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Porque são atrativos os centros históricos das cidades

É urgente estimular os proprietários, dando-lhes incentivos, organizando iniciativas que atraiam o público e o levem a criar uma relação com a cidade e a amá-la. A partir das emblemáticas “Portas da Cidade”, passando pela espetacular igreja matriz, há um mundo de coisas para os visitantes descobrirem; cada rua tem muitas histórias para contar; tantas foram as gerações que ajudaram a construir este Centro, conservando-o nas suas caraterísticas, relacionando-se com os seus silêncios e com os seus encantos

Recentemente, tive o grato prazer de ler as declarações da empresária Dra. Teresa Neves sobre os cuidados a ter com a cidade histórica de Ponta Delgada (a minha cidade dos Poetas), declarações que subscrevo, porquanto as questões das cidades históricas constituem, para mim, motivo de preocupação.
Sou defensor acérrimo da sua conservação, da recuperação dos antigos edifícios nas suas caraterísticas, da presença do seu tradicional comércio e da fixação dos seus residentes.

  • Por que razão os centros históricos (ditas zonas velhas) das cidades são atrativos?
  • Porque têm história, com muitas histórias; porque têm alma; porque propiciam construções carregadas de caraterísticas, criando ambientes únicos de beleza e poesia.
    Percorri muitos países da Europa, do Oriente e das Américas do Sul e Central, e neles procurei sempre conhecer os Centros Históricos. Verifiquei que, em muitos, faziam-se recuperações importantes. Muitos deles são verdadeiros museus abertos, conservando as suas tradições: ferreiros, sapateiros, alfaiates e confeitarias, e até as salas das velhas escolas, com mobiliário antigo, foram aproveitadas para exposição. Verdadeiras maravilhas, engrandecendo de sobremodo as cidades.
    Em 1968, iniciei a minha luta pela zona histórica de Santa Maria.
    Estava consciente do sucesso do meu projeto e sabia também que deveria começar pela parte social, e não pela turística, atendendo a uma população paupérrima, que ali vivia com graves problemas sociais, o que, apesar de tudo, teve uma substancial vertente positiva. Por outro lado, iniciei pela parte errada: a abertura de um restaurante que, de imediato, chamou a atenção para uma zona esquecida e pouco frequentada, justamente por ser uma zona de prostituição.
    Um madeirense ilustre, o Dr. Fernão Ornelas, então Presidente da Câmara do Funchal, que modernizou a cidade, tinha para aquela zona um projeto novo; por essa razão, condenou muitos dos edifícios, com circunferências vermelhas incrustadas na parede, junto às portas das casas – uma morte anunciada!
    Nunca percebi por que razão o Dr. Fernão Ornelas, sendo uma pessoa inteligentíssima e visionária, condenou aquelas construções! Ele queria fazer uma nova cidade.
    Fundar ali um restaurante seria a melhor forma de não deixar adulterar e destruir uma zona com tanta poesia e séculos de existência. É na simplicidade daquelas pequenas casas que se respira a beleza da arquitetura.
    Eu sempre vivi, desde criança, na zona histórica de Santa Maria. Foi precisamente quando vivia em Roma que nasceu em mim o interesse pela defesa da “minha zona histórica”.
    Era jornalista, regressei à Madeira e, logo depois, parti para a Inglaterra com o meu projeto na cabeça: salvar a “zona velha”. Lutar com empenho pelo meu sonho.
    O que deveria fazer para chamar a atenção para o Centro Histórico, para trazer o maior número possível de madeirenses para o local?
    Abri um restaurante que, além de uma excelente gastronomia italiana, tinha um jornalista a servir à mesa e, simultaneamente, a cantar (cantava mal, mas o importante era comunicar). O sucesso estrondoso não tardou. A partir daí, foi tudo mais fácil, e o Centro Histórico passou a ser olhado de outro modo, inclusivamente pelos presidentes da Câmara.
    Evidentemente, o meu projeto não foi realizado como eu tanto desejava: a criação de iniciativas de caráter tradicional; abertura de boutiques, ferreiros, picheleiros, lojas de flores e alguns restaurantes, etc.!Em vez disso, a Câmara foi cedendo licenças (demasiadas) para a abertura de restaurantes. Estive alguns anos, por razões profissionais, afastado da zona velha; voltei para abrir uma tasca literária — “Dona Joana Rabo de Peixe”, título de um dos meus livros — e executar o “projeto das portas pintadas”, co
  • m o apoio do Presidente da Câmara de então, Dr. Miguel Albuquerque, pessoa de grande sensibilidade, que anteviu o sucesso do projeto e, assim, o autorizou.
    A cidade de Ponta Delgada, mais propriamente o seu Centro Histórico, desde a minha primeira visita a S. Miguel, encantou-me pelas suas ruas estreitas e paralelas, pelas suas varandas, pelas construções simples da sua arquitetura de linhas sóbrias, pelo seu comércio que anima a urbe. A “minha casa”, sempre que estou na “Cidade dos Poetas”, é o Hotel Hintze Ribeiro, que me proporciona um conforto extraordinário; um hotel boutique que se encaixa perfeitamente no Centro Histórico.
    É lamentável que, das noites de sexta-feira para sábado, não se possa desfrutar do silêncio merecedor: passadas as 24 horas, o barulho é ensurdecedor. Um dos aspetos que afugentaram do local muitos hóspedes.
    Vejo com alegria a abertura, na rua Hintze Ribeiro, de alguns restaurantes de qualidade. O restaurante do Alcides é hoje uma referência internacional, não só por um serviço de excelência e uma gastronomia saborosíssima, mas ainda por aquele mural do grande pintor açoriano Domingos Rebelo, que enche a sala.
    Quando passeio por esta rua, saindo do meu maravilhoso hotel — único pela sua dimensão, equilíbrio e valorizado pelo bom gosto da designer de reputação internacional Nini Andrade Silva, que ama e exalta os Açores nas suas caminhadas pelo mundo —, ela, como eu, ao passarmos pelo lindíssimo edifício da antiga fábrica de conservas, dizemos um para o outro: “Este espaço seria ideal para se construir um pequeno teatro (Piccolo Teatro); muito enriqueceria a cidade.”
    O Centro Histórico de Ponta Delgada tem, felizmente, ainda lojas de referência. É urgente estimular os proprietários, dando-lhes incentivos, organizando iniciativas que atraiam o público e o levem a criar uma relação com a cidade e a amá-la. A partir das emblemáticas “Portas da Cidade”, passando pela espetacular igreja matriz, há um mundo de coisas para os visitantes descobrirem; cada rua tem muitas histórias para contar; tantas foram as gerações que ajudaram a construir este Centro, conservando-o nas suas caraterísticas, relacionando-se com os seus silêncios e com os seus encantos.
    Um povo que cresceu na urbe trouxe-a até aos dias de hoje com muito orgulho e amor. Esta é a “Cidade dos Poetas”, que todos os dias conquista os seus visitantes, e, mesmo quando chove, é sempre uma dádiva de Deus, porque, no coração de cada micaelense, há, em todos os momentos, um sol que brilha…
  • Por: João Carlos Abreu
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