Hoje, celebramos o Dia Mundial dos Pobres, instituído pelo Papa Francisco para recordar que a pobreza «está no coração do Evangelho», e é difícil não sentir neste dia um misto de consolo e inquietação. Este gesto papal teve a sua primeira edição 19 de Novembro de 2017, e pretendeu transformar a piedade em compromisso público e prático, lembrando que as esmolas não substituem as políticas e também não esgotam a caridade cristã.
Em Portugal, as estatísticas mais recentes traçam um retrato ambíguo sobre a pobreza, dado que houve alguma melhoria na taxa de risco de pobreza, mas a realidade continua a ferir. Segundo o Instituto Nacional de Estatística, a taxa de risco de pobreza situou-se em 16,6% em 2023, um recuo face a anos anteriores, ainda que muitos vivam com rendimentos abaixo do limiar de pobreza considerado minimamente aceitável.
Na nossa Região, porém, a vulnerabilidade e a realidade é mais acentuada. Os dados regionais mostram que, em 2022, 26,1% da população açoriana estava em risco de pobreza, mesmo considerando os largos apoios sociais, o que mostra uma deterioração de um ponto percentual em relação a 2021, um patamar claramente superior ao do Continente e que evidencia desigualdades persistentes entre os Açores e o país no seu todo. Para muitos pobres nas diversas ilhas, sobretudo na maior, S. Miguel, a precariedade dos rendimentos combina-se com custos de vida específicos e oportunidades limitadas, criando um ciclo de pobreza difícil de romper.
É perturbante ler estes números à luz da mensagem papal, dado que o Papa Francisco não se cansava de dizer que a Igreja deveria «ir às periferias», e lembrava que a presença de voluntariado e de instituições de solidariedade, como as Misericórdias, embora indispensáveis, não substituem as necessárias medidas públicas robustas de redistribuição de riqueza, acesso a habitação e políticas de emprego dignas. A redução da taxa de risco de pobreza é, portanto, necessária, preocupante e urgente, enquanto as bolsas de pobreza, como as que persistem nos Açores, continuarem a existir.
Há também uma dimensão humana a considerar, pois o sofrimento e a pobreza não podem ser romantizados. Na sua carta apostólica sobre o sofrimento – Salvifici Doloris – João Paulo II meditou sobre o sentido do sofrimento na vida humana, chamando-o, em termos cristãos, a uma participação no mistério pascal, mas sem jamais esquecer a urgência de o aliviar. É uma advertência para que não transformemos as dores sociais em virtudes belas de que nos vangloriamos, antes em desafios que exigem resposta concreta. Trata-se de uma oportunidade de termos o consolo de, despretensiosamente, darmos a mão e ajudar os que estão ao nosso lado e que precisam de amparo.
O Dia dos Pobres, deste modo, deve funcionar como um espelho, mostrando-nos o rosto daqueles que a economia invisibiliza e interpela, tanto instituições como cidadãos. Nos Açores, como no resto do país, a resposta tem de ser começar pelo reforço das redes de protecção social e políticas estruturais que aumentem rendimentos e oportunidades, desde incentivo à economia local até aos cuidados a crianças e jovens e à formação profissional e, ao mesmo tempo, uma pastoral que escute, dignifique e acompanhe.
Neste Dia Mundial dos Pobres, não basta acender velas nas igrejas nem distribuir sopas uma vez por semana. Se o Dia Mundial dos Pobres nos serve para recordar uma verdade cristã de que cada pessoa é imagem de Deus, então que ele também nos impele a alertar os governantes e autarcas a mudarem orçamentos e leis, para que num país e num arquipélago onde a pobreza tem deixado marcas bem visíveis, a compaixão se traduza em justiça social palpável. Só assim a celebração deixará de ser um gesto simbólico para se tornar história de transformação.
Por; António Pedro Costa