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Em tempo de pleno emprego, o governo dá uma ajuda

José Manuel Bolieiro chegou ao poder através de uma geringonça regional, alicerçada na disponibilidade do Chega. Foi assim possível, em 2020, afastar os socialistas do poder com a perspectiva de alteração de políticas e protagonistas, acabando com vícios que se tinham vindo a acumular, depois de quase uma quarto de século com responsabilidades executivas. Não obstante a tentativa de Vasco Cordeiro, após 2012, de induzir outros caminhos, de maior transparência, mais proximidade entre eleitores e eleitos, com uma presidência mais desempoeirada, o resultado é por todos conhecido. Os votos dos centristas e monárquicos ajudaram à contenda. E assim José Manuel Bolieiro passou a ocupar o Palácio de Sant`Ana, com um mandato para reformar a região.
Começou-se pelas exigências do Chega. Menos apoios sociais para quem pode trabalhar, mais combate à corrupção, com a criação de uma entidade que é hoje uma secretária com três cadeiras, a depender do presidente do executivo. Num caso e no outro não se estudou nada, não se procurou as causas, tratou de se culpar as consequências. Vendeu-se uma ideia de modernidade alicerçada na honestidade, no fim das mordomias, no controlo de custos. Criticou-se, e bem, a demasiada partidarização da administração pública regional, preferindo-se, quase sempre, a confiança política à competência, muito raramente juntando as duas na mesma nomeação. Fizeram-se acusações, e bem, do constante pauperismo das finanças públicas, a suborçamentação, as cativações, a demora nos pagamentos a fornecedores. Apontou-se a degradação do património público, visível aos olhos de quem o usava. Constatou-se que o governo não decidia, fazia a gestão dos casos mais difíceis, depois deles acontecerem, sem antecipar os problemas, e muito menos as suas soluções. Acusou-se os outros de terem os seus dirigentes a viajar à conta do orçamento, só para inglês ver. E agora, que são os nossos?
Acabou-se a fazer o mesmo, mas mais depressa e com maior prevalência incompetente. O que é feito do espírito crítico de personagens como Joaquim Machado? Uma coisa é ser solidário com os seus companheiros de governo, outra é fechar os olhos ao descalabro que abunda por essas ilhas. Desde os primeiros saneamentos políticos – alguns compreensíveis pela necessária confiança política –, até ao panorama atual, seguiu já um longo caminho. E se há gente como Solange Ponte, recentemente indicada para liderar uma estrutura de missão, com capacidades técnicas, intelectuais e proximidade política que se compreende, a mais recente indicação para o Comissariado dos Açores para a Infância é de bradar aos céus. O despacho, como habitualmente, repleto de semântica habitual nestas ocasiões, celebra a indicação como sendo o caso de uma personalidade de reconhecido mérito. Deus nos ajude, se passados cinco anos da primeira tomada de posse do executivo, já estamos a recolher capacitados com este nível de mérito, para cargos institucionais desta importância. Ninguém o levará a sério, e talvez seja através de Carmen Ventura, a sua subalterna na hierarquia do comissariado, que a defesa das crianças da região junto das CPCJ, das forças de segurança e dos tribunais, poderá ter pernas para a andar.
O carácter mais nefasto deste fartote, da falta de noção do que é exigido para um cargo como este, é a consumação clara de que tudo é possível fazer, sem que a governação seja posta em causa. Isto num cenário de maioria relativa, com um executivo que é assegurado por três forças políticas com poderes executivos, para além do pouco notado apoio parlamentar de José Pacheco e dos seus correligionários. A causa maior, para este à-vontade na gestão da coisa pública, é a fraqueza da oposição, a começar pelo partido que governou ininterruptamente vinte e quatro anos. Sem quadros, sem capacidade e sem saber fazer política na oposição, os socialistas não têm direção, e não têm gente a quem chamar liderança. E assim se deixa governar sem critério, com o aumento exponencial de cargos de confiança política, associados à mais baixa competência técnica e conhecimento empírico e académico. Governa-se para manter o lugar. Assim não vale a pena.
Por: Fernando Marta

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