Em política, como em quase tudo na vida, há escolhas a fazer. O investimento público deve ser ponderado à luz de vários critérios: a proteção de pessoas e bens, o estímulo à atividade empresarial, a preservação do património e, sobretudo, a promoção do investimento produtivo.
No Plano e Orçamento de 2026, São Miguel surge como a ilha com menor investimento per capita. Consequentemente, Ponta Delgada — o concelho mais populoso e o que mais riqueza gera — regista igualmente o mais baixo investimento per capita.
Não é tarefa simples, mas cabe ao Governo dos Açores identificar, com rigor, o que é urgente e o que é necessário.
O Porto de Santa Iria constitui uma necessidade, mas não uma emergência. O investimento previsto de 4 milhões de euros, por si só, não criará investimento reprodutivo. Já o acesso à Zona da Ferraria é, essa sim, uma emergência. A ausência de verba no orçamento para 2026 implicará perdas financeiras sérias para as cinco famílias que trabalham no espaço das Termas, bem como para a freguesia, o concelho e a ilha.
A melhoria da estrada regional Ponta Delgada–Mosteiros — não a criação de uma scut, mas intervenções por troços que eliminem curvas — é outra urgência. Estão previstos apenas 20 mil euros, além de inscrições anteriores em orçamento cujo resultado é desconhecido. Quem duvidar da urgência, convido-o a percorrer esse trajeto, duas vezes por dia, de carro ou autocarro.
O investimento destinado aos caminhos agrícolas e florestais é irrisório: apenas 1 milhão de euros para São Miguel, a ilha com maior atividade agrícola. Nas Infraestruturas Públicas de Apoio ao Setor Produtivo, São Miguel recebe apenas 11% do total regional — 3 843 450 euros.
O Porto de Ponta Delgada tem um investimento previsto de apenas 30 mil euros. Quando falhar este porto, como fica a produção de riqueza nos Açores? Quanto ao Hospital de Ponta Delgada — cuja possibilidade de se afirmar como Hospital Universitário parece ser evitada por receio das críticas de bairrismo — conta com 8 milhões de euros e uma remodelação inscrita no valor de 13 920 euros. Quando falhar este hospital como fica a saúde nos Açores?
O grande desafio deste Governo entre o concluir o PRR, deveria ser o de garantir a efetiva dinamização empresarial, enfrentar o grave flagelo social vivido em Ponta Delgada e a emergência cívica e de desenvolvimento que se vive em todas as ilhas. Uma atenção especial ao alegado sucesso escolar, ensino regular e profissional, que não corresponde à realidade, e por isso a economia não se desenvolve, tem impactos profundos no desenvolvimento social e económico.
Não basta distribuir pequenas verbas por rubricas apenas para criar a ilusão de que se atende a todas as necessidades; na prática, essa dispersão inviabiliza o que realmente é urgente.
É preciso coragem para intervir onde a urgência é real, com visão de futuro, e não com ações imediatistas ou meros atos de corte de fitas. A coragem e a visão não se perdem com leituras fáceis de bairrismo, mas afirmam-se na capacidade de responder, de forma efetiva, às necessidades das pessoas e promover investimentos produtivos para melhor distribuir riqueza nos Açores.
Investimentos não produtivos, cuja base de decisão é apenas partidária ou sob o pretexto de um falso desenvolvimento harmónico, limitam o desenvolvimento dos Açores.
Por: Sónia Nicolau