Nem Poças nem Ribeira, Eira. Se me seguirem, explico como cheguei à Eira. Juro. Uma coisa é certa, a partir de 1867, ano em que as Poças abrem, a Câmara nunca mais deixaria de se interessar pelo litoral. E (não esquecer) pelas margens (centro/foz) da ribeira. Em1874, andava o Exército à procura de um local onde pudesse instalar um quartel, e a Câmara sugeria-lhe um espaço entre o Castelo (forte de Nossa Senhora da Estrela) e o Largo de Santo André. Em 1884, a ermida de Santo André foi restaurada. Em 1928, desejando ter um passeio à beira-mar, que seria construído entre 1929 e 1935, compra ao Exército (por um preço simbólico) as ruínas do Castelo e (talvez) o seu Curral (mais tarde Eira). Data também dessa altura, o miradouro de Santa Luzia (mais conhecido por Palheiro).
Quem teve essa brilhante ideia do passeio e do miradouro? Manuel Faria Marques, fuseiro dos pés à cabeça, jornalista, comerciante, autarca, um faz de tudo um pouco, dizia que eram ‘um grupo de rapazes de raro tacto administrativo e acendrado Amor à sua terra’ desenvolvendo ‘uma acção inteligente.’ Quem eram esses rapazes? O Presidente era Artur Soares Arruda, mariense, os vereadores, todos rapazes da terra, eram Hermano Mota Faria, Faustino Teixeira de Lima, José de Medeiros Tavares e António Jacinto Cabral Botelho. Além do passeio e do miradouro, queriam mais. Continua Faria Marques: ‘vêm lançando há tempos as suas vistas para a beira-mar e têm entre mãos um vasto plano de aformoseamento daquele interessante local. (…).’ Que pretendiam? ‘Uma avenida marginal.’ Pretensão, note-se, setenta e três anos antes de ser inaugurado o seu primeiro troço. Marginal essa ‘que partindo do Largo de Santo André vai (iria) até à esplanada do antigo Castelo (…).’ Para isso, teriam de fazer o quê? ‘A expropriação duns quintais de forma a pôr a descoberto e a fazer realçar toda a beleza característica da penedia [apenas concretizado trinta anos depois] e ainda a construção dum terraço junto à praia de banhos que, pela sua piscina natural e pelas magníficas barracas para uso dos banhistas, ainda talvez, o que há de melhor no género por estas ilhas. (…).’ A avenida, porém, não acabava no Castelo: ‘Como complemento deste interessante plano impõe-se o alargamento da canada das Feiticeiras [actual rua Mestre José Dâmaso], afim de dar saída ao caminho da beira mar para o lado da Ribeirinha, de forma a entroncar na estrada que segue para as Furnas. Derivaria por ali a passagem de turistas para as Furnas, proporcionando-se-lhes assim e sem lhes alongar o caminho, o mais belo trecho da estrada entre Ponta Delgada e aquele vale.’ É também a partir da década de trinta que se começa a limpar a Cova do Milho. Adquirem-se as tendas (sobretudo) de ferreiro, da rua que descia da Praça à Cova do Milho (hoje transformada em escadaria). Em seu lugar, surgiu um jardim.
Dando um salto da década de trinta a finais da década de quarenta, o que se pretendia então do litoral e das margens da ribeira? Entre alguma da elite local, mais fiel à memória de avôs e bisavôs, reacendera-se a velha aspiração de elevar a Vila a Cidade. A este propósito, estala a polémica, bizantina, diga-se, que saltando dos cafés e dos salões galga aos jornais. Seria a Ribeira Grande uma Vila-Cidade? Poderia vir a ser Cidade? D. Lopo de Sousa Coutinho, Conde de Caminha, com jeito, muito, entra na liça. D. Lopo, ao casar com uma neta de João Albino Peixoto, já defensor no século XIX da elevação a Cidade, mudara-se de Lisboa para Ribeira Grande. Aqui abriu a primeira Livraria da Ribeira Grande. Em 1949, D. Lopo, entre outras interessantes sugestões, como era preciso de dar cara de Cidade à Vila, sugeria para uma área a Norte do Cabo da Vila (rua Adolfo Coutinho de Medeiros) ‘até ao mar um enorme Parque, desde o Bandejo que desaparece, até Vila Nova. (…).’ Como se propõe em 2025? Depois, continue a reparar-se, viria uma ‘estrada de turismo [que] desceria por entre o parque em linha recta até ao mar (…) que então (…) iria com jeitos de cobra que o mar lhe daria até ao Palheiro e dali até alcançar a estrada actual para as Furnas.’ Seria assim a via litoral de D. Lopo. Mais: ‘A lindíssima praia [Monte Verde] em que terminaria este Parque (…) Praia para adultos e praia para crianças na foz da Ribeira.’ Ao longo dessa via litoral, iriam aparecer, continuava: ‘casas, hotel, restaurante, cinemas, jogos e outras comodidades, muita gente da Ilha, que gosta de tomar banho de mar, viria para aqui de preferência. É uma indústria mais a explorar por quem tenha visão, paciência, arte de a tornar moda e tenha ainda capital para empatar. (…).’ Essa tal via litoral de D. Lopo, sem uma nova ponte, ou tocar no Areal (Monte Verde), aproveitava a ponte dos Oito Arcos (concluída em finais da década de noventa do século XIX).
