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Dor de costas afecta oito em cada dez pessoas eé a principal causa de incapacidade no mundo

Assinala-se hoje o Dia Mundial da Coluna, que procura sensibilizar para um dos problemas de saúde mais comuns e incapacitantes em todo o mundo. O ortopedista Ricardo Rodrigues Pinto recorda que a dor de costas afecta cerca de 80% das pessoas em algum momento da vida e continua rodeada de mitos, “como a ideia de que quem tem dores deve evitar mexer-se ou que a cirurgia é sempre necessária”. Nos Açores, onde se verifica um aumento das patologias da coluna associadas ao envelhecimento e ao sedentarismo, o especialista defende uma abordagem multidisciplinar e educativa, que aproxime a medicina da comunidade e reforce a cultura de prevenção.

Correio dos Açores – Qual é a importância de assinalar o Dia Mundial da Coluna e que objectivo deve ter esta data, do ponto de vista clínico e da sensibilização pública?
Ricardo Rodrigues Pinto (especialista em Ortopedia/ Coordenador da Unidade da Coluna do Hospital CUF Açores) – O Dia Mundial da Coluna é uma oportunidade para chamar a atenção para um dos problemas de saúde mais comuns em todo o mundo: a dor de costas. Segundo a Organização Mundial da Saúde, é a principal causa de anos vividos com incapacidade em todo o mundo e afecta cerca de 80% das pessoas em algum momento da sua vida. Esta data deve servir não apenas para lembrar que a dor de costas é frequente, mas sobretudo para sensibilizar a população sobre o que pode ser feito para a prevenir através do exercício físico, da gestão do peso, da ergonomia no trabalho e da literacia em saúde. É também uma forma de combater mitos e falsas crenças, como a ideia de que quem tem dores de costas deve evitar mexer-se ou que a cirurgia é sempre necessária.

A dor lombar é hoje uma das principais causas de absentismo laboral em Portugal. Que factores explicam a sua elevada incidência, inclusive entre populações mais jovens?
A dor lombar resulta de uma combinação de factores biológicos, comportamentais e sociais, de que somos vítimas actualmente. Passamos muito tempo sentados, fazemos menos exercício, dormimos pior e estamos sujeitos a níveis elevados de stress – todos estes factores influenciam a forma como o nosso corpo e o nosso cérebro percebem e gerem a dor. Entre os mais jovens, o sedentarismo e o uso prolongado de ecrãs em posturas incorrectas têm tido um impacto crescente. Acresce ainda o excesso de peso, que sobrecarrega a coluna e acelera processos degenerativos. O resultado é uma população cada vez mais jovem com dores que antes eram típicas de idades mais avançadas.

Nos Açores tem-se verificado um aumento dos problemas relacionados com a coluna vertebral. Quais são actualmente as patologias mais frequentes na Região e que factores explicam essa tendência?
Nos Açores, tal como no resto do país, as patologias mais frequentes são as dores lombares e cervicais de origem mecânica, as hérnias discais, as estenoses da coluna e as fracturas osteoporóticas associadas ao envelhecimento. O aumento da esperança média de vida e do excesso de peso contribui para esta tendência, assim como os hábitos sedentários e a falta de programas de prevenção estruturados.
Há também um factor importante que é a acessibilidade: à medida que a população tem maior acesso a diagnóstico e especialistas (e isso tem-se verificado nos Açores), há mais casos identificados – o que é positivo, pois permite tratamento mais precoce e eficaz.

Que sintomas devem levar uma pessoa a procurar avaliação médica?
A maioria dos casos de dor de costas não é preocupante, mas há sinais de alerta que justificam avaliação médica. Esses sinais são: dor que irradia para as pernas, dormência ou fraqueza, perda de força ou sensibilidade, dor nocturna persistente, febre, perda de peso inexplicada ou história de traumatismo recente. Também deve ser avaliada qualquer dor que se prolongue por mais de quatro a seis semanas, ou que interfira com as actividades diárias. O objectivo é distinguir entre dores benignas e situações que podem exigir investigação e tratamento específicos.

