Correio dos Açores – Qual é o significado do Dia de Todos os Santos para a Igreja?
Padre Norberto Brum (pároco de Nossa Senhora de Fátima) – O Dia de Todos os Santos é sobretudo a celebração da santidade de Deus, uma santidade que acolhe sem julgar e que ama sem condenar, uma santidade que nos possibilita Deus. Celebrámos todos aqueles e aquelas, conhecidos ou desconhecidos, que se aventuraram por viver no espírito das bem-aventuranças; aqueles e aquelas, de todos os povos, línguas e religiões que souberam e sabem viver na sua humanidade a santidade do próprio Deus, aqueles e aquelas que souberam humanizar-se de uma forma tão profunda e que pela sua humanidade colocaram a manifesto a santidade do próprio Deus.
Não se trata apenas da celebração dos que estão na Glória de Deus, mas também daqueles que continuam na terra a viver identificados com Deus. É o dia por excelência da grandeza de Deus na humanidade dos homens.
Podia dizer que a celebração de Todos os Santos é a celebração de todos os filhos de Deus, de todos os amados e queridos de Deus; é a celebração da comunhão universal, da comunhão e da unidade entre aqueles que vivem na eternidade de Deus e os que vivem na humanidade dos homens, porque os santos não são apenas os que estão mortos, quer dizer, os que já não vivem nesta terra, mas são também aqueles que estão vivos ao nosso lado, como dizia o Papa Francisco, “os Santos ao lado da nossa porta”.
Qual a mensagem mais importante
a transmitir aos fiéis nesta data?
A Mensagem mais importante do Dia de Todos os Santos é sobretudo fazer-nos saber, e sentir, que é possível vivermos a santidade de Deus no nosso quotidiano, que é possível vivermos a partir do espírito das bem-aventuranças que Jesus proclamou, que é possível ser-se feliz, uma felicidade que não acontece apenas e só depois da morte, mas que acontece no aqui agora das nossas vidas; a santidade que não é algo que se adquire após morte, pois ela não é nenhum diploma de mérito nem nenhuma medalha de bom comportamento ou um prémio para os bons, para aqueles que viveram como uns “santinhos”, abstraídos deste mundo e só e apenas com os olhos presos ao céu. A Santidade é sobretudo um caminho que se faz, uma luta quotidiana.
Santo não é o que não faz pecados, mas é aquele que reconhece, por um lado a sua fragilidade e por outro a grandeza do amor, do perdão, da misericórdia e da compaixão de Deus. É porque não há santo sem passado nem pecador sem futuro. Ao fim ao cabo a grande mensagem é percebermos que é possível viver-se Deus, viver-se em Deus e viver-se como Deus.
Pode clarificar a diferença entre o Dia de Todos os Santos e o Dia dos Fiéis Defuntos?
O Dia de Todos os Santos e o Dia dos Fiéis Defuntos são duas realidades diferentes, duas celebrações diferentes, embora por vezes sejam confundidas uma com a outra, sobretudo pelo facto do Dia de Todos os Santos ser dia Santo, ser feriado e assim termos mais facilidade em visitar os cemitérios. Podemos dizer que o Dia de Todos os Santos celebra o triunfo de Deus sobre o mal, sobre o pecado e sobre a própria morte, celebrando a nossa filiação amorosa, a possibilidade de vivermos de Deus e em Deus sabendo que para Ele caminhamos: não vimos no nada e não caminhamos para o nada. Vimos de Deus, em Deus caminhamos e para Deus regressamos.
No Dia dos Fiéis Defuntos fazemos memória de todos aqueles que já partiram, todos aqueles que já deixaram de viver nesta humanidade. Se no Dia de Todos os Santos somos chamados a glorificar, a louvar este Deus pela santidade dos seus filhos, no Dia dos Fiéis Defuntos somos chamados a interceder por aqueles que já partiram para que alcancem a glória do Reino de Deus. Não se trata de um dia de mortos nem celebrarmos a morte, mas um dia para tomarmos consciência da nossa condição de finitos, de que não somos eternos humanamente; somos eternos com Deus e em Deus mas não humanamente, não neste mundo.
Como descreve a carga emocional e espiritual que o ritual de visitar o cemitério neste dia representa para os fiéis?
O Dia dos Fiéis defuntos é sobretudo um dia de saudade, de memórias, de histórias e vivências e a visita aos cemitérios introduz-nos neste grande livro que é o mistério da vida, da vida que se transforma, que se renova.
