O documentário “Domingo a Domingo: As Mulheres do Espírito Santo da Calheta” estreou no Domingo no Centro Social e Recreativo dos Biscoitos, marcando o início de uma série de exibições gratuitas em todas as freguesias do concelho da Calheta, que decorrem até 9 de Novembro. A curta-metragem, com 12 minutos de duração, homenageia o papel essencial das mulheres nas festividades do Divino Espírito Santo e revela o trabalho invisível que assegura a continuidade de uma das tradições mais enraizadas da ilha de São Jorge.
Realizado por Liliana Janeiro e editado por Kukka Harvilahti, o filme integra o projecto ‘A Costela de Lilith’ e foi produzido com o apoio do Governo dos Açores, da Direcção Regional das Comunidades, da Direcção Regional da Juventude e da Câmara Municipal da Calheta. A produção executiva esteve a cargo de Sandra Silva, Joana Silva e Janete Chaves.
O documentário destaca o trabalho invisível e fundamental das mulheres que, ano após ano, asseguram a continuidade das celebrações, desde a preparação das tradicionais sopas até à organização dos cortejos. “Foi inspirador ver o labor das mulheres. Só posso pensar no amor e na devoção, e esta dedicação tem um lugar único na celebração”, afirma Liliana Janeiro, que se inspirou na figura da Rainha Santa Isabel, introdutora do culto do Divino Espírito Santo em Portugal no século XIV. “O seu trabalho não é ilhar; sente-se as ondas deste labor nas rochas basálticas da ilha de São Jorge. Há uma mistura de linguagens entre o sagrado, o feminino e o território que me tocou profundamente.”
A produção do filme envolveu uma recolha intensiva de testemunhos durante dez dias de festividades. Janete Chaves, uma das produtoras executivas, descreve a experiência como “extremamente reveladora e emocionante”. Embora natural da ilha, confessa ter descoberto “todo um fenómeno bem organizado, de devoção e fé”, onde se incluem “rituais que são as saborosas e inigualáveis Sopas do Espírito Santo de São Jorge”. Compara os corpos em movimento, “bem organizadinhos, calmos”, de mulheres, homens e crianças, e garante ter-se “sentido parte em comunhão com todo o povo”.
Para a também intérprete, este trabalho é de vital importância: “Existem tradições que são repetidas, repetidas, sem noção aqui na ilha, mas que vale a pena registar para não se perderem. Fiz parte de várias, mas esta é diferente: tem lindos coros à fogueira, onde se reza e canta com devoção, alegria, emoção e fé. Fui assaltada por este sentido de pertença, de responsabilidade e de urgência em manter estas tradições, não só vivas, mas acima de tudo eternas.”
Também da produção executiva, Sandra Silva destaca o orgulho sentido ao ver as mulheres assumirem papéis centrais nas festividades: “Saíram dos bastidores para o palco principal e hoje são maioritariamente Mordomas. Isso é de louvar, por toda a sua força e resiliência, ao longo de várias gerações.” Sandra Silva conclui que o concelho da Calheta se distingue por ter “um imenso sentido de irmandade e isso é algo que se sente.”
A resiliência das mulheres impressionou a equipa internacional. A directora de fotografia, Kukka Harvilahti, da Finlândia, expressa a sua emoção: “Fiquei impressionada com a força da comunidade e a resiliência das mulheres. Como dedicaram tempo das suas vidas agitadas, dormindo apenas algumas horas por noite, e ainda assim encontraram tempo e carinho para nos mostrar o que estavam a fazer. Senti um abraço quente do povo da Calheta.”
O documentário destaca também a perspectiva de mulheres migrantes, que reinterpretam o Espírito Santo a partir das suas vivências, unindo diferentes geografias e experiências femininas em torno da espiritualidade e da pertença.
Para além de um registo documental, ‘Domingo a Domingo’ é um gesto de reconhecimento e eternização da força feminina que sustenta uma das tradições mais emblemáticas dos Açores, uma tradição enraizada na história de Portugal e perpetuada, geração após geração, pelas mãos das mordomas da Calheta.
