundidade, rosna em surdina e afaga, com as suas blandícias de grande jabiru, os pés pouco seguros deste gigantesco mirante. Quase sem fala, arrasto-me aos poucos para trás, levanto-me e, com pés de lã, passo sobre a fendazinha geológica que, de há anos para cá, está a progredir e a prometer, para um dia incerto, uma estupenda ‘quebrada’.Transporto o maligno sulco, respiro.”
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Uma mudez enorme pesa sobre todo este inverosímil cenário. O próprio sussurro das águas, que se despenham aqui e ali, nos refegos da pequena cordilheira, morre nesta atmosfera saturada de concentração, como uma indistinta música de esferas.
O brado grave, prolongado e distante dum pastor – oouuhhh! – e o pio voraz duma manta que plana sobre um rochedo, selvática, ali à direita, são os únicos sons que, em dez minutos de auscultação, ouço nesta placidez pejada de mistério telúrico.
Entardece. Ainda um instante. A velha serraria, rugosa, enorme e dormente, afigura-se-me, num dado momento, estar, de facto, “do outro lado”, mas à espera somente de poder dizer que, afinal, está apenas a “passar pelo sono”…
António Nobre, 1867–1900
“Vários poetas vieram à Madeira (pela fama que tem) e ares do mar: uns para breve voltarem à clareira. Outros, aí deles! Para aqui ficar.
Esta ilha é Portugal, mesma é a bandeira,
Morrer nesta ilha não deve custar,
Mas, para mim, sempre terra estrangeira,
A minha pátria quero, enfim, voltar.
Ilhas amadas! Céu cheio de luas!
Ah, como é triste andar por essas ruas,
Pálido, de olhos grandes a tossir…
Eu vou-me embora, adeus! Mas volto a vê-las,
Vou com as ondas, voltarei com elas,
Mas como elas, para tornar a ir.”
António Nobre vem também à Madeira e permanece algum tempo à procura de remédio para a sua doença. Aqui escreveu textos lindíssimos. Aqui relacionou-se com alguns madeirenses, trocando mais tarde correspondência com eles.
Raul Brandão, 1867–1931
Visão da Madeira
“13 de Agosto – Nunca mais me esqueceu a manhã virginal da Madeira e as cores que iam do cinzento ao doirado, do doirado ao azul-índigo – nem a montanha entreaberta saindo do mar diante de mim, a escorrer azul e verde…
Levanto-me a bordo, à procura da luz – de outra luz em que fui nascido e criado e de que começo a sentir cada vez mais a falta. Anseio por tornar a ver a luz sem nuvens, a luz doirada, a luz pura e viva. Mas o dia está ainda nublado: as mesmas nuvens, talvez mais leves, em pequenos toques delicados de pincel, e no mar pálido boiam riscos branquíssimos.
Quatro da tarde: suponho que vejo lá para o fundo, sobre ondulações da voga, uma faixa de outro azul – do azul que se respira; como despedida, caem ligeiros chuviscos.
Para os Açores continuam a amontoar-se nuvens mais escuras: correm todas para as ilhas como quem tem um destino a cumprir.”
Com descrições pormenorizadas da sua visão a bordo, o longo texto de Raul Brandão mostra-nos a sua sensibilidade de ver e viver tudo quanto a Madeira lhe proporcionou:
“As palavras pouco exprimem nestes casos: o principal da Madeira é a luz que cria e tanto amadurece o panorama como os frutos, porque a única imagem que encontro para este conjunto é a dum fruto maduro que tomou, pouco a pouco, com os vagares de quem não tem mais que fazer, as cores do sol, as da manhã e do poente, e que chegou a um estado perfeito que delicia e perfuma ao mesmo tempo.
A terra emerge da tinta azul com os tons quentes do ananás, que é morango dos trópicos – paraíso sem freio nem calor, a que se junta ainda o sabor dos vinhos bebidos aos golos e cuja transparência se avalia através do vidro, erguendo-o para a luz. A luz!Dar à luz seria tudo, mas só um pintor encontra este doirado-azul diluído que envolve toda a paisagem deitada aos nossos pés, como as mulheres que oferecem os seios duros com impudor e inocência ao mesmo tempo.”
Escolhi para encerrar estas quatro crónicas o escritor madeirense J. Reis Gomes, uma figura preponderante que, no seu tempo, dinamizou muitas iniciativas culturais.Professor, dramaturgo, conferencista, ele, com a sua sabedoria e talento da escrita, projetou a Madeira lá fora, chamando a atenção para uma área pouco conhecida: a cultura.O seu texto, bastante interessante, reflete quanto ele se identificou com a sua ilha…
J. Reis Gomes, 1869–1950
“Uma das ruas do Funchal que mais pitoresco e interesse regional nos oferece, e que ao forasteiro sempre agrada – embora não seja dos naturais grandemente percorrida – é a Calçada de Santa Clara.Esta artéria inclinada e sinuosa, ladeada por prédios, uns modestos, outros de certa sumptuosidade, permitindo à vista descobrir, agora, umas janelas abertas cobertas de folhagem, outras totalmente floridas;
Mais acima, uma casa com jardim exterior, deitando os seus cachos de glicínias sobre a rua; aqui, um portão solarengo, no extinto Convento Clarista, que já começa a se cobrir de trepadeiras e que, em breve, estenderá a nossos olhos a sua cascata de verduras;
No topo, um alto edifício com varanda, em que avultam vãos de flores e onde a mesma nota de vegetação e de cor poderia tornar-se mais viva – esta rampa é, dentro da cidade, um dos seus trechos verdadeiramente interessantes, com carácter pitoresco.”
Foi para mim um regalo reler muitos destes trechos, passados trinta anos. Quando os descobri, pude situar-me em muitos dos lugares que também, para mim, são ainda preferidos. Por exemplo, a inclinada Calçada de Santa Clara, apesar de algumas alterações, é ainda uma das ruas que conserva alguma característica e poesia, onde estão instalados cinco museus com espólios extraordinários: Museu de História Natural, Casa-Museu Frederico de Freitas, Museu Quinta das Cruzes, Universo das Memórias João Carlos Abreu e Convento de Santa Clara.
Nestas crónicas compilei, a partir de cento e sessenta e três textos, estes meus escritos, pensando que seria verdadeiramente interessante oferecer aos meus habituais leitores pedaços de uma dúzia deles.
Devo dizer, porém, que a beleza de todos nos proporciona momentos de leitura que contagiam pela força, pela poesia, pelo sentir de uma terra, captando-a nas paisagens, nas tradições, nos rochedos, no arvoredo, nas gentes, nas flores e nas frutas.
Uns dão-nos o pôr do sol que morre no mar, esse vermelho alaranjado que pinta o azul do céu; outros remetem-nos para a dimensão da ilha, a contrapor as suas montanhas altivas e desafiantes; enfim, descreveram-na exaltando-a na razão das suas almas em festa.
PS –
Estes textos encontram-se na Antologia da Terra Portuguesa – A Madeira. Coordenação de Cabral do Nascimento. Livraria Bertrand.
Por: João Carlos Abreu