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O filho que não chegou aos braços

Durante a nossa vida, definimos objetivos que queremos alcançar na vida. Aumentar a família e ter filhos é um dos objetivos que alguns casais se identificam. A relação com o filho imaginado e a sua idealização começam a ser construídas antes do seu nascimento. Imagina-se a vida com ele, como ele será fisicamente e reestrutura-se a dinâmica familiar e os papéis que cada pessoa vai passar a desempenhar. Prepara-se toda a chega de uma pessoa que foi tão carinhosamente desejada. E quando todo este processo é interrompido repentinamente? Fica o vazio, sofrimento e o luto.
A morte de um filho é considerada uma das experiências mais traumáticas que uma pessoa pode experienciar. Os pais, quando idealizam um filho, pensam que, pela lei natural da vida, serão os primeiros a falecer, e é muito doloroso quando é o contrário. Nenhum progenitor nasce preparado para se despedir de um filho. Quando falamos de luto parental, esquecemos que esta perda pode acontecer sob diferentes situações, como por exemplo durante a gestação.
Quando uma mulher fala de uma perda gestacional, normalmente todos ao seu redor ficam sem saber o que dizer. Falar de luto é ainda um tabu na nossa sociedade e pouco sabemos lidar com este assunto. Temos a crença de que quando uma pessoa morre não devemos falar de quem partiu, uma vez que a situação já aconteceu e a pessoa enlutada precisa ultrapassar aquela dor. É como se aquela pessoa nunca tivesse existido e temos de a apagar rapidamente da nossa vida.
Lidar com uma perda gestacional é um dos lutos que ainda temos mais medo de falar e, muitas vezes, é desvalorizado. Ao nosso redor dizem que os pais vão ultrapassar, vão poder ter outros filhos, que nem chegaram a ver o filho e por isso o luto vai ser mais fácil. Que mitos tão graves! Como se um filho fosse substituir outro e que só se ama uma criança a partir do seu nascimento.
Ao tornar este assunto um tabu, há uma mãe e um pai que silenciam a sua dor e o seu processo de luto, pois não é compreendido, valorizado e acabam sozinhos, sem suporte social e familiar para ajudar a caminhar com esta dor tão grande.
E o que diz o silêncio do luto de um filho? Revela uma mulher a lidar com sentimentos de impotência por não ter salvo o seu filho e do seu corpo ter falhado uma das missões mais importantes da sua vida.
Neste silêncio, também não podemos esquecer que há um pai que muitas vezes é esquecido, a fazer o luto pela família e criança que idealizava, mas muitas vezes é desvalorizada a sua dor e perda por se ter desenvolvido a crença na nossa sociedade de que homem não sofre e chora (que já sabemos ser mentira, tal como escrevi num dos meus textos anteriores aqui no jornal).
Com este texto não venho dar dicas ou ferramentas infalíveis para ultrapassar a perda, pois no luto só precisamos de tempo, colo, e empatia e respeito de quem está ao lado. Venho só dar voz a quem sofre em silêncio a perda do seu filho e de um projeto de vida. A perda gestacional ainda é sofrida em silêncio, quer pelo pai e/ou pela mãe, devido à falta de incompreensão e empatia de quem nos rodeia.
A semana passada assinalou-se o dia da Consciencialização da Perda Gestacional e Morte Neonatal.
O meu abraço apertado a quem nunca chegou a abraçar o bebé que imaginou e ainda precisa sofrer em silêncio.

Por: Maria Pereira

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