Em que medida factores como a má postura, o sedentarismo e a obesidade contribuem para o desgaste da coluna?
O sedentarismo e a obesidade são, sem dúvida, os dois grandes inimigos da saúde da coluna. O verdadeiro problema não está tanto na postura, mas sim na falta de força muscular que nos permita suportar as posturas e movimentos do dia-a-dia. O sedentarismo leva à atrofia dos músculos que estabilizam a coluna e, com isso, aumenta a sobrecarga sobre os discos e articulações vertebrais. A obesidade acrescenta peso sobre estas estruturas, acelerando o desgaste e aumentando o risco de hérnias discais e artroses.
No entanto, é importante recordar que a coluna é uma estrutura dinâmica e adaptável: o movimento regular e o fortalecimento muscular são os melhores aliados para prevenir dor e degeneração, mesmo em pessoas com excesso de peso. Em suma, o foco deve estar na capacidade funcional e no movimento, e não numa postura “perfeita”, que, na prática, não existe.

A maioria das doenças degenerativas da coluna não exige cirurgia. Em que situações o tratamento não cirúrgico é suficiente e quando é que a cirurgia se torna inevitável?
A grande maioria das situações melhora com o tratamento conservador, que inclui fisioterapia, exercício orientado, medicação e reeducação de hábitos. A cirurgia é excepcional e indicada apenas quando há compressão neurológica importante (como perda de força, dormência persistente ou alterações da marcha), dor incapacitante resistente ao tratamento ou instabilidade estrutural. Mesmo nestes casos, as técnicas cirúrgicas evoluíram muito e são hoje mais seguras, menos invasivas e permitem uma recuperação mais rápida. A maioria dos doentes operados à coluna caminha no próprio dia da cirurgia e tem alta no dia seguinte

Que papel têm a fisioterapia e o exercício físico regular na prevenção e no controlo destas patologias? Que modalidades recomenda e com que cuidados?
A fisioterapia tem um papel central na fase inicial de recuperação e na educação do doente. O exercício físico regular é a chave para manter a saúde da coluna a longo prazo. Sabendo nós que o treino de força é fundamental para o estímulo ósseo e muscular, o melhor exercício é aquele que a pessoa consiga e goste de fazer de forma regular e consistente. O segredo está na consistência e na progressão gradual, respeitando sempre os limites individuais. O exercício deve ser encarado como parte do tratamento, e não apenas como complemento.

Como é feito o acompanhamento dos doentes com dor crónica na coluna, tendo em conta que muitos casos exigem vigilância prolongada e reeducação postural?
O acompanhamento deve ser multidisciplinar. Envolve médicos, fisioterapeutas, profissionais do exercício, psicólogos e, por vezes, nutricionistas. O objectivo é ajudar o doente a compreender a sua dor, manter-se activo e recuperar o controlo sobre o corpo e a mente. Nos casos de dor crónica, é essencial trabalhar também os aspectos psicológicos como o medo do movimento, a ansiedade e o isolamento. Um acompanhamento próximo e personalizado permite evitar a cronificação e reduzir o impacto da dor na qualidade de vida.

Do ponto de vista da literacia em saúde, o que ainda falta fazer para que a população açoriana reconheça os sinais de alerta e procure ajuda médica atempadamente?
Ainda é necessário desmistificar muito do que se diz sobre a dor de costas. É preciso promover literacia em saúde musculoesquelética, através de programas educativos nas escolas, campanhas comunitárias e comunicação médica acessível. A população deve perceber que a maioria das dores de costas melhora com movimento e que procurar ajuda cedo faz a diferença.
Nos Açores, temos feito um esforço nesse sentido, aproximando a medicina da comunidade e reforçando a importância da prevenção. Porque cuidar da coluna é, em última análise, cuidar da qualidade de vida.
Daniela Canha

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