Encontra-se concluída a primeira fase do projecto ExTRAP “ExploratorystudyofTephra Records in Azores Peatlands”, que visa explorar o potencial das turfeiras como arquivos sedimentares para a reconstrução da história eruptiva dos sistemas vulcânicos dos Açores.
Financiado pela Fundação para a Ciência e a Tecnologia e com uma duração de 18 meses, o ExTRAP reúne uma equipa multidisciplinar de vulcanólogos, sedimentólogos, biólogos e paleoclimatólogos de várias instituições europeias (IVAR–UAc, CIBIO–Açores, Cardiff University, GEOMAR, Universidade da Coruña e GEO3BCN–CSIC), com vasta experiência no estudo de sequências sedimentares em diferentes contextos geológicos e ambientais.
A primeira fase deste projecto exploratório incluiu uma campanha de prospecção nas turfeiras da ilha do Pico que decorreu em Julho de 2025.
De acordo com o comunicado publicado pelo Instituto de Investigação em Vulcanologia e Avaliação de Riscos (IVAR), os sedimentos lacustres, turfa e níveis de tefra (escórias e cinzas vulcânicas) presentes nos testemunhos de sondagem recolhidos foram, entretanto, amostrados para análises geoquímicas, geocronológicas e paleoambientais.
Os dados obtidos têm como objectivo testar o potencial das turfeiras para a reconstrução detalhada da frequência e história eruptiva do Pico.
O ExTRAP actua em sinergia com outros projectos, contribuindo para o conhecimento das alterações climáticas ocorridas no Holoceno e do papel das turfeiras como sequestradoras de carbono.
De acordo com Adriano Pimentel, investigador do IVAR, em entrevista ao ‘Correio dos Açores’ em Janeiro deste ano, afirmou que, tradicionalmente, o estudo da história eruptiva dos sistemas vulcânicos dos Açores tem sido “baseado fundamentalmente nos registos subaéreos”, isto é, nos “depósitos vulcânicos que afloram em diferentes pontos das ilhas”. Para Pimentel, o carácter inovador do projecto ExTRAP prende-se com a “utilização, pela primeira vez, dos registos sedimentares das turfeiras com vista à reconstrução da actividade vulcânica passada”.
“O objectivo central deste projecto é, pela primeira vez no arquipélago dos Açores, aproveitar o registo sedimentar das turfeiras e explorar o seu potencial para a reconstrução da história e frequência eruptiva dos sistemas vulcânicos durante o Holoceno (isto é, nos últimos 11.700 anos)”, sublinhou o investigador.
O ExTRAP contribuirá também, a longo prazo, para o conhecimento das condições climáticas e ambientais passadas nos Açores e para a avaliação do papel das turfeiras como sequestradoras de carbono ao longo do tempo.
De acordo com Adriano Pimentel, a ilha do Pico foi seleccionada como local de estudo por apresentar, por um lado, uma grande extensão de turfeiras nas terras altas, em particular no Planalto da Achada (uma longa dorsal de cones de vulcânicos que se prolonga desde aproximadamente a zona da Lagoa do Capitão até à Ponta da Ilha a leste), e por outro lado, pela elevada frequência eruptiva (uma das mais altas dos Açores) deste mesmo sistema vulcânico do Planalto da Achada no “passado geológico recente”.
As turfeiras presentes em quase todas as ilhas do Açores, algumas das quais poderão ter sido antigas lagoas, constituem armadilhas ideais para a preservação de materiais piroclásticos emitidos durante erupções vulcânicas explosivas (por exemplo escórias, pedra-pomes, cinzas) globalmente designados por tefra, tendo o “potencial para preservar registos sedimentares particularmente ricos e contínuos”.
“Esta característica é especialmente importante em ilhas vulcânicas de pequenas dimensões, como as ilhas dos Açores, onde a aérea de deposição é naturalmente limitada e o potencial de preservação dos depósitos piroclásticos em terra é baixo devido à elevada erosão”, declarou.