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Os Estudantes, as Escolas e a Universidade

1.A globalização está em voga, apesar da surgente intolerância das políticas, supostamente duradoura, pois também as ideologias, tal como os homens, nascem, crescem e prosperam, antes do envelhecimento e da morte. No entanto, a globalização acumula erros, e sobretudo exageros, por exemplo, a estranha convicção de que tudo o que é diferente é que é bom, de que tudo o que é de fora é que é bom. Na deriva da novidade, mantenhamos a serenidade. Nos Açores, o êxito da Universidade depende, antes de mais, da capacidade de fixação do estudante açoriano. Mas, há cerca de 20 anos, quando exercia funções de Reitor, a maioria dos alunos açorianos, e muitos dos melhores, optava por estudar fora, essencialmente no continente português. Agora, não acompanho ao pormenor o processo de colocação de estudantes no ensino superior, mas creio que a realidade será idêntica.
Para ser credível, para ter qualidade, à Universidade não basta ter bons professores, e nunca saberemos se todos o são, isto é, bons. Para ser credível, para ter qualidade, à Universidade importa ter bons estudantes. E só os teremos se fixarmos devidamente o estudante açoriano. E porquê? Porque, após a multiplicação das instituições de ensino superior e a redução de candidatos neste Outono demográfico, já não sobra muitos alunos para derramar pelas periferias. Por isso, se excetuarmos um punhado de exceções, a generalidade dos bons estudantes de fora fica lá, não vem para cá. Essencialmente, só cá chegam os forasteiros pior classificados, que não conseguem vaga nos grandes centros e nas grandes universidades, presumivelmente melhores do que os pequenos centros e as pequenas universidades.
E o pior que pode acontecer ao ensino superior em Portugal é ficar cindido entre dois tipos de universidades: as universidades para os bons alunos e as universidades para os maus alunos. E a nossa tragédia maior é se a Universidade dos Açores ficar no grupo das universidades dos maus alunos, incapazes de inteligentemente inquirir os professores, que incorrerão no marasmo, em transição para o atraso.
Eu, quando era jovem, também queria estudar no continente. Então, por que razão vim da Terceira para S. Miguel, em vez de zarpar para Lisboa, Coimbra ou Porto? Simplesmente, porque, à data, estudar nos Açores era mais barato. E ainda será? Não sei, mas tenho dúvidas!
Este dilema não pode ser solucionado somente pela Universidade. A esta equação, é preciso juntar também o Governo. E, neste caso, é preciso obrigar o Governo a inverter a marcha. É verdade que, a pouco e pouco, os governos dos Açores vêm incentivando o ingresso de mais estudantes no ensino superior. Não chega! Além disso, com maior regularidade e com maior determinação, os governos dos Açores têm de sobretudo incentivar o ingresso de mais estudantes na Universidade dos Açores. E isso ainda não aconteceu, ainda não acontece. Nestas circunstâncias, como é que queremos que os governos da República tratem a Universidade dos Açores de modo diferenciado, porque justo, se os próprios governos dos Açores não tratam a Universidade dos Açores de modo diferenciado, porque justo?

2. Sobre estudantes, importa muito a quantidade. Na verdade, a abundância de estudantes denota a contínua democratização do ensino, suscita a crescente qualificação das gentes e prenuncia o império da riqueza contra a pobreza, do desenvolvimento contra o atraso, da igualdade contra a desigualdade. Sobre estudantes, importa muitíssimo a qualidade. Por isso, por mais que desagrade aos mandantes académicos – coisa que também que me desagradava a mim quando o era – tudo aconselha à adoção de provas de seleção rigorosas para ingresso no ensino superior, com a realização de mais exames e com maior peso na avaliação final, para premiar o mérito.
Esta é a única forma de às universidades acederem alunos bem preparados, coisa por vezes rara nos tempos que correm. Uma consequência do relativo caos que alastra nos ensinos básico e secundário. Uma decorrência da permissividade dos conteúdos, dos métodos e das atitudes. Uma evidência da averiguação dos saberes no termo da escolaridade obrigatória, muito aquém de todos os mínimos, inclusivamente da velha e básica trilogia do ler, escrever e contar.
E de quem é a culpa? Bem, é de todos! Da tutela política, apenas solícita na apresentação pública de boas estatísticas, sem a menor correspondência na aquisição de antigos conhecimentos ou de novas competências. Dos pais e encarregados de educação, por se valerem da condição de eleitores para forçar o aproveitamento e a distinção escolares dos filhos, mesmo que de todo enganadores. Dos professores, que facilitam na avaliação dos instruendos, porque portadores de qualificações sempre questionáveis, porque tementes da pressão dos mandantes e das famílias. E tudo expresso na redução e no facilitismo dos programas, contra um axioma bastas vezes proclamado: “quando se ensina menos, não se aprende mais”.
A inversão dos procedimentos exige uma força hercúlea, dificilmente mobilizável. Com efeito, obriga ao enfrentamento do direito à sacrossanta inclusão de todos, admissível na escolaridade obrigatória, até por obra de misericórdia, mesmo que em prejuízo dos mais capazes, inadmissível no ensino superior, se à custa do rigor e da competitividade, ingredientes indissociáveis do sucesso dos indivíduos e das coletividades. E jamais haverá justiça, se claudicarmos no esforço, se transigirmos na exigência.

3.Contra todos os pessimismos, no futuro, há sempre uma possibilidade de garantir maior êxito à Universidade dos Açores. Para tanto, basta a valorização da nossa geografia de eleição. Na verdade, se o isolamento é uma contrariedade, que suscita contração, a mundividência é uma oportunidade, que suscita expansão. Por outras palavras, a instituição tem de tirar partido do mar, a última fronteira da Humanidade. E, ao contrário de antigamente, o mar português já não é todo o Atlântico, quase todo o Índico, nem sequer partes do Pacífico. O mar português de agora é o mar das ilhas, sobretudo o incomensurável mar dos Açores. E, na ciência, o mar não é só oceanografia, biologia e ambiente, ele é também história, literatura e muita política.
E da devida exploração da nossa geografia, brotarão novas áreas de docência e de investigação, sem par na vulgaridade do cardápio de cursos e projetos internos e externos, um fator de atratividade e de distinção. Então, sim, aos Açores afluirão muitos mais forasteiros de todas as latitudes, que alavancarão o prestígio da Universidade.
E, à Universidade, a todas as universidades, ainda afluiriam mais alunos, tanto locais como forasteiros, por via da requerida, da premente e da justa extinção das propinas nos cursos de licenciatura. Eis aqui um decisivo contributo para a reclamada inclusão de todos sem a perniciosa alienação do mérito.

P.S.: A conversão da esquerda, e não somente a mais radical, em porta-estandarte das causas mais esotéricas e das minorias mais extravagantes entrega à direita, e particularmente à mais radical, a defesa do desprezado povo comum a braços com o dilema da sobrevivência. Isto não passaria de um simples pormenor, caso não constituísse a maior ameaça à Democracia.
Por_ Avelino de Freitas Meneses

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