Esta semana foi mais uma extraordinária façanha do executivo nacional. Orçamento do Estado aprovado, Lei da Nacionalidade aprovada, cada um dos documentos passou com quem esteve disponível para o fazer. No primeiro caso, aprovado com a abstenção dos socialistas. Na segunda menção, foi o Chega que deu a mão a Luís Montenegro. Tanto num caso como no outro, os sociais-democratas saem por cima, encaminhando os maiores partidos da oposição para a salvação de documentos que terão repercussões várias no futuro próximo e mais longínquo do país. Com a campanha para as presidenciais na estrada, o clímax foi a campanha de André Ventura com cartazes alusivos ao Bangladesh e as referências a Salazar a triplicar.
O PS continua a lamber as feridas de um sentido afastamento dos portugueses, enquanto está para lá de evidente que o Chega não tem quadros políticos, para além de alguns energúmenos e igual número de oportunistas. Passaram a ser, no panorama político nacional (e regional) os idiotas úteis, especialistas em entradas de leão e saídas de sendeiro. À mais alta exigência, segue-se o estrebuchar próprio de quem nada conseguiu. O papel da direita mais radical, para além dos pregões, passou a ser meramente cerimonial. À mesma velocidade a que são feitas declarações aberrantes, xenófobas ou levianamente racistas, os eleitos do Chega são acusados criminalmente de uma panóplia de crimes sem fim, próprios de cuidadosos ladrões de galinhas e de artistas maquilhados de representantes do povo.
Os excessos de linguagem recentes, para além de terem o objetivo de manter um candidato à presidência da República nos órgãos de comunicação social, têm ajudado também a esquecer as trinta câmaras municipais que ficaram por presidir. Tudo isto tem servido na perfeição, ao executivo, para manter a governação em águas calmas. Preservando a sua posição estratégica de partido de poder, o PSD corre o risco de levar a legislatura até ao fim, enquanto se assegura difícil uma vitória socialista nas presidenciais, apesar de o candidato desta área política ser, eventualmente, o melhor candidato ao lugar. Escrevi há anos, que o país precisava mais de Pedro Passos Coelho e António José Seguro, do que de Rui Rio e António Costa, numa fase da vida nacional em que o território tinha batido no fundo, e se começava a levantar, após a bancarrota de José Sócrates e a consequente intervenção externa. Contra o seu partido, que tinha levado o país ao charco, Seguro foi capaz de entender o tempo histórico do momento, e assumir para si uma quota da responsabilidade do que se passou a partir de 2011. Infelizmente foi dos únicos. E foi traído por isso.
É nestas condições que se chega à conclusão de que isto pode não ser bom. No país e na região, e especialmente nesta última, o excesso de confiança na ação executiva leva a excessos. Não obstante o trabalho de recuperação que o país tem empreendido, há gente à espera de apoios devidos há anos. O Fundo Ambiental é uma catástrofe. O apoio regional à compra de automóveis elétricos está atrasado mais de um ano, unicamente por falta de liquidez dos cofres das finanças públicas regionais. Aos anúncios, segue-se um vazio de ação. A vice-presidência não existe, a não ser para manter os centristas no governo. O PPM não governa o Corvo, e em boa verdade não governa nada, a não ser alguma semântica do debate parlamentar. Os diretores regionais estão desaparecidos, sem orçamento, sem aptidão prática e muitos, sabemos agora, sem competência.
A resposta a um requerimento feito à administração regional, cujo despacho deveria ser feito num dia, demora semanas a chegar. O marasmo tomou conta da governação, porque não há pressão para a boa governança. Em Sant’Ana, sabe-se que o PS não está preparado para chegar ao palácio tão cedo. Não vale a pena acelerar se não vem ninguém atrás. Assim não se reforma, não se governa, não se olha a longo prazo. Na região e no país, isso só prejudica as populações. À espera que a ambição regresse e o atavismo volte a hibernar.
Por: Fernando Marta