O grupo de investigação do Mar Profundo do OKEANOS – Instituto de Investigação em Ciências do Mar da Universidade dos Açores publicou um artigo que destaca a importância de tornar a investigação em mar profundo mais acessível, inclusiva e sustentável. O trabalho, liderado por Telmo Morato e Marina Carreiro-Silva, defende que a democratização da ciência é essencial para uma gestão mais justa e equitativa da biodiversidade marinha.
O artigo, intitulado “Democratizing deep-sea research for biodiversity conservation”, parte de um diagnóstico preocupante:
“A conservação eficaz dos ecossistemas de águas profundas (os que se encontram abaixo dos 200 m) é frequentemente prejudicada por dados insuficientes sobre a composição e distribuição da biodiversidade, o funcionamento do ecossistema e o estado ecológico”.
A equipa alerta para os desafios da exploração equitativa das águas profundas, sublinhando que “representa ainda um grande desafio no vasto e mal pesquisado oceano profundo, tornando extremamente difícil a tomada de decisões políticas informadas”. De acordo com os autores, a dependência de tecnologias dispendiosas, como os veículos remotamente operados (ROVs) e os veículos operados por humanos (HOVs) “limita a aquisição de dados a um número reduzido de nações e instituições ricas”. Esta concentração de meios científicos faz com que “vastas áreas do oceano profundo permaneçam pouco estudadas e mal protegidas, especialmente em países de baixo e médio rendimento”.
Para ultrapassar esta desigualdade estrutural, o estudo analisa o potencial das novas tecnologias de baixo custo, sublinhando que “os recentes avanços na tecnologia marinha com boa relação custo-benefício prometeram democratizar os esforços de exploração e permitir o acesso a investigadores historicamente excluídos devido a impedimentos financeiros e tecnológicos” são a chave para “um oceano mais equitativo e sustentável”.
Entre os exemplos apresentados, destaca-se a “Azor drift-cam”, uma ferramenta concebida e desenvolvida nos Açores.
“A Azor drift-cam representa uma abordagem inovadora e económica para a exploração do mar profundo, que preenche a lacuna entre os sistemas de câmaras de capacidade limitada e as plataformas complexas e de alto custo, como ROVs ou HOVs, raramente disponíveis”.
Esta tecnologia de baixo custo revelou-se fundamental para fortalecer a investigação marinha no arquipélago. A nota de imprensa publicada pelo Instituto Okeanos indica que, desde 2019, este sistema já realizou mais de 1.180 mergulhos entre os 200 e 1.200 metros de profundidade, cobrindo 630 km de fundo marinho e registando mais de 90.000 observações de biodiversidade.
No mesmo comunicado, o investigador Telmo Morato explica que “graças a esta tecnologia de baixo custo, o arquipélago deixou de depender de ciência conduzida por países com maior poder económico e afirmou-se como um hotspot global de investigação marinha liderada localmente”.
A utilização da Azor drift-cam “produziu um conjunto abrangente de dados sobre a megafauna bentónica, peixes demersais de águas profundas e ecossistemas marinhos vulneráveis (EMVs)”. E os resultados são expressivos: “A análise das imagens de vídeo levou à identificação de aproximadamente 400 morfoespécies de invertebrados megabentónicos e gerou mais de 90.000 novos registos de organismos bentónicos na Zona Económica Exclusiva”. Parte desta informação científica foi decisiva para “fundamentar a criação da maior rede de Áreas Marinhas Protegidas (AMPs) do Atlântico Norte”.
A proposta central prende-se com a utilização da inovação acessível para promover a inclusão e reforçar a capacidade científica local:
“À medida que as discussões globais sobre a expansão da exploração em águas profundas prosseguem, defendemos que as tecnologias com uma boa relação custo-benefício, juntamente com estruturas bem estabelecidas, podem democratizar a exploração em águas profundas; produzir cenários transparentes, baseados em dados e em bases científicas; e informar a conservação e a gestão sustentável dos ecossistemas em águas profundas (…) Vislumbramos um futuro com uma compreensão significativamente melhorada do estado e da distribuição das espécies e comunidades bentónicas de águas profundas”.
José Henrique Andrade
