Foi com emoção que o Padre Agostinho Lima, ouvidor do Nordeste, reviveu a sua convivência com o saudoso padre Dr. Laudalino Moniz de Sá, natural da Maia, que durante vários anos foi professor do Seminário de Angra. A Santa Casa da Maia fez-lhe justiça, promovendo uma digna homenagem, na presença de muitos convidados, familiares e amigos.
Antes de mais agradeço o honroso convite que me fizeram para estar presente nesta homenagem ao Pe Dr. Laudalino da Câmara Moniz de Sá, ilustre sacerdote da nossa diocese de Angra.
Confesso, não por falsas modéstias, que hoje super abundam, um pouco por toda a parte, que não sou a pessoa mais indicada para o fazer, porque o meu foco apenas atinge o padre Dr. numa pequena parte da altura em que frequentei o Seminário Episcopal de Angra.
A primeira vez que encontrei o Padre Laudalino foi aqui na Maia. Porque aqui vivi durante doze anos antes de ingressar no Seminário Colégio, em Ponta Delgada. Vivi nesta terra que muito me diz. E guardo recordações muito lindas desta terra e desta gente. Apetece-me dizer como o fadista: “Ó tempo volta para trás!” Terra dos Padres Deodato Arlino Cabral de Melo e João Joaquim Borges. Francisco Valério, Aurélio Botelho, amigos do meu pai, Dr Alick Pavão, Conceição Remígio, minha exigentíssima professora, João do Monte, um artista… e tantos outros. Morei aqui, na Rua da Boavista, nº 49, então residência da Guarda Fiscal na Maia. Abaixo da minha casa situava-se o Talho da Maia, do Sr. José de Melo. O pai do Padre Laudalino e família sempre estiveram ligados a negócios e, por mais de uma vez, aí, junto à minha casa, encontrei o Padre Laudalino, então seminarista, que acompanhava o seu pai e, por vezes os seus irmãos. E, para uma criança como eu, habituada a outro tipo de sacerdotes, ficava entusiasmado com o seminarista que não tinha pejo em pegar no camião, nem tampouco colaborar com a família, se necessário fosse, no que fosse necessário. Mas, o que mais me impressionava era o seu sorriso aberto, tão arredio na maior parte dos seus colegas!
Grandes Homens do Saber
Quando ingresso no Seminário de Angra, tenho como prefeito e professor de Latim o Pe José António Piques García, natural da Matriz da Ribeira Grande e, como crianças, e ainda, como forma de os adocicar, alguns eram muito azedinhos, lá perguntávamos pelos seus colegas de curso. Conversa fiada! Coisas de crianças e ele lá dizia que tinha como colegas o Pe António Rego, o grande padre da comunicação social da igreja portuguesa do “Toda a Gente é Pessoa”, “70 x 7”, “Oitavo Dia” e a “A Fé dos Homens”. Outro colega, o José Luís Rodrigues, aqui da Maia, simpatiquíssimo, e o Padre Laudalino Moniz, entre outros.
O meu seminário era, nesse tempo, dirigido por grandes homens do saber como o Dr. Cunha de Oliveira, Dr. Edmundo Machado de Oliveira, Dr. Francisco Carmo, Dr. Américo Caetano Vieira, Dr. Caetano Tomás, Dr. Artur Goulart, Mons. Augusto Cabral. Mais tarde, este corpo docente perde alguns dos seus mais importantes elementos. Surgem, então, outros sacerdotes também de grande nível como o Dr. Manuel António Pimentel, grande referência do clero açoriano, natural de Furnas e professor de Direito e Moral, Dr. António Cordeiro, tio do Dr. Vasco Cordeiro, Dr. António Rogério Gomes, Dr. Caetano Valadão e o Pe Laudalino Moniz de Sá.
Nesse tempo, o nosso Seminário era a “universidade” dos Açores. Não havia outra! A Universidade dos Açores só foi fundada em 9 de janeiro de 1976, primeiramente com a designação de Instituto Universitário dos Açores, tendo sido posteriormente rebatizada como Universidade dos Açores em 1980. Com a prestimosa colaboração de alguns docentes do nosso seminário saíram as Semanas de Estudo com grande impacto e projeção nuns Açores marcados por uma obnubilação persistente e o Instituto Açoriano da Cultura (IAC) – um dos principais promotores das primeiras edições dessas semanas e outros eventos de enorme qualidade, com foco na valorização da cultura, história e identidade regional também viveu muitos anos à sombra do Seminário de Angra. Nunca se poderá esquecer o famoso Orfeão do Seminário, entre outros, superiormente dirigido pelo ribeira-grandense Edmundo Machado Oliveira. A 7 de março, celebrávamos S. Tomás de Aquino e, à noite, o Seminário vestia -se de gala e oferecia um memorável espectáculo musical aos angrenses.
Paróquias muito vivas
O padre Laudalino, vindo de Roma, teve como cenário, ou pano de fundo – expressões muito utilizadas nas suas aulas de escritura -, uma cidade de Angra, pós-conciliar, muito empreendedora. Paróquias muito vivas, a respirar o fresquíssimo concilio vaticano II. Eucaristias com grande participação de fiéis, servida por sacerdotes exemplares como o Cónego José Garcia, Padre Avelino do Coração de Jesus e Padre António do Rego. Com excelentes boletins paroquiais e com o órgão da diocese – o saudoso Jornal “A União” prenhe de vitalidade, superiormente dirigido por Cunha de Oliveira e Artur Goulart.