Certamente que não precisaríamos de um dia específico para fazer memória, lembrança e recordação dos nossos que partiram, no entanto, este dia acentua e amplia esta memória. Quando estamos perante uma sepultura ou um jazigo no qual repousam os restos mortais dos nossos, é normal que todas as memórias e vivências partilhadas com os nossos venham ao de cima. E experimentamos a saudade e a saudade não porque estamos separados, mas porque um dia estivemos juntos, a saudade não porque estamos distantes, mas porque um dia partilhamos a proximidade, partilhamos afectos, palavras, sorrisos, abraços, porque um dia sentamo-nos à mesma mesa e experimentamos a intimidade do coração. Mas mais do que derramar lágrimas ou depositar flores importa recuperar o bom e o belo que experimentamos com aqueles que já partiram e fazermos ação de graças, fazermos agradecimento porque um dia vivemos e experimentámos esta humanidade juntos.
Vivemos de sentimentos, daí que precisamos tocar, ver, cheirar, abraçar, sentir o outro bem perto de nós e a morte separa-nos destas realidades, por isso sentimos ausência física, mas no coração somos sempre uma presença.
Se sentimos saudade, se chorarmos, se trazemos flores é porque amamos e amamos não só no tempo humano, mas também no tempo divino.
Pode nos falar um pouco sobre a tradição do pão-por-Deus?
O pão-por-Deus é essencialmente partilha. A sua origem remonta ao século XV e era sobretudo uma ocasião e um momento propício de pedir-se pão ou outros alimentos, por parte das famílias mais pobres e associando-se este pedido ao culto dos mortos: pedia-se pão e alimentos para mitigar a fome pelas almas, por aqueles que já haviam partido. Era, portanto, uma forma de mitigar a fome, quebrar a pobreza, e era uma partilha feita “pelas almas”, uma partilha que era pedida por Deus: “pão-por-Deus”.
Com o passar dos anos e com a melhoria das condições de vida, o pão-por-Deus foi ganhando outros contornos muito também graças à influência de outras tradições, nomeadamente a do Halloween. Enquanto na sua génese se pedia pão para mitigar a fome, actualmente esta dádiva do pão-por-Deus foi associada à partilha de doces e de guloseimas. Quando ainda existem muitas necessidades, quando ainda a fome impera em muitas famílias, é pena que se partilhe guloseimas em vez do essencial, em vez do pão, não apenas do pão material, mas do pão do acolhimento, do pão da escuta, do pão do acompanhamento, do pão da Esperança.
Cada vez mais o pão-por-Deus é uma necessidade, o pão-por-Deus é um imperativo e sobretudo é imperativo retomarmos a cultura da vida, da alegria, da Esperança e nunca do medo do terror e do assustar. Estamos a celebrar a vida, e o pão-por-Deus é pela vida.
De que maneira o Dia de Todos os Santos pode fortalecer a comunidade e a transmissão de valores entre diferentes gerações?
O grande desafio que nos é colocado, sobretudo enquanto Igreja, não é apenas o de anunciarmos a mensagem e a boa nova de Jesus Cristo, de celebrarmos os seus sacramentos e os seus sinais, mas é sobretudo, levarmos a que todos vivam o próprio Deus e em Deus, levarmos a viver identificados com este Deus-Amor e esta identificação é a santidade, que não é beatice, que não é andarmos todo o dia fechados numa igreja o metidos numa redoma, mas é viver todas as realidades partindo do evangelho de Jesus; Então a celebração de Todos os Santos deve desafiar-nos a viver, em primeiro lugar a alegria da filiação divina, de sabermos e de sermos filhos de Deus, sabermos que temos um Deus bom, santo, misericordioso, um Deus que independentemente das nossas fragilidades e misérias não deixa de nos amar, não se ausenta, mas permanece sempre em nós.
A celebração que Todos os Santos deve sobretudo provocar a nossa vida e levar-nos a viver este caminho de Esperança, este caminho de evangelho, de bem-aventurança sabendo que a santidade não é um processo canónico, que não é um reconhecimento apenas por parte da igreja, mas é sobretudo a vivência de Deus todos os dias, mesmo com as nossas limitações e inquietações, mesmo com os nossos erros e falhas. O Dia de Todos os Santos faz-nos pensar que o sou chamado a ser feliz e feliz aqui e agora sabendo que Deus concorre para esta minha felicidade. É Ele que me santifica, é ele que nos santifica pela força do Espírito Santo e não um simples, ou complicado processo junto da Congregação para a Causa dos Santos, porque este até é o de menos importância, porque só Deus é que santifica e não um documento, mesmo que assinado pelo Papa. A santidade não é um reconhecimento, um diploma ou um troféu, mas sim um estilo de vida.
José Henrique Andrade
