Os líderes dos três maiores poluidores do planeta, Estados Unidos, China e Índia, não estarão presentes na COP30, que decorre em Belém, no Brasil. A ausência destes países coloca a União Europeia praticamente sozinha na defesa da acção climática global, num momento em que enfrenta também constrangimentos internos e prioridades concorrentes. Segundo a “Euronews”, a cimeira das Nações Unidas sobre o clima, que arrancou esta Segunda-feira, decorre sob o signo do cepticismo e da urgência.
A COP30 marca uma década desde o Acordo de Paris, quando os líderes mundiais se comprometeram a limitar o aquecimento global a 1,5 °C face aos níveis pré-industriais. No entanto, a dinâmica internacional tem vindo a abrandar. A China, responsável por 29,2% das emissões mundiais, será representada pelo vice-primeiro-ministro Ding Xuexiang, em substituição do presidente Xi Jinping. A Índia, que responde por 8,2% das emissões globais, será representada pelo embaixador no Brasil, Dinesh Bhatia. Já os Estados Unidos, responsáveis por 11,1% das emissões, não enviarão delegação, confirmando o afastamento da política climática internacional iniciado após a retirada do Acordo de Paris.
Com quase metade das emissões mundiais concentradas nestes três países, a União Europeia, que representa apenas 5,9% do total, procura manter viva a cooperação internacional. Contudo, enfrenta o dilema de continuar a liderar o esforço financeiro global enquanto lida internamente com pressões orçamentais, aumento das despesas em defesa e uma conjuntura económica frágil. “Para a Europa, é um exercício de equilíbrio delicado entre a coerência climática e as novas urgências geopolíticas”, observou um diplomata europeu ouvido pela “Euronews”.
Durante a COP30, os países desenvolvidos deverão anunciar novas metas de financiamento para apoiar o Sul Global na mitigação dos efeitos climáticos. O bloco europeu, que em 2024 mobilizou 42,7 mil milhões de euros em fundos públicos e privados internacionais, promete continuar a ser o maior contribuinte mundial. No entanto, as economias em desenvolvimento exigem mais. De acordo com o que recorda a “Euronews”, na COP29, em Baku, os países do Sul pediram 1,3 biliões de dólares anuais para adaptação e mitigação climática. O valor prometido pelas nações ricas ficou-se pelos 300 mil milhões.
A presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, afirmou que Belém deve ser o ponto de viragem: “A COP30 tem de gerar resultados concretos para os países mais vulneráveis. Continuamos a ser o principal financiador global e, através do Global Gateway, mobilizaremos novos investimentos verdes”, declarou à “Euronews”. Também o comissário europeu para a Acção Climática, Wopke Hoekstra, reforçou o apelo à co-responsabilidade: “A Europa é responsável por apenas 6% das emissões globais, mas todos devem fazer a sua parte. Exortamos os países desenvolvidos e de rendimento médio-alto a cumprirem os compromissos assumidos.”
Entre as críticas internas, o eurodeputado austríaco Roman Haider, do grupo Patriotas pela Europa, acusou Bruxelas de sacrificar a competitividade europeia: “As cimeiras da COP transformaram-se numa caixa multibanco global para financiar promessas vazias. A Europa está a empobrecer enquanto a China e a Índia se riem à porta fechada”, afirmou em declarações à “Euronews”.
Em contrapartida, organizações ambientalistas insistem na necessidade de manter a ambição climática. Chiara Martinelli, directora da Climate Action Network Europe, exortou os líderes europeus a apresentar um “pacote justo e ambicioso” e a restaurar a fé no multilateralismo: “A força política da UE deve permanecer inabalável. Ainda é possível preservar o objectivo de 1,5 °C e reforçar a solidariedade global”, afirmou à “Euronews”.
A COP30 decorre num contexto de crescente urgência climática e cepticismo político, num mundo onde os maiores emissores parecem cada vez mais afastados da cooperação internacional. Para a União Europeia, o desafio será manter a liderança num esforço colectivo que já não é, de facto, colectivo.
