Andava eu nas habituais repescagens pela documentação guardada nas estantes da biblioteca aqui de casa, quando encontrei informação relativa aos anos em que, na qualidade de Reitor da Universidade dos Açores, assinei no Brasil um protocolo de cooperação com a UDESC-Universidade do Estado de Santa Catarina. O protocolo foi também assinado pelo então Reitor da UDESC, Prof. Raimundo Zumblick, com quem cimentei uma forte amizade, de vez em quando reavivada graças à internet. Mas o importante é que, durante a pesquisa documental, dei com uma referência que me fez recuar aos primeiros séculos da Era Cristã, quando o Império Romano estava no auge do seu poderio. Aprofundando a investigação via internet, encontrei um trabalho da historiadora Ana Luiza Mello de Andrade ( licenciada e mestre pela UDESC, doutorada pela Universidade de São Paulo) sobre as causas da queda do Império Romano do Ocidente. Não resisto a citar o início do artigo: “ Por dois séculos, o Império Romano viveu um período de estabilidade e prosperidade, conhecido como Pax Romana. Mas, a partir da crise do terceiro século essa estabilidade foi substituída por uma crise marcada pelo desequilíbrio económico e pelas constantes ameaças de invasões”. Continuando, a autora enfatiza os custos que a segurança territorial impunha ao erário público, agravando a situação política e económica imperial. Esses povos invasores eram os bárbaros, desconhecedores do grego e do latim, que ameaçavam as fronteiras romanas e obrigavam Roma a enormes gastos com a defesa, gerando um correspondente aumento dos impostos.
Os povos bárbaros eram sobretudo os hunos germânicos, os vândalos, visigodos, ostrogodos, francos e outros, nomeadamente anglo-saxões. Ao todo, eram uma boa dezena de etnias de vária origem, todas elas guerreiras e sedentas de se apoderarem dos territórios romanos. Constituíram uma ameaça permanente nas fronteiras imperiais, o que levou Roma a mudar de tática e a tentar integrá-los no seu território. Ou seja, colocaram as raposas dentro do galinheiro, o que precipitou a desintegração e a queda do império romano do Ocidente, que veio a ocorrer nos finais do século V, concretamente a partir do ano 476, quando foi deposto o Imperador Rómulo Augusto (cf. Ana Andrade, op. cit.). Foi precisamente o início desta ameaça e desintegração que consolidou o cristianismo, reunindo primeiro à sua proteção os mais vulneráveis e estendendo depois a esperança às classes sociais dominantes. Ao recuarmos 2000 anos na História, agora que vamos terminando os primeiros 25 anos do III Milénio, não deixa de ser surpreendente constatar como o chamado Ocidente, agora alargado geopoliticamente a longínquas áreas transatlântico-pacíficas, mas herdeiro da Roma pós -Cristo (DC, na gíria histórica), nada aprendeu ou não quis aprender com aquilo que a queda do Império Romano do Ocidente claramente indicava para o futuro. Principalmente na Europa, após as 2 Grandes Guerras do século XX e a formação da CECA-Comunidade Europeia do Carvão e do Aço, depois CEE-Comunidade Económica Europeia, alicerces da actual União Europeia, era de esperar mais visão prospetiva e retrospetiva dos cérebros gurus europeus.
Não foi por falta de avisos, quer por alguns grupos políticos do Parlamento Europeu, nos anos 80/90 em que lá estive, quer pelos evidentes sinais que o mundo estava enviando à Europa e ao Ocidente em geral. Ainda agora, tomando como exemplo Portugal, vemos como a imigração está a mudar o país por dentro: só nos últimos 10 anos, recebemos 1,5 milhões de imigrantes, grande número dos quais de etnias, crenças e costumes bem diferentes das dos nativos portugueses. Hoje mesmo foi noticiada a questão do uso da burca por islamitas residentes, o que nos leva a pensar no que será o futuro dos portugueses, se continuarmos permissivos como outros países europeus têm sido. Antigamente, dizia-se que “em Roma, sê romano” – e foi por não seguirem o que diziam que os romanos deram cabo do império . Só que, nos tempos que vão correndo, os bárbaros já estão tão entranhados nas sociedades europeias que é praticamente impossível controlar-lhes o poder erosivo. Basta ver como as necessidades de mão-de-obra barata inundaram as indústrias da França e da Alemanha, permitindo infiltrações de grupos como os “lobos cinzentos” turcos, as tais raposas no galinheiro que os romanos do século II e III também tiveram. Há que rever toda uma política de integração nacional de quem nos procura, começando por lhes dar educação e tratamento digno. O que se passa com a rocambolesca história do ex -SEF, agora virado AIMA para tratar da legalização dos imigrantes, é simplesmente indigno. Quem nos procura e tem emprego, pagando os seus impostos, merece ser tratado como qualquer cidadão nacional. Na nossa Região, a AIPA-Associação dos Imigrantes nos Açores, vem há anos desenvolvendo uma meritória ação, que entendo dever ser apoiada e reforçada, considerando a queda demográfica e a escassez de mão-de-obra disponível. Paralelamente, o acolhimento de estrangeiros deve dar prioridade aos cidadãos de países de língua portuguesa, porque a aculturação é natural e evita o regresso dos bárbaros.
Por: Vasco Garvia