Quem queira ficar com uma ideia certa do que foi até há pouco o litoral da Ribeira Grande, leia isso: até às décadas de cinquenta e sessenta, existia uma só praia das Poças ao Morro. Dito de outra forma: as praias do Monte Verde e de Santa Bárbara – hoje separadas -, eram uma só praia. Já Frutuoso o escrevera. O que terá destruído essa praia? Não foi de certeza a lava do Pico Arde, ou a do Pico Vermelho nem tão-pouco a do Pico do Sapateiro, pois, aconteceram muitos séculos antes, foram antes as toneladas de areia dali tiradas entre a década de setenta e a de noventa. No caso da praia do Monte Verde, houve ainda outra agravante. Entre finais da década de quarenta e meados da de sessenta, foi cortada a meio (no sentido Nascente/Poente). Como foi possível? A própria autarquia, a pensar numa futura (e baratinha) Via Litoral, incentivou a população a despejar ali toneladas e toneladas de entulhos. Resultado: o Bairro da Vila Nova e o do Bandejo ficaram ligados por uma rua de entulhos. Hoje, essa nova rua de entulhos (a que, entretanto, se juntaram dunas) faz parte do percurso da nova via litoral: ‘ (…) que nesta Vila se fez, por decisão camarária, com os entulhos que durante muito tempo iam sendo lançados na continuação do chamado Monte Verde, para se proceder à ligação com a Ribeira Seca, pelo Bandejo, numa rasgada visão de uma ‘estrada marginal.’ Para o litoral/centro e margens da ribeira, em finais da década de cinquenta, havia planos. Nas margens da ribeira (centro) e foz, os Bairros do Curral e da Cova do Milho iam sendo (casa a casa) varridos do mapa. E o local da desejada piscina? Para o arquitecto Nereus Fernandes, em 1960, deveria ser nas Poças. Era o local ideal. Na Ilha conheciam-se duas piscinas do género. A de Ponta Delgada, pioneira, e a da Lagoa, que nesse ano se aproximava do que é hoje. No entanto, para a Câmara, presidida por António Augusto da Mota Moniz, e pelos vereadores Luís Martins Gamboa, José Augusto Costa, José Pereira de Morais e Ventura Rodrigues Pereira, o local ideal seria na ribeira da Cova do Milho. Porque iria estragar as Poças? Provavelmente. Porquê na ribeira? A construir provavelmente no troço da ribeira entre a ponte pequena do Paraíso e a Ponte dos Oito Arcos. O troço atravessava o bairro da Cova de Milho, bairro que, em 1962, já não tinha moradores. Em 1960, ainda lá moravam doze famílias, no ano seguinte, só lá restava uma. Enquanto isso, a Câmara transformava o espaço em Parque Infantil. Inaugurado (faltando obras) em 1965. Seria certamente para valorizar o novo espaço. Antes vergonha da terra, agora sala de visitas da terra. A dois passos do centro da Vila.
No mês de Julho do ano seguinte à inauguração, em 1966, Silva Júnior, jornalista e membro do Círculo dos Amigos da Ribeira Grande, sem revelar o local, mas por certo a pensar na ribeira, como uma das estruturas da futura nova cidade, indicava uma piscina. Em Setembro, a piscina da ribeira conquistaria um adepto de peso. Miguel Silva, professor de natação do Clube Naval de Ponta Delgada, confessou ao Diário dos Açores (de 24 de Setembro) que na Ilha o local certo para uma piscina seria na ribeira (da Ribeira Grande): ‘Em visita que fiz ao local verifiquei que o caudal da ribeira que atravessa o Paraíso Infantil pode abastecer uma piscina.’ A 28, o Correio dos Açores, conquistado pela ideia, titulava o artigo de apoio a ideia: ‘Será na Ribeira Grande a primeira piscina de competição de S. Miguel?’ A dar mais força, enumerava as vantagens para a Ribeira Grande da escolha ribeira: ‘a realizar este belo sonho, contribuiria, em primeiro lugar, para a valorização e progresso da linda vila-cidade, e também para o prestígio de S. Miguel porque, então, seriam possíveis as competições oficiais de natação.’ A que junta mais vantagens: ‘Se o Paraíso Infantil já é (apesar de não estar ainda completo o seu arranjo, o que importa fazer sem desânimos) um regalo para os turistas – e não nos esqueçamos que, aos Domingos, visitam aquele local delicioso muitas pessoas desta cidade e de outros pontos da Ilha – com a construção de uma piscina, a Ribeira Grande daria um passo gigante na senda do seu embelezamento e tornar-se-ia ponto obrigatório para os entusiastas da natação, ficando com a primazia, como se tem verificado noutros sectores, de possuir uma piscina de água doce.’ Na reunião do dia 28, a Câmara responde favoravelmente às sugestões do Correio dos Açores (e do) Diário dos Açores.’ Iria (porém) a Câmara manter a opção pela ribeira?