O padre Laudalino depressa conquistou os seus alunos. Era um padre diferente, um professor também diferente, próximo. Podíamos brincar com ele. De comunicação fácil, utilizava muito a expressão “velho mestre!”, expressão com que atribuía qualidade a quem a mesma era dirigida. “Velho mestre!”, E nós retribuíamos: agora, temos aula com o “Velho mestre”. Lembro-me das aulas de Sagrada Escritura que ele tinha o dom de tornar a matéria mais acessível à maioria dos seus alunos. Nem todos eram águias! O que ele também tentava no Grego e no Hebraico, com maiores dificuldades, é certo, dadas as caraterísticas especificas dessas disciplinas.
Fora das aulas era um como nós. Foi ecónomo do seminário durante algum tempo. E, aí, gostávamos de o provocar dizendo que tínhamos encontrado, em determinada mercearia, preços abaixo dos praticados ao que ele ripostava: arranja-me já 50 Kilos desse produto! De contas e negócios percebia ele e era perda de tempo metermo-nos com ele sobre esse assunto.
Era generoso e, naquele tempo os seminaristas, a maior parte, tinha as suas dificuldades. A vida não era fácil e o dinheirinho era muito contadinho e os nossos irmãos, que ficavam em casa, sacrificavam-se muito pelos seus irmãos seminaristas. Era verdade! De vez em quando, o padre Laudalino chamava-nos ao seu quarto e: isto é para ti! Isto é para aquele! Lá doava alguns bens de que não necessitava. A este ato generoso foi posto o nome de “feirar”. E, então, a malta de vez em quando lembrava: Dr, quando é que vamos de novo feirar? Uma pândega! O termo feirar engordou de significação! Também passou a significar as festas que fazíamos à socapa, nos quartos uns dos outros, e o padre Laudalino, já então vice-reitor, puxava-nos as orelhas dizendo – vocês só querem é feirar! Só feirar! Feirar!
O padre Laudalino da Câmara Moniz de Sá teve um papel relevante em obras ligadas à Igreja e à formação sacerdotal, nomeadamente na reconstrução do Seminário de Angra após o terramoto de 1980, que afectou significativamente a estrutura do edifício. Essa obra, reaberta em 1985, contou com a sua actuação junto ao bispo diocesano e outros responsáveis, demonstrando sua dedicação à missão eclesial e ao avanço das instituições católicas na região. Além do mais, o padre Laudalino contou com o trabalho de muitos dos seminaristas que então frequentavam o seminário. Possuía este espírito congregador, empenhando a comunidade na reconstrução da casa santa mimosa de Deus – como se cantava no hino do seminário – que a todos dizia respeito.
Muito trabalhou no seminário, sobretudo após o sismo de 80. Não se furtava ao trabalho e nunca poderá ser esquecido o seu abnegado desempenho e competência numa situação altamente crítica por que passou Angra e o seu Seminário.
Vibrantes e destemidas Homilias
De sorriso fácil, arrojado nas suas iniciativas, muito convicto das suas ideias começou a “dar nas vistas” na exigente sociedade angrense. Tornou-se o “padre da moda” nos cursos de cristandade, já que o padre Laudalino Sá teve enorme influência na consolidação e expansão desse movimento de renovação da igreja açoriana, tão em voga nesse tempo pós-conciliar. Não podemos esquecer as eucaristias na paróquia da Conceição de Angra e as suas vibrantes e destemidas homilias, com o objectivo de denunciar a situações anómalas por que passava o país e os Açores, na sequência do movimento libertador do 25 de abril.
A sua ação fez -se sentir em outros campos. Seria fastidioso assinalá-los aqui. Porém, a sua ação em prol das santas Casas foi deveras assinalável. Aqui foi um inovador, alterando modos de actuação desadequados no tempo e imprimindo vitalidade a instituições paradas no tempo. A sua brilhante inteligência, aliada a uma invejável componente prática, que o distinguia dos seus pares, com a utilização de um discurso altamente combativo, fizeram dele uma mais-valia na modernização da actuação das santas Casas em todos os Açores.
A terminar, podemos afirmar que o Padre Dr. Laudalino da Câmara Moniz de Sá foi um grande sacerdote da nossa diocese, recordado notavelmente em toda a região dos Açores. Para além de outras homenagens, recordamos a que a Escola Básica e Jardim de Infância Padre Dr. Laudalino da Câmara Moniz de Sá, localizada em Porto Formoso, Ribeira Grande, São Miguel lhe prestou, como forma de assinalar a sua importância na comunidade local, tendo em conta a sua contribuição para a educação e serviço religioso na área.
A Assembleia Legislativa dos Açores aprovou um voto de condolências, após a sua morte, a 16 de Dezembro 1994.
Agradeço a paciência que tiveram em me ouvir. Tive como objectivo “puxar a fita atrás” do gravador da minha memória e partilhar convosco o que eu e, possivelmente, os meus colegas de então, viveram e conviveram com esse grande homem – Laudalino Moniz – o velho mestre!
(Discurso proferido pelo
Pe. Agostinho Lima)
Por: Eduardo de Medeiros