“Transportes Marítimos nos Açores” é a mais recente obra do investigador Fernando Pimentel. As vivências no Corvo e o interesse pela temática naval despertaram a sua curiosidade e impulsionaram o aprofundamento de pesquisa sobre os diversos navios que marcaram a história do arquipélago. Crítico do actual modelo de transporte de mercadorias e passageiros, o autor sublinha que “os transportes marítimos foram, sem dúvida, um marco fundamental na nossa identidade cultural e social”.
A história naval do arquipélago é o tema central do novo livro de Fernando Pimentel, intitulado “Transportes Marítimos nos Açores”. A ideia de escrever a obra surgiu de uma combinação de paixão pessoal e oportunidade literária:
“A ideia de escrever o livro “Transportes Marítimos nos Açores” surgiu depois de começar a publicar nas redes sociais pequenos textos e fotos sobre os vários navios que fizeram história no nosso arquipélago e também pelo facto de sempre ter gostado de navios”.
A ligação já vem desde pequeno, quando começou a viajar frequentemente no ‘Ponta Delgada’, em viagens entre o Corvo e a Horta, com apenas nove anos. Para o autor, isso “fomentou o meu gosto pelos barcos”.
“Viver numa ilha tão pequena onde imperou o isolamento durante muito tempo, o dia da chegada de algum navio (fosse de passageiros ou de carga) era sempre motivo de regozijo. Tudo isto fez com que ficasse com grande fascínio por navios”.
Para Fernando, uma das lembranças mais marcantes que motivou o desenvolvimento da obra prende-se com primeira viagem a bordo do respectivo navio:
“Um dos episódios mais marcantes, mesmo ainda antes de começar a escrever o livro, foi a minha primeira viagem no ‘Ponta Delgada’ com apenas nove anos. Um miúdo que nunca tinha saído da ilha do Corvo, fazer uma viagem sozinho num navio entre o Corvo e a Horta, onde tudo era novidade, marcou-me para sempre. À medida que ia escrevendo, lembrava-me frequentemente desta viagem”.
O deslumbramento pelo mar e pelos navios levou-o a preencher uma lacuna existente na literatura açoriana sobre a temática:
“Este fascínio pelos navios e os muito poucos livros que encontrei disponíveis no mercado açoriano fez com que tivesse tido a ideia de escrever uma obra que englobasse os vários tipos de navios que navegaram nos nossos mares: os de passageiros, os cargueiros, os mistos e também os de cabotagem insular. Uma obra que descrevesse ao pormenor os navios mais emblemáticos que por cá navegaram, como é o caso do ‘Carvalho Araújo’, ‘Funchal’, ‘Ponta Delgada’ e ‘Lima’, entre outros. A cabotagem insular também não foi esquecida e embarcações como o ‘Terra Alta’, a ‘Espalamaca’ e o ‘Baía dos Anjos’, entre outros”. Acrescenta ainda que o livro está também “profusamente ilustrado de fotos de quase todos os navios descritos”.
A pesquisa para o livro não foi tarefa fácil, sobretudo devido à escassez de fontes. “As fontes para escrever a obra foram a minha maior dificuldade. Recorri aos poucos livros que encontrei sobre esta temática, contactei entidades através de emails e de telefone, obtendo informações de pessoas ligadas a vários tipos de embarcações. Recorri também às várias Bibliotecas Públicas dos Açores”, afirma o escritor.
Fernando Pimentel também relembra momentos históricos importantes na evolução da navegação nos Açores.
“A formação da Empresa Insulana em 1871 penso que foi o grande passo para o desenvolvimento da navegação marítima nos Açores”.
Para o autor, os transportes marítimos tiveram desde sempre um impacto cultural e social profundo:
“Os transportes marítimos foram sem dúvida um marco importante na nossa entidade cultural e social. Abriram-nos novos horizontes. De uma região isolada, passamos gradualmente a ser conhecidos. Gradualmente o comércio e a indústria começaram a desenvolver-se. As ilhas passaram também a estar ‘unidas’. Tudo mudou para melhor”.
No entanto, a valorização do património marítimo continua a ser um desafio: “Infelizmente penso que o nosso património marítimo não está devidamente valorizado. Com excepção da ilha do Pico, muito pouco está sendo feito, mesmo nesta ilha temos o exemplo da ‘Espalamaca’, uma embarcação marcante para as ilhas do Faial e do Pico e que incompreensivelmente depois de obras de melhoria e de remodelações está actualmente ao abandono”.
O autor defende ainda uma revisão do actual sistema de transportes:
“Na minha modesta opinião, há que rever o actual sistema de transportes marítimos a nível de carga e de passageiros. A nível de carga é necessário estudar uma solução que sirva melhor as ilhas mais pequenas. A nível de passageiros, acho inadmissível não haver ligações entre as nove ilhas, principalmente durante o Verão”.
Fernando Pimentel nasceu na Horta, embora toda a sua família seja natural do Corvo. Com apenas nove anos, mudou-se para o Faial para prosseguir os estudos e, em 1990, regressou definitivamente ao Corvo, onde ingressou na Portugal Telecom como electrotécnico. Grande parte da sua vida também foi dedicada à política, tendo sido Presidente da Assembleia e da Câmara Municipal do Corvo. Além do percurso político, Fernando dedicou-se a várias causas sociais, tendo fundado a Cáritas no Corvo, sido Presidente da Comissão de Protecção de Jovens em Risco e colaborador da Liga dos Amigos dos Doentes dos Açores.
A nível literário, o autor já conta com oito obras publicadas, centradas nas memórias e tradições dos Açores em geral, e do Corvo em particular.
José Henrique Andrade