Ao mesmo tempo que isso se ia passando, a Câmara ia mudando (e radicalmente) as Poças. De 1967 a 1971, no tempo em que era Presidente António Augusto da Mota Moniz, a área das Poças fora de água, foi ampliada para nascente, foram construídos dois novos solários, seis balneários, pelo menos, arrecadações, chuveiros e um terraço sobre os balneários. Dentro da Poça de banhos, o espaço cresceu graças à remoção de pedras à volta e no interior da própria poça de banhos. Tornou-a maior, mais desafogada e mais funda. Entre 1960/1970, ainda no tempo do Presidente de António Augusto ou já no de Amadeu de Frias Coutinho, a Câmara comprou as casas do lado do mar da rua do Castelo. Essa rua, de 1960 a 1974, perdeu metade das casas (de 38 passou a 19) e quase outro tanto de pessoas (de 169 passou a 86). A demolição das casas, deu mais espaço às Poças. A piscina já caberia nas Poças?
Foi nisso que pensaram. Em 1968, a Câmara, mudando de vereadores, mantendo porém o Presidente, põe de lado (ou em stand by?) a piscina da ribeira. Quer agora ver se há espaço nas Poças. Porquê? A ribeira era perigosa. Não há muito, uma cheia levara ao mar o Barco/Dancing. Pondo de parte o factor (real) perigo, seria possível construir ali uma piscina, porém, exigiria a compra de quintais e ‘comer’ algum do espaço já ocupado pelo Parque Infantil. E nas Poças? Como se poderia encaixar uma piscina de 25 X 14/16 metros, uma torre de saltos de 6,5 metros, um poço da torre de cinco de profundidade e um lava-pés de 1,60 nas Poças? Seria possível fazê-lo sem destruir o que já estava feito? E o que se pretendia ainda fazer?
Sem saberem isso ao certo, certo é que, na sessão de 24 de Abril de 1968, a Câmara quis ver se era possível: ‘construir uma piscina no lugar das Poças.’ Repare-se: ‘adaptando se possível for, a piscina natural que ali existe.’ Pretendia ‘ouvir sobre o assunto a opinião de um arquitecto paisagista que brevemente deverá visitar esta Ilha (…).’ Diga-se que (por graves divergências) a Câmara despedira Nereus e contratara o arquitecto paisagista Luís Cunha. Em Maio desse ano, o Padre Edmundo Pacheco, correspondente do Correio dos Açores, informava que a autarquia fora às Poças com Luís Cunha. O que saiu da visita? Antes de dar a sua opinião, suponho, o arquitecto pediu a ‘demolição das casas adjacentes às Poças,’ e pediu uma planta actualizada do da área e das Poças. Em Lisboa, estudando a planta, que entretanto lhe fora enviada, imaginou dois ou três cenários. De volta à Ribeira Grande, foi às Poças acompanhado de novo pela Câmara, e (tudo suposições) expondo lá as hipóteses possíveis, ficou claro que uma piscina com aquelas dimensões só seria possível sacrificando parte do que já fora feito e do que se pretendia fazer. Além disso (continuo a supor) os custos da obra seriam elevados. Implicava ‘rebentar enormes quantidades de pedreiras.’ Os banhistas, além do mais, enquanto se fizesse a obra, estariam impedidos de frequentar as Poças. Sabe-se lá por quanto tempo. Onde fazer então uma piscina? A opção pela ribeira estava fora de questão, e lá em cima? Na Eira? Porque não? Havia bastante espaço. Ficava ao lado das Poças, evitando-se duplicar estruturas. Ao contrário das Poças, sujeita à inclemência do mar, sobretudo no Inverno, na Eira a obra poderia ser feita em qualquer altura do ano. Decisão tomada. Porém, não se avançou de imediato para a obra. Porquê? Talvez porque as obras das Poças ainda estivessem a ser feitas. Nisto, em Maio de 1971, Amadeu cedia o lugar ao genro Fernando Monteiro.
Terreiro da Forca, Cidade da Ribeira Grande
Por: Mário Moura