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A violência doméstica avança assustadoramente. Na europa anualmente, milhares de mulheres morrem

As ações de violência psicológica, sofridas no silêncio dos dias e dos anos, conduzem as vítimas ao desespero, acabando tantas vezes em tragédias maiores… Há um ditado popular que diz: “Entre marido e mulher não metas a colher.” Não é bem assim. Quando nos apercebemos de que num casal há violência, com atitudes repetidas, a única solução é denunciar, sem medos.

É preocupante o aumento da violência doméstica nos países europeus. As estatísticas ultrapassam números inimagináveis de mortes e homicídios em consequência disso, os quais são verdadeiramente aterrorizadores. Infelizmente, não se descortinam soluções à vista para atenuar esta questão que, não raras vezes, atinge dimensões assustadoras.
Evidentemente, quem mata é porque nunca amou a companheira ou vice-versa. A união de duas pessoas (embora desconhecidas) exige respeito e admiração desde o início da relação, e quaisquer que sejam as razões de uma discussão, não poderão nunca passar das palavras à agressão física.
Aí, a mulher ou o homem deve precaver-se e ficar atenta ao que possa surgir daí para a frente. Quando o companheiro proíbe a companheira de se relacionar com os seus antigos amigos, é péssimo. Esse sentimento de posse já é prenúncio de uma relação que não vai resultar.
Ninguém é proprietário da vida dos outros. Pensar que, pela união de dois seres humanos, passam a ser propriedade um do outro, com proibições e outras atitudes, conduz inevitavelmente à violência, com as consequências trágicas que todos nós conhecemos.
À primeira bofetada, a mulher deve impor-se e exigir respeito, não permitindo nunca que esse gesto se repita; caso contrário, surgirão problemas. Por isso, para o bem dos dois, o melhor é separarem-se, pois quem dá bofetadas ou é desequilibrado mental, ou tem problemas mal resolvidos que vêm da sua infância…
Há uma atitude muito usual que leva à violência: os ciúmes. Não se pode viver com alguém que permanentemente esteja sob o signo dos ciúmes, porque acaba por ver o que não existe; acaba por criar fantasmas, conduzindo depois à violência.
Os ciúmes são, muitas vezes, uma questão de insegurança, sentimentos que acabam por adulterar a relação e proporcionar situações graves. Dizer que os ciúmes são fruto do amor é errado. Amor não é possessão, mas conhecimento um do outro, no respeito que deve existir sempre, em todas as ocasiões.
Os seres humanos nascem para serem amados e compreendidos. A relação entre duas pessoas é o aprofundamento de uma viagem em que, sob a base do amor e da compreensão, se vão descobrindo as qualidades e os defeitos: as primeiras exaltam-se; os segundos corrigem-se mutuamente.
Nas relações humanas não devem existir orgulhos mal colocados, nem se deve pensar que um é superior ao outro.
Quando foi da Revolução de Abril, tive o encargo de reconverter 80 mulheres de uma empresa, a “Manutécnica”, para outras profissões.
Com elas aprendi imenso e verifiquei que algumas eram vítimas de uma violência não menos grave: a psicológica. Elas estavam despersonalizadas, não acreditavam nas suas inúmeras capacidades. Os companheiros, em todas as ocasiões, inferiorizavam-nas, criando-lhes uma situação horrível: de medo de viverem, de não servirem para nada!
Tudo isto passado na presença dos filhos e dos amigos! Com a participação delas, recoloquei-lhes o orgulho de serem quem eram; como mulheres e mães, fi-las descobrirem os seus inúmeros talentos.
Vivi intensamente os seus problemas e, juntos, reconstruímos as suas vidas. Os resultados foram maravilhosos. Mas a violência doméstica necessita que nela se reflita e se encontrem as razões destes comportamentos que tanto afligem as sociedades.
Indo ao fulcro desta questão, não podemos deixar de pensar que tudo começa na família: as crianças devem ser educadas de que a mãe, as irmãs, as mulheres em geral devem ser admiradas e amadas. Ações que se devem prolongar nas escolas, em que o papel dos professores é fundamental no desempenho de um método educacional que incuta nos alunos a importância dos seres humanos e o respeito que nos merecem.
As ações de violência psicológica, sofridas no silêncio dos dias e dos anos, conduzem as vítimas ao desespero, acabando tantas vezes em tragédias maiores…
Há um ditado popular que diz: “Entre marido e mulher não metas a colher.” Não é bem assim. Quando nos apercebemos de que num casal há violência, com atitudes repetidas, a única solução é denunciar, sem medos.
Muitas vezes, as vítimas, invadidas pelo terror, não conseguem telefonar e acabam por ser mortas.
Na semana passada, uma jovem foi espancada até à morte. Ela teria se salvado se a vizinha do lado tivesse denunciado a situação, tivesse chamado a polícia.
A denúncia evita que haja situações trágicas e que se percam vidas.
Não podemos dizer que um marido que mata a mulher amou-a. Nunca a amou.
Outros aspetos da violência de que todos os dias temos conhecimento: são os filhos que matam os pais, e vice-versa! Dizem-me, muitas vezes, que é necessário que os casais discutam. Discutir, sim, desde que seja uma discussão calma, em que se resolvam os problemas que envolvem o casal.
Discutir usando a inteligência, o raciocínio e não a emoção. Discutir sem atirar os objetos que estão à mão. Nada resolvem com essas atitudes; antes, pelo contrário, pioram o relacionamento e levam à separação.
O amor enriquece quem dá e quem o recebe.
Para concluir: só com amor e respeito vale a pena duas pessoas se juntarem. Conviver com a pessoa que livremente se escolhe impõe admiração e uma partilha consciente dos deveres que regem as relações humanas.
Denunciar é um dever de todos, especialmente quando sabemos quais os resultados da violência doméstica. O nosso dever é sempre denunciar.
Se o fizermos, evitaremos tantos homicídios que hoje se registam em Portugal e na Europa.

P.S. – Quando estava a terminar esta minha crónica, tomei conhecimento da morte do Professor Doutor Laborinho Lúcio, um ser humano maravilhoso, com espírito de justiça como poucos, inteligente, humanista e amigo do seu amigo.
Como Ministro da Justiça, bem como Ministro da República para os Açores, pautou sempre os seus cargos com profundo sentido humano, procurando ser o mais imparcial nas suas decisões.
Conferencista de grande mérito, defendeu acerrimamente os Direitos Humanos, e sobretudo os das crianças.
Tive a oportunidade de com ele conviver e aprender muito sobre o mundo das crianças. Envolvo num abraço de pesar a sua esposa e filhos.

Por: João Carlos Abreu

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