Tibério Barbeito criou a “Casa do Portinho”, a primeira marca açoriana que se foca na produção de peixe defumado de forma artesanal. A iniciativa surgiu pelo “respeito profundo ao mar, aliado à imaginação e à necessidade de evoluir o sector das pescas de forma sustentável”. O projecto também pretende valorizar e preservar os costumes da pesca na Região, ao mesmo tempo que oferece pescado diferente e gourmet à comunidade.
Sediada na Ilha Terceira, a Casa do Portinho é um estabelecimento que produz pescado fumado de forma artesanal nos Açores e é uma Unidade Produtiva Artesanal certificada pelo Governo Regional dos Açores. No espaço também trabalha o único artesão do arquipélago certificado no segmento. A produtora pretende apoiar a pesca e a sustentabilidade do sector bem como os seus ecossistemas marinhos. As instalações ficam situadas na “Quinta dos Cedros”.
Para que fique a conhecer esta produtora de alimentos, o nosso jornal esteve à conversa com Tibério Barbeito, natural da ilha Terceira, o fundador e o proprietário da Casa do Portinho.
O produtor revelou que desde jovem pratica mergulho e que essa actividade fez com que criasse uma “paixão inabalável” pelas águas da zona. Foi este entusiasmo que o levou a ser profissional no sector das pescas e sobre o conhecimento que adquiriu das espécies e ecossistemas da área, afirma: “A sua história está directamente conectada à minha”.
Contudo, foi apenas no final de 2016, na Ilha Terceira, numa casa de traça antiga à beira mar e com vista para o Portinho de S. Guilherme, que surgiu o gosto do fundador pela tradição de defumar peixe. A casa, segundo o próprio, transporta para o Século XIX e tinha um forno com uma chaminé tradicional que viriam a funcionar como inspiração tanto para o nome como para o seu logótipo.
“O local tem a missão de enaltecer e conservar as tradições da pesca regional através do preparo de produtos com alma açoriana que proporcionem à sociedade experiências gastronómicas únicas”, revelou o terceirense.
O proprietário salientou que “os produtos oferecem uma versão contemporânea e original dos aromas e sabores da antiga defumação, sempre com recurso à nossa melhor matéria-prima e à nossa madeira endémica: faia-da-terra”.
O processo aplicado na fábrica é definido pelo empreendedor como “algo que não é novo, que apenas se diferencia pela madeira utilizada e por ser defumado a frio”. A produção é realizada em 3 etapas diferentes. Começa com a captura do animal que a empresa faz questão que seja de origem açoriana e capturado de forma sustentável. O método é 100% artesanal e livre de aditivos e corantes.
A segunda fase foca-se na madeira, a unidade utiliza a faia-da-terra, uma espécie endémica do arquipélago. Ao ser questionado pelo motivo de optar por este material, o entrevistado confirmou que é pelo facto de ser “uma faia do território, por não ser muito resinosa e por ser rica em aromas e sabores únicos”. O produtor acrescentou ainda que a sua utilização permite “dar uma identidade ao projecto, uma vez que existe somente nas ilhas”.
A terceira e última etapa é o fumo, onde um fumeiro tradicional a frio é adaptado para que seja possível “garantir que o produto que chega apresente uma textura suave e uma cor e sabor inigualável”.
“Na Casa do Portinho gostamos de saber como tudo funciona! Por isso, estamos envolvidos em cada etapa do método. Da captura, até ao embalamento, preparação, finalização e corte. Acompanhamos todos os passos, garantido que será entregue um produto de qualidade superior. Todo este processo foi concebido por nós e é executado de acordo com as mais elevadas exigências de higiene e segurança alimentar. Conseguimos assim garantir os padrões de qualidade dos nossos artigos, manter uma produção de forma manual e permite-nos responder rapidamente às exigências de mercado”, sublinhou o proprietário.
Os principais clientes do negócio são provenientes de diversos locais do mundo: “Os principais consumidores são empresas sediadas na Região Autónoma dos Açores, no Continente, e em outros países como Estados Unidos da América, Espanha, França e Áustria”, afirmou. E no que toca aos obstáculos enfrentados o entrevistado destacou “a logística de transportes das mercadorias para fora da ilha e em determinados meses a captura do animal para fazer face à procura existente”.
Revela ainda que a iniciativa tem uma participação acentuada na economia local: “O impacto acontece pelo facto de nós utilizarmos espécies que não são valorizadas. Com isto conseguimos criar uma marca onde sejam valorizadas e fazendo com que sejam exportadas até outros horizontes. O tipo de peixe com o qual nós trabalhamos não tinha nenhum valor comercial”, salientou.
A fábrica conta com produtos em lata compostos por diferentes espécies como atum-patudo, bonito, chicharro, cavala, veja e bicuda. Já os alimentos em vácuo são atum-patudo, chicharro-do-alto, cavala e veja.
Acrescenta que valorizam a região açoriana ao “sermos mais uma oferta, mais um produto e mais uma conserveira, mesmo que gourmet. Contribuímos para a sustentabilidade açoriana porque trabalhamos só com o nosso pescado, mas em pequena escala”.
Para o futuro, a Casa do Portinho ambiciona ampliar a quantidade de oferta que tem disponível: “Pretendemos aumentar a gama de produtos, contudo, neste momento já temos uma selecção bastante diversificada”.
“O projecto ‘Casa do Portinho’ visa ajudar a que se obtenham mais-valias socioeconómicas com o maior respeito pela sustentabilidade dos recursos do mar dos Açores. De facto, e apesar de ser baseado numa actividade extractiva, este projecto utiliza apenas espécies cujos stocks se encontram saudáveis e cuja pesca seja feita de forma artesanal. Queremos respeitar as tradições e oferecer soluções para que as comunidades piscatórias possam desenvolver esta actividade de forma rentável. Acreditamos que estamos a ajudar a pesca a evoluir de forma positiva”, concluiu Tibério Barbeito.
Diogo Simões Pires