O documentário “Meia Milha para Baixo”, realizado por Pepe Brix, retrata o papel pioneiro dos Açores na investigação e exploração do oceano profundo. Em entrevista ao ‘Correio dos Açores’, o realizador destaca a criação da “Azor Drift Cam”, plataforma de vídeo de baixo custo desenvolvida pelo Instituto OKEANOS, descrevendo-a como “uma ferramenta revolucionária” que está a democratizar o estudo do mar profundo.
Correio dos Açores – Como surge a ideia de realizar “Meia Milha para Baixo”?
Pepe Brix (realizador e fotógrafo) – Este projecto nasce no âmbito do Grupo de Investigação do Mar Profundo do Instituto OKEANOS, que assinou um contrato importante com o Governo Regional para mapear vários montes submarinos ao largo dos Açores. E, como já é habitual, surgiu também o interesse em criar um plano de comunicação que aproximasse as pessoas destes ecossistemas tão sensíveis e que exigem grande protecção.
Com esse convite, abriu-se um caminho de dois anos em que tivemos tempo para recolher imagens de todos os processos de trabalho da equipa, das suas participações em algumas expedições internacionais e, depois, desenvolver toda a fase de escrita, guião e edição.
Utilizaram tecnologias como a Azor Drift Cam. Quais foram os maiores desafios técnicos, tendo em conta que se trata do Mar Profundo?
O próprio documentário aborda a criação desta ferramenta, Azor Drift Cam, desenvolvida pelo OKEANOS da Universidade dos Açores. É um equipamento revolucionário porque o acesso ao mar profundo é extremamente difícil: estamos a falar de profundidades abaixo dos 200 metros, num ambiente muito hostil.
O mar profundo ocupa 65% da crosta terrestre, uma área imensa onde os equipamentos necessários são muito caros. Há poucas equipas no mundo com capacidade para recolher dados em quantidade. A Azor Drift Cam vem precisamente alterar esse cenário: é uma câmara optimizada para operar nos barcos usados na Região, como o navio “Arquipelago” e outras embarcações pequenas. A ideia é que esta estrutura possa ser replicada em larga escala e usada por equipas de outras regiões do planeta, permitindo mapear o mar profundo de forma mais eficaz.
O documentário é muito sobre o caminho que levou à criação da Azor Drift Cam, sobre o que se tem conseguido com ela e sobre a comparação com missões de grandes entidades exploratórias, como a OceanX, que dispõem de submarinos e outros recursos. A equipa do OKEANOS participa nessas expedições, onde consegue recolher amostras e aceder a equipamentos que permitem outro tipo de análises.
Da minha parte, filmei o trabalho à superfície: laboratório, construção da Azor Drift Cam, etc. Acompanhei ainda dois mergulhos nos submarinos da OceanX com os investigadores do OKEANOS. As imagens que sustentam o documentário resultam dessas gravações ao longo de dois anos e também de um banco de imagens ao qual o grupo tem acesso, fruto de missões com a NOAA (National Oceanic and Atmospheric Administration), entre outras, e que agora pudemos utilizar.
Tendo em conta o contacto com os investigadores e o desenvolvimento deste documentário, que papel desempenham os Açores hoje, e poderão desempenhar no futuro, na investigação marinha, especialmente no mar profundo?
Essa é a questão central do documentário. Ao mostrar o trabalho do Grupo de Investigação do Mar Profundo do OKEANOS, fica evidente a importância global da investigação feita nos Açores por duas razões fundamentais. Primeiro, a posição geográfica: os Açores estão sobre a maior cordilheira montanhosa submersa do mundo, a Crista Mesoatlântica, uma zona de enorme interesse científico.
Segundo, com a inovação da Azor Drift Cam, o grupo conseguiu inverter o paradigma do difícil acesso ao mar profundo, criando condições para democratizar essa exploração. Isso tem um impacto enorme, porque permitirá que grupos de investigação de todo o mundo recolham dados de forma muito mais abundante e contribuam para o mapeamento global dos ecossistemas do mar profundo.
José Henrique Andrade
