Hoje, 6 de novembro, assinala-se o nascimento de Sophia de Mello Breyner Andresen (1919–2004), um dos maiores vultos da literatura portuguesa e a primeira mulher vencedora do prémio Camões, em 1999. A sua escrita exaltou valores como a dignidade humana, o conhecimento e a liberdade.
A propósito de liberdade, trago-vos alguns retalhos da história de Thomas Fuller (c. 1710–1790), um homem cuja vida, embora marcada pela escravidão, revelou um talento matemático admirável. Era também conhecido por “Tom Negro” ou a “Calculadora humana da Virgínia” e notabilizou-se por resolver mentalmente problemas matemáticos não triviais. A sua incrível habilidade de calcular foi usada como prova de que os negros escravizados eram iguais aos brancos em inteligência, o que fomentou sérias discussões pró-abolicionistas.
Thomas Fuller nasceu por volta de 1710 na África Ocidental, algures entre a atual Libéria e o Benin. Pouco se sabe sobre os seus primeiros anos de vida, mas as fontes históricas indicam que foi capturado ainda adolescente e levado à força para a Virgínia, nas então colónias britânicas da América do Norte. Tinha apenas 14 anos quando foi vendido como escravo, juntamente com muitos dos seus compatriotas, para trabalhar em plantações. A sua morte foi registada no jornal Columbian Centinel, que publicou o seu obituário em 29 de dezembro de 1790 (ver imagem).
Thomas foi comprado pelo casal Presley e Elizabeth Cox, proprietários de uma quinta com cerca de um quilómetro quadrado situada próximo da atual cidade de Alexandria, na Virgínia. Permaneceu ao serviço da família durante toda a sua vida. Tanto Thomas como os seus senhores eram analfabetos. Ao que parece, Elizabeth e o marido Presley valorizavam o escravo Thomas e nunca o venderam, razão pela qual o levou a expressar gratidão aos seus donos. Segundo relatos da época, aprendeu sozinho as noções básicas de contagem. Contava primeiro até dez e quando conseguiu chegar a cem, considerou-se, com humor, “um sujeito muito inteligente”.
A sua vida foi marcada por trabalho árduo na quinta dos seus senhores. Sem qualquer acesso à educação formal, Thomas nunca aprendeu a ler ou a escrever em inglês e foi completamente excluído dos circuitos do saber, privilégio quase exclusivo dos homens brancos livres. No entanto, foi precisamente neste contexto de exclusão e opressão que Thomas Fuller começou a revelar a sua genialidade.
Desenvolveu sozinho uma extraordinária capacidade de cálculo mental. Ao longo da vida, refinou esta aptidão, transformando-a num verdadeiro talento aritmético que deixava todos os que o conheciam absolutamente fascinados. Na verdade, Thomas impressionou os estudiosos da época com a realização de cálculos mentais de forma muito rápida. Um autêntico prodígio que resolveu problemas complicados muito mais depressa do que homens com formação académica, chegando mesmo a corrigi-los.
Foi apenas nas últimas décadas da sua vida que o talento de Thomas começou a ganhar notoriedade. O médico e intelectual norte-americano Dr. Benjamin Rush (1746–1813), uma das figuras mais proeminentes da ciência e do pensamento político da época, ficou profundamente impressionado com as capacidades do escravo e tratou de documentar e divulgar as suas proezas. Em 1788, publicou um relatório detalhado sobre a sua aptidão matemática na revista American Museum, ou Universal Magazine, despertando o interesse de intelectuais e abolicionistas.
Um dos episódios mais conhecidos da vida de Thomas relata a visita de dois quacres (membros da Sociedade Religiosa dos Amigos) provenientes da Pensilvânia, que decidiram testar a inteligência de Thomas com uma série de problemas aritméticos. Quando lhe perguntaram quantos segundos existem em um ano e meio, Thomas respondeu rapidamente: 47 304 000. Vejamos como os cálculos poderiam ser feitos. Admitindo um ano comum com 365 dias, sabemos que um dia tem 24 horas, que uma hora tem 60 minutos e um minuto tem 60 segundos. Assim, um ano tem 31 536 000 segundos, resultado de 365 × 24 × 60 × 60. Agora, adicionando a metade desse valor (15 768 000) com 31 536 000 obtemos o valor indicado por Thomas em 120 segundos de intenso cálculo mental. Perfeito!
Questionado sobre quantos segundos viveu um homem com 70 anos, 17 dias e 12 horas, respondeu em um minuto e meio: 2 210 500 800 segundos. Um dos visitantes contestou o valor por o considerar demasiado elevado, ao que Thomas prontamente explicou que tinha incluído no cálculo os anos bissextos. Todos os problemas propostos foram resolvidos em poucos minutos, de cabeça e sem recurso a qualquer tipo de instrumento de escrita.
Noutra ocasião, quando um interlocutor lamentou que Thomas nunca tivesse recebido uma educação formal, o escravo respondeu com ironia e sabedoria: “Muitos homens instruídos são grandes tolos.”
A sua capacidade de cálculo não se limitava a fazer contas sobre o tempo. Também era capaz de exprimir uma distância imensamente grande, como por exemplo o diâmetro da órbita da Terra (cerca de 300 milhões de quilómetros) em varas, jardas, pés e polegadas, unidades do sistema métrico imperial usado nos Estados Unidos.
Outra façanha extraordinária era a capacidade de continuar um cálculo após ter sido interrompido. De facto, Thomas era capaz de parar um cálculo, dialogar sobre um assunto qualquer durante algum tempo, e retomar os seus cálculos onde havia parado. Era também capaz de indicar os passos intermédios que havia feito para chegar ao resultado pretendido.
Embora o cálculo mental possa ser treinado e existam métodos que podem fazer com que qualquer pessoa melhore o seu desempenho, efetuar cálculos com a precisão, rapidez e extensão dos números que Thomas fazia, está ao alcance de muito poucos. Thomas realizava cálculos mentais mais depressa do que a maioria das pessoas da sua época com a tecnologia de então: lápis e papel.
As destrezas matemáticas de Thomas Fuller tiveram um impacto significativo no debate intelectual da época, especialmente no movimento abolicionista. Os defensores do fim da escravidão utilizaram o seu exemplo para demonstrar que os africanos escravizados eram tão intelectualmente capazes quanto qualquer europeu, e que a escravidão não apenas violava os direitos humanos mais básicos, como também desperdiçava talentos e potencial humano incalculáveis.
O notável caso de Thomas Fuller ajudou a desconstruir a narrativa racista que, em muitos círculos da época, sustentava a ideia de uma inferioridade intelectual dos povos africanos. A sua história provou que a inteligência não é determinada pela cor da pele, pelo estatuto social ou pelo acesso à educação formal e que, mesmo nas circunstâncias mais adversas, o intelecto humano pode florescer com uma força extraordinária.
Thomas Fuller morreu em 1790, com cerca de 80 anos, sem nunca ter deixado a quinta onde viveu e trabalhou como escravo. Pouco depois da sua morte, a sua história continuava a ser contada e estudada, tanto nos Estados Unidos como na Europa. Alguns estudiosos modernos, como William F. Mugleston, sugeriram que Thomas poderia ter tido uma forma de síndrome de sábio, dada a sua impressionante capacidade aritmética. No entanto, outros investigadores, como John Fauvel e Paulus Gerdes, rejeitaram essa hipótese, salientando a existência de uma rica tradição de cálculo mental entre povos africanos analfabetos e defendendo que não há provas circunstanciais de que Thomas tivesse um alto quociente de inteligência.
Independentemente das explicações científicas, o legado de Thomas Fuller permanece como um símbolo poderoso da resiliência humana. A sua história convida-nos a repensar a forma como entendemos o talento, a inteligência e as oportunidades. Fuller viveu escravo, mas o seu pensamento foi livre e essa liberdade interior transformou-o num exemplo intemporal do poder do espírito humano.
Até à próxima, com outra história que nos volte a surpreender!
Por: Maria do Carmo